O tema da coluna de hoje é a crise política no Rio de Janeiro. Analiso e exponho minhas opiniões sobre o ponto a que o estado chegou e as razões para essa situação. Minha linha de raciocínio segue, em certa medida, a análise que fiz sobre a criminalidade na época do massacre do Complexo da Penha. Defendo que a crise da segurança pública no Rio de Janeiro tem relação direta com o processo acelerado de desindustrialização que acometeu o Brasil e, de forma muito mais intensa, o estado do Rio de Janeiro.
Como marxista, acredito que o poder político reflete a base material. Na medida em que a indústria deixa de ser o centro dinâmico da economia, o Rio de Janeiro passa a ser dominado pela especulação imobiliária e pelo papel crescente do crime organizado — sejam milícias ou facções — que passam a controlar territórios e a gerir atividades econômicas em escala. Isso é evidente no poder político. O primeiro ponto é que o poder político reflete a base material: dado que o Rio é um estado desindustrializado, o que surgiu no lugar da indústria foi um vazio econômico gigantesco. Podemos dizer que o Rio enfrentou, nos últimos 40 anos, uma verdadeira guerra econômica contra o Estado e contra a cidade em particular.
Outro ponto relevante é a falta de reparações pela transferência da capital para Brasília. O Rio era um estado que girava em torno do serviço público centralizado e, com a mudança da sede do Poder Executivo, isso deixou de ocorrer da noite para o dia sem que houvesse uma transição planejada de poder territorial. Esse processo de desindustrialização aguda criou uma base material nova e atrasada que acaba se refletindo no poder político.
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O professor Mauro Osório, que é uma das pessoas que mais entende de Rio de Janeiro que eu conheço, ao lado de Bruno Sobral, afirma que o estado possui um problema de pactos de poder. Esse pacto reflete exatamente a base material que descrevi: ao observarmos o cenário político desde o governo de Cláudio Castro, passando pela Assembleia Legislativa até secretários de governo — todos bolsonaristas —, vemos o envolvimento com o crime organizado comprovado por escutas telefônicas e mensagens de WhatsApp. Esta é uma demonstração cabal de que a base material se reflete no poder político, evidenciando a penetração do crime nas entranhas do Estado.
Isso não é uma “jabuticaba” carioca, mas sim a realidade de processos capitalistas onde a acumulação toma formas profundas e, na falta de presença econômica e ocupação territorial pelo Estado, as organizações criminosas acabam ocupando esse lugar. Neste ponto, minha divergência com alguns companheiros de esquerda é a seguinte: existe uma crítica correta à forma espetacularizada como as operações policiais ocorrem. Políticos utilizam essas ações para aumentar a popularidade, pois a segurança pública é uma pauta legítima da população que mais sofre. No entanto, o que realmente falta ao Rio de Janeiro é uma presença de Estado baseada no que a literatura chama de políticas de demanda efetiva.
Isso significa o Estado utilizando o gasto público para abrir novas fronteiras de acumulação e criar oportunidades de emprego industrial e no setor de serviços tecnológicos. Apenas esse tipo de ação direta do Estado pode criar condições para uma mudança de médio e longo prazo. Não haverá um enfraquecimento real do crime organizado e das milícias no Rio de Janeiro sem uma profunda mudança na base material do Estado. É necessário que a economia fluminense mude seu eixo, deslocando-se da dependência da especulação imobiliária e da renda da terra para o fomento de atividades produtivas. Essa transformação teria um impacto imenso tanto na política quanto na vida cotidiana das pessoas.
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Embora essa seja uma solução de médio e longo prazo, no curto prazo o Rio de Janeiro precisa buscar um novo consenso: a construção de uma nova maioria política. Essa frente deve ser capaz de chegar ao governo do Estado com força para romper com as estruturas de poder atualmente alojadas na Assembleia Legislativa (Alerj) e no Poder Executivo, promovendo mudanças qualitativas no cenário carioca.
Paralelamente, a segurança pública deve ser utilizada como um instrumento baseado estritamente na inteligência. Embora exista uma revolta legítima da população contra a criminalidade — como no caso de roubos de celulares —, não há evidências científicas de que operações policiais violentas e cíclicas melhorem a segurança real. Pelo contrário, essas chacinas ocorrem e, logo em seguida, o tráfico e as milícias continuam operando normalmente, sem que seu poder ou sua capacidade financeira sejam atingidos. O ponto fundamental para enfrentar essa crise é focar no sistema financeiro. É preciso rastrear as movimentações econômicas das organizações criminosas e promover o estrangulamento dessas redes por meio do monitoramento e do corte de suas linhas de financiamento. Sem atingir o braço financeiro, não haverá solução definitiva para o poder político e criminoso que domina o estado.
No curto prazo, o Rio de Janeiro precisa buscar um consenso para formar uma nova maioria política, capaz de chegar ao governo do estado com força para romper com as estruturas de poder hoje alojadas na Assembleia Legislativa (Alerj) e no Poder Executivo. O objetivo é promover mudanças qualitativas no cenário fluminense. Outro ponto essencial é utilizar a segurança pública como um instrumento baseado na inteligência. Embora a população tenha uma revolta legítima contra a criminalidade — como no caso frequente de roubos de celulares pagos com sacrifício — e o Estado precise dar uma resposta, não há evidências científicas de que operações policiais cíclicas e violentas melhorem a segurança real.
