Ao observarmos os desdobramentos sobre o Irã, com o recuo de Donald Trump após uma escalada de ataques e ameaças, vemos uma nação que estudou profundamente as estratégias e táticas das guerras convencionais travadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas. Eles aprenderam, inclusive com o exemplo histórico do Vietnã, como transformar a assimetria em uma vantagem estratégica para o país tecnologicamente mais frágil. Frequentemente, a conjuntura nos coloca questões urgentes que se impõem sobre a nossa própria soberania nacional. Muitos brasileiros se perguntam quais lições podemos tirar do conflito e se o Brasil corre riscos semelhantes aos de outros líderes, como Nicolás Maduro. Existe uma preocupação real sobre a nossa exposição a ameaças externas coordenadas que poderiam comprometer a segurança do presidente e a autonomia do país. A realidade é que o Brasil é um país altamente vulnerável.
O Irã se preparou para o cenário atual criando um robusto complexo industrial de defesa. Hoje, eles são capazes de produzir milhares de drones diariamente, além de mísseis balísticos de longo alcance. Esse investimento em capacidade produtiva e tecnologia militar garante ao Irã um nível de vantagem estratégica que poucos países em condições similares possuem atualmente. Dois pontos são fundamentais nesta análise. O primeiro refere-se ao estudo da arte da guerra, tema ao qual nossos militares, em instituições como a Academia Militar das Agulhas Negras e a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, já possuem acesso e que, portanto, não discutirei aqui. O segundo ponto é que o Irã é hoje o quinto país que mais forma engenheiros no mundo. Esses profissionais não são formados apenas para a infraestrutura civil, como estradas e ferrovias: eles são orientados especificamente para a construção do complexo industrial de defesa. Além disso, o Irã possui alguns dos melhores físicos do mundo. Apesar de cientistas brilhantes terem sido assassinados por Israel e pelos Estados Unidos nos últimos 15 anos, isso não diminuiu a capacidade iraniana de desenvolver seu complexo de defesa.
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A grande lição para nós é que o Brasil precisa construir um grande complexo industrial de defesa. No entanto, devemos observar as particularidades brasileiras em relação às do Irã, país que está excluído do sistema financeiro internacional e vive sob intensas sanções econômicas, o que restringe sua capacidade de importar equipamentos e limita seu raio de manobra para desenvolver ainda mais sua autodefesa.
Mais do que isso, o Irã enfrenta dificuldades para consolidar uma indústria pesada de grande porte — aquela capaz de produzir as máquinas que produzem máquinas — em uma escala proporcional à sua população de 90 milhões de habitantes. As necessidades de defesa do Irã enfrentam um obstáculo significativo: sua indústria pesada está, em grande medida, fora do país, o que dificulta a existência de um complexo de defesa ainda mais eficiente. Apesar disso, é notável a capacidade iraniana de construir um complexo industrial capaz de resistir a ataques e manter uma contraofensiva que inclui a destruição de bases militares estrangeiras e o uso de mísseis balísticos. Ao controlar o Estreito de Ormuz, o Irã realiza feitos considerados inacreditáveis por muitos analistas ocidentais.
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O Brasil possui uma vantagem estratégica em relação ao Irã, pois pode tomar a decisão soberana de construir seu próprio complexo industrial de defesa. Para que isso ocorra, é necessário formar uma maioria política capaz de perceber que o mundo atual é marcado por constantes violações de soberania, como as operações militares observadas em diversos países e o caso flagrante da Venezuela. O Brasil deve pensar seriamente em sua proteção, visto que é um alvo prioritário devido aos seus valiosos ativos estratégicos: petróleo, terras raras, água e biodiversidade.
Esses recursos despertam total interesse externo, o que se reflete inclusive nas disputas eleitorais brasileiras. Existe um esforço estrangeiro, especificamente dos Estados Unidos, para eleger candidatos alinhados aos seus interesses, visando garantir acesso privilegiado aos recursos naturais do nosso país. Portanto, a lição fundamental que devemos aprender é a importância de construir uma maioria social e política comprometida com a defesa da nação, impedindo que o Brasil seja tratado como uma colônia fornecedora de riquezas para interesses externos.
Essa tarefa política é complexa porque vivemos sob a sombra da chamada guerra híbrida. No Brasil, a falta de informações relevantes sobre esse cenário leva a um nível de consciência nacional muito baixo, atingindo a população, a classe média e até nossos intelectuais. Se tivéssemos uma classe média e uma academia capazes de pensar estrategicamente e observar as ameaças globais contra o Brasil, não estaríamos discutindo apenas a construção de um complexo de defesa, mas a própria reindustrialização do país. Para enfrentar o mundo atual, é fundamental construirmos um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Podemos observar o exemplo do Irã. Embora seja uma teocracia com eleições e divisões internas entre conservadores e moderados, a sociedade iraniana possui pontos fundamentais de acordo. Independentemente das discordâncias políticas, ninguém abre mão da construção contínua das capacidades de defesa.
