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    Cultura

    ‘Beata comunista’: autobiografia de Alba Correia narra trajetória de militância

    Livro, que reúne seu percurso político e educacional desde os anos 1960, foi organizado pelos jornalistas Cíntia Ribeiro e Ênio Lins, a publicação é da Editora da Universidade Estadual de Alagoas (EdUneal), em parceria com a Fundação Maurício Grabois

    POR: Redação

    6 min de leitura

    Capa da autobiografia de Alba Correia: 'Alba, a beata comunista'. Foto: Divulgação
    Capa da autobiografia de Alba Correia: 'Alba, a beata comunista'. Foto: Divulgação

    A trajetória de Maria Alba Correia da Silva, militante histórica do PCdoB de Alagoas, ganha registro no livro autobiográfico Alba, a beata comunista. A obra revisita décadas de atuação política e educacional, desde os anos 1960, incluindo sua participação no Movimento de Educação de Base (MEB), nas organizações da juventude católica (JEC e JUC) e na Ação Popular (AP) e APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Organizado pelos jornalistas Cíntia Ribeiro e Ênio Lins, o livro foi publicado pela Editora da Universidade Estadual de Alagoas (EdUneal), em parceria com a Fundação Maurício Grabois, e lançado em Maceió (AL), na sexta-feira (10).

    “Não é sempre que nasce uma Alba, pela capacidade de construção, de interpretar a luta política e a realidade, pela combatividade, mas também pela sensibilidade — firme no que defende, direta, mas com carinho, acolhimento e humanidade”, destacou o presidente do PCdoB em Alagoas, Lindinaldo Freitas.

    + Vídeo apresenta principais momentos do do lançamento de Alba, a beata comunista, em Maceió:

    Nos anos 1960 e 1970, Alba militou na AP, na APML e milita ainda hoje no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), integrando a direção estadual desde 1973. Em 1986, foi candidata a Deputada Estadual pelo PCdoB, ainda utilizando a legenda do PMDB, pois o processo de legalização do PCdoB só seria concluído em Alagoas, com a formalização das filiações de toda a militância em 1987. “Alba deixou sua marca na luta do povo brasileiro. Eu tive a honra de aprender com ela. Alba me ensinou a ser o que eu sou hoje na militância”, enfatizou Freitas.

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    Nos anos 1980, reestruturou a atuação da Associação dos Professores de Alagoas (APAL), foi eleita presidenta da entidade, organizando a transformação da entidade no Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (SINTEAL). Sua liderança pessoal é responsável pelo ponto de virada no caráter e na política sindical do professorado alagoano, cuja entidade passa a ser uma referência do chamado sindicalismo combativo em Alagoas, refletindo os parâmetros que marcaram o movimento metalúrgico do ABC no final dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980.

    Na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a professora Alba contribuiu com projetos de formação docente, extensão e, mais adiante, educação a distância. No campo específico da educação ambiental, sua atuação deixou marcas fundadoras exatamente quando mulheres, em escala mundial, forçam a porta pelo direito de voz no debate. Reflexo de seu envolvimento com a problemática do campo, ela desenvolve um trabalho primoroso no Instituto do Meio Ambiente (IMA) e na criação, em 1997, do Núcleo de Educação Ambiental (NEA).

    Alba Correia

    Alba Correia nasceu no dia 13 de maio de 1938, em Maceió, na Rua Santa Cruz, no bairro do Farol. Sexta filha de Amélia Maria da Silva (1906-2006) e Aluízio Correia de Lima (1906-1980), estudou em escolas públicas durante toda a sua vida e muito jovem ligou-se aos movimentos católicos de ação e crítica social. Acompanhando o Concílio Vaticano II (1962–1965), mergulhou nas discussões que redefiniram a presença da Igreja no Brasil e no mundo: uma fé voltada para a justiça social, com um novo olhar para a dignidade humana e a paz entre os povos.

    Esses documentos tornaram-se parte de sua prática cotidiana, de sua pedagogia, de seu jeito de se posicionar em sintonia com o que propunha o método da própria Ação Católica – ver, julgar e agir. Foi esse mesmo impulso renovador que a levou a reconhecer, nas contradições de seu tempo, também os limites da Igreja. Ela reflete a efetividade dos discursos sobre o respeito às liberdades individuais e a retórica do amor ao próximo frente à omissão de parte da Igreja diante da tortura. Ao lado de uma Igreja que se dividia entre opostos irreconciliáveis, Alba fez sua escolha: caminhou com aqueles que colocavam o Evangelho em outro patamar discursivo, um instrumento de participação coletiva e humanitária a serviço do Estado Democrático de Direito.

    Em 1962, a então professora primária foi convocada pela Arquidiocese de Maceió para compor o Grupo Técnico do Movimento de Educação de Base (MEB). Ela também foi professora de religião em escolas estaduais, participou de cursos sobre pedagogia catequética e de orientação educativa. Vem dessa relação estreita a aproximação com os ideais progressistas, inspirada na Doutrina Social da Igreja e no seu comprometimento com a Teologia da Libertação. A entrada no MEB levou à reinterpretação da fé, à luz de um momento histórico em que o Concílio Vaticano II impulsionava a Igreja latino-americana a unir religião e justiça social.

    Maria Yvone Loureiro e Alba Correia em evento do Congresso do PCdoB 2026. Foto: PCdoB

    Em 1965, ela parte para o Uruguai, integrando um curso latino-americano de cooperativismo promovido por redes católicas ligadas à Acción Cultural Popular. A experiência ampliou seu repertório: em oficinas e conversas noturnas, ouviu relatos de militantes camponeses do Chile e de educadoras peruanas perseguidas por regimes similares ao brasileiro. Ali compreendeu que a rádio do MEB era uma entre muitas ferramentas de organização popular. Ela regressou ao Brasil com olhar ainda mais atento às contradições de classe e ao lugar que as mulheres ocupavam — ou eram impedidas de ocupar — nesses processos.

    Sobre o livro

    Título: Alba, a beata comunista
    Autora: Alba Correia
    Organizadores: Cíntia Ribeiro e Ênio Lins
    Edição: Editora da Universidade Estadual de Alagoas (EdUneal), em parceria com a Fundação Maurício Grabois
    Quarta capa: Jandira Feghali (PCdoB/RJ)
    Orelhas: Aldo Arantes e Vera Romariz
    Projeto gráfico: Cícero Rodrigues
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