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Pelo contrário, após as chacinas, o tráfico e as milícias continuam operando normalmente, sem que o poder das facções ou sua capacidade de articulação sejam atingidos. O caminho fundamental para enfrentar a segurança pública, o poder político e a crise no Rio é focar no sistema financeiro. É necessário rastrear as movimentações financeiras das organizações criminosas e estrangulá-las por meio do monitoramento e do corte de suas linhas de financiamento. Afinal, milhares de fuzis chegam ao Rio porque alguém os financia; o dinheiro vem de algum lugar e, cada vez menos, provém apenas do tráfico de drogas.
É importante destacar que as organizações criminosas no Rio de Janeiro atingiram um novo patamar de ação econômica. O tráfico de drogas não é mais a principal fonte de receita; agora, o crime se sustenta em atividades como o fornecimento de internet (“gatonet”), transporte terceirizado e clínicas de saúde locais. Existe uma complexa teia econômica de sustentação e lavagem de dinheiro que exige o uso de inteligência para ser enfrentada. Para superar essa crise, o Rio de Janeiro precisa formar uma nova maioria política capaz de propor e executar algo comparável a um “Plano Marshall” ou a um “New Deal“. Essa nova força política deve ter a capacidade de sensibilizar o governo federal para renegociar os termos do pacto federativo, integrando essa discussão a outros estados, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
O Brasil precisa observar o Rio de Janeiro como um ativo estratégico. O estado é uma “joia da coroa” e a principal porta de entrada do país para o mundo; um patrimônio nacional comparável a figuras como Pelé ou ao Carnaval. Para resgatá-lo, é fundamental eleger um governador que consiga derrotar o chamado “Partido da Alerj” e articular, junto ao governo central e às instituições de financiamento público no Brasil, para elaboração e execução de um Plano Marshall para o Rio de Janeiro. Isso inclui projetos estruturantes, como a transformação do estado em um hub ferroviário, integrando o Rio, Niterói e a Baixada Fluminense. Esse projeto poderia criar as condições para a inauguração de uma indústria ferroviária no Brasil, baseada no Rio de Janeiro, por meio de uma joint venture de longo prazo com a China.
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Nessa estratégia, visualizo dois grandes polos industriais: o Norte Fluminense, focado na recuperação do complexo de petróleo e gás (destruído pela Operação Lava-Jato), e o Sul Fluminense, que combinaria os complexos industriais da saúde e de defesa, uma nova siderurgia e a indústria mecânica pesada. Além disso, haveria a retomada da indústria de construção civil, pois a execução de um “Plano Marshall” exigiria o acionamento de toda a capacidade produtiva instalada para esse fim.
Contudo, antes de qualquer mudança econômica, o desafio é primordialmente político. Diante das próximas eleições para o governo do estado, o foco deve ser identificar qual palanque oferecerá as condições necessárias para que Lula derrote Bolsonaro no Rio de Janeiro, contribuindo para o esforço nacional de enfrentamento ao bolsonarismo. O retorno desse grupo ao poder significaria a imposição de um neoliberalismo selvagem, ao estilo de Javier Milei, do qual o estado do Rio seria a maior vítima.
Portanto, não há espaço para mediações ou hesitações fora do marco da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A urgência do momento exige a busca por um palanque amplo, composto por forças diversas. É fundamental que Lula tenha condições de realizar uma campanha eleitoral sólida no Rio de Janeiro, com um palanque capaz de sustentar seu esforço de campanha, com condições reais de disputar e vencer as eleições. Diante da gravidade da situação no Rio e no Brasil, não há espaço para “demarcações” puristas dentro do campo da esquerda.
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Lançar candidaturas sem viabilidade eleitoral, que não alcançam nem 5% dos votos, pode acabar favorecendo a extrema-direita, permitindo inclusive uma vitória deles ainda no primeiro turno. Não podemos nos dar ao luxo de lançar candidatos radicais no primeiro turno sob a justificativa de apoiar outro nome apenas no segundo. O nível da luta de classes no Rio de Janeiro é tão desfavorável que nossa prioridade deve ser eleger um governador capaz de derrotar a extrema-direita, mesmo que esse candidato precise fazer alianças pontuais com elementos do campo oposto. As eleições para o governo do Rio são extremamente complexas e difíceis, em um estado dominado por milícias e pelo narcotráfico — organizações que buscam lucro e poder de fato. Insistir em demarcações políticas neste momento é apenas uma “grita pequeno-burguesa” de quem não tem compromisso com a realidade concreta diante da crise gravíssima que o estado enfrenta.
Para concluir, a crise do Rio de Janeiro possui raízes tanto na transferência não planejada da capital para Brasília quanto nos profundos estragos causados pelo liberalismo, que gerou um processo de desindustrialização absurdo. O enfrentamento da segurança pública exige políticas de longo prazo e, no curto prazo, a ampla utilização da inteligência militar e civil. É fundamental também a atuação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para coibir movimentações financeiras, visto que existe uma relação direta entre o crime no Rio e a Faria Lima, que tem funcionado como uma lavanderia de dinheiro para o crime organizado no Brasil.
O desafio atual é formar uma nova maioria política heterogênea, capaz de romper com o “partido da Alerj” e com força para exigir um novo pacto federativo para o Rio e para o país. O Rio de Janeiro deve ser observado como um ativo estratégico do Brasil perante o mundo, o que demanda um plano do governo federal— um “New Deal” ou um “Plano Marshall” para o estado. Isso requer investimentos maciços em infraestrutura e reindustrialização, incluindo ferrovias e portos, para que o Rio de Janeiro possa finalmente renascer. É essa a visão que será defendida durante o processo eleitoral.
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 15/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.