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Os iranianos têm clareza de que, como uma civilização de 5 mil anos, travam uma luta existencial contra ameaças externas. Esse grau de consciência social e política permite que o Irã mantenha um projeto nacional focado na capacidade de se defender de ataques externos, assemelhando-se, nesse aspecto, ao modelo de soberania da Coreia do Norte. O Brasil deveria seguir um caminho de soberania e, para isso, é preciso identificar a contradição principal que nos aflige hoje. Embora muitos, inclusive na esquerda, foquem no embate entre fascismo e democracia, acredito que a verdadeira questão de fundo, que definirá nosso futuro, é a disputa entre o fascismo e um projeto nacional.
O fascismo no Brasil possui um caráter claramente antinacional. Seus defensores mantêm relações umbilicais com os interesses dos Estados Unidos, visando transformar o Brasil em uma mera colônia. Para superar essa situação, a síntese necessária é a construção de uma “nova maioria política” capaz de entregar um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Na prática, isso se realiza, primeiramente, através da eleição e sustentação de Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar das contradições e limites que o governo possa carregar, é dentro deste campo político que podem emergir as forças capazes de levar adiante uma agenda avançada.
A base desse projeto deve ser a nossa reindustrialização. Diante de um mundo perigoso e considerando nossos ativos estratégicos, precisamos desenvolver urgentemente um complexo industrial de defesa. Além disso, é imperativo reconstruir a indústria mecânica pesada. Precisamos retomar a capacidade nacional de produzir trens, trilhos, turbinas para hidrelétricas e outros bens de capital.
A indústria deve ser reconstruída no Brasil considerando que o país enfrenta um problema objetivo de soberania nacional. Historicamente, qualquer revolução burguesa no mundo passou pela unificação do mercado interno. No Brasil, antes da Revolução de 1930, as regiões eram unidades econômicas isoladas no litoral, voltadas quase exclusivamente para seus próprios portos e praticamente autossuficientes. A partir de 1930, com o desenvolvimento da revolução burguesa nacional, esse modelo foi substituído por um mercado unificado através de investimentos maciços em infraestrutura e estradas.
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Atualmente, essas infraestruturas estão destruídas, o que gera altos custos de produção e impede a conexão eficiente entre as regiões, resultando em uma grave fragilidade soberana. Retomar a indústria mecânica pesada e a construção civil é, portanto, fundamental para realizar a reconexão do território e reabilitar a nossa soberania territorial.
Nesse contexto, é essencial instituir uma Comissão da Verdade sobre a Operação Lava Jato. As ações dessa operação configuraram crimes contra a soberania nacional e acentuaram um processo de desindustrialização que já durava 40 anos. Isso resultou não apenas na perda de capacidade produtiva, mas também em grande sofrimento para o povo brasileiro devido à extinção de empregos de qualidade para profissionais como engenheiros e soldadores. Não compreenderemos o fascismo como fenômeno social se não percebermos que ele se alimenta de um caldo de cultura gerado pela falta de mobilidade social e de esperança, consequências diretas da desindustrialização e da desmoralização nacional.
Uma das grandes lições que extraímos da situação no Irã é a necessidade de o Brasil recuperar sua soberania econômica. Atualmente, o país perdeu a capacidade de internalizar os preços do petróleo e de seus derivados, tornando-se dependente da importação de gasolina e operando com uma capacidade de refino muito inferior à que já possuiu. Além disso, passamos a importar fertilizantes de países como a Rússia e o próprio Irã, uma dependência que se acelerou a partir do governo Temer.
Para reverter esse quadro, o Brasil precisa aumentar sua capacidade de refino e retomar a indústria de fertilizantes, que foi desmantelada nos últimos anos. No entanto, além da infraestrutura, a guerra nos ensina a importância da unidade nacional. É fundamental promover campanhas que discutam a nacionalidade e o pertencimento.
Observamos que o Irã, embora seja um país muito mais diverso do que se imagina, possui uma alma nacional consolidada, algo que também vemos na China e na Rússia. No Brasil, a construção desse sentimento de identidade e pertencimento foi interrompida pelo avanço do liberalismo na década de 90 e, novamente, com os eventos de 2016. O resgate dessa alma brasileira é um elemento central e subjetivo para que possamos enfrentar as pressões e contradições de poder impostas por interesses externos.
Em resumo, o aprendizado com este conflito internacional aponta para a urgência de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Esse projeto deve estar aliado a uma reindustrialização que reconstrua as cadeias produtivas destruídas e estabeleça um novo olhar estratégico sobre a nossa indústria de defesa.
Assista a íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 08/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundaçãa Maurício Grabois.