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    Agricultura

    Dia da Caatinga: avanço do agro moderno e limites das políticas sociais

    Bioma ocupa cerca de 11% do território nacional, apresenta grande diversidade de relevo, clima e vegetação, distribuída por 1.130 municípios, com realidades econômicas, sociais e ambientais distintas

    POR: Evaristo de Miranda

    9 min de leitura

    Pôr do sol na Caatinga revela a silhueta da vegetação típica do sertão brasileiro, entre galhos retorcidos e cactáceas adaptadas ao semiárido. Foto: Danilo Victor / via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
    Pôr do sol na Caatinga revela a silhueta da vegetação típica do sertão brasileiro, entre galhos retorcidos e cactáceas adaptadas ao semiárido. Foto: Danilo Victor / via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

    Dia da Caatinga: avanço do agro moderno e limites da política assistencialista

    Muitos imaginam a Caatinga como região de miséria, atraso absoluto, dominada por “coronéis sem patente”, vitimada por secas e clientelismo político. Narrativas de livros como Vidas Secas, Os Sertões, Geografia da Fome e Grande Sertão Veredas ajudaram a consolidar esse imaginário. Trata-se de uma visão, cada vez mais anacrônica, mesmo se não totalmente dissociada de realidades persistentes.

    Nas últimas décadas ocorreram grandes transformações nas áreas urbanas e rurais do semiárido, bem como em sua infraestrutura — da eletrificação rural à transposição do rio São Francisco. O Dia Nacional da Caatinga, celebrado em 28 de abril, lembra esse bioma exclusivamente brasileiro e homenageia o nascimento de João Vasconcelos Sobrinho, agrônomo e ecólogo pernambucano, pioneiro nos estudos ambientais no Brasil e defensor incansável desse bioma. É um momento oportuno para refletir sobre seu futuro com base em evidências atualizadas.

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    A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional, abrange oito estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais. Apresenta grande diversidade de relevo, clima e vegetação, distribuída por 1.130 municípios, com realidades econômicas, sociais e ambientais distintas. No bioma, mais de 4 milhões de pessoas atuam na agropecuária em 1,7 milhão de estabelecimentos agrícolas, segundo o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE. Cerca de 54% desses estabelecimentos têm entre 0 e 5 hectares, evidenciando a forte presença de pequenos produtores, e 68% destinam sua produção sobretudo ao autoconsumo. Essa estrutura produtiva, altamente fragmentada e vulnerável a choques climáticos, exige cautela em qualquer generalização — tanto sobre problemas quanto sobre soluções, tanto em manejo quanto em preservação.

    Participei da criação da Embrapa Semiárido, em Petrolina, onde trabalhei por cerca de cinco anos com o professor Vasconcelos Sobrinho. Convidei-o a integrar uma espécie de “conselho de sábios” ao lado dos professores Manuel Correia de Andrade e Dárdano de Andrade Lima para apoiar minha coordenação do Programa Nacional de Pesquisa de Avaliação dos Recursos Naturais e Socioeconômicos do Trópico Semiárido (PNP 027) da Embrapa. Foi uma experiência de grande aprendizado.

    Sob minha gestão, a Embrapa financiou mais de 400 projetos de pesquisa, abrangendo desde solos, clima e vegetação até sistemas de produção, estrutura agrária e pobreza rural. Esses estudos caracterizaram o perfil agro-socioeconômico e os sistemas de produção de milhares de produtores rurais no Brejo da Paraíba, no alto sertão de Pernambuco, na região nordeste da Bahia, em Picos (PI), no Cariri (CE), no vale do São Francisco, no sertão do Caicó (RN) e em Alagoas.

    Esses projetos envolveram equipes da Embrapa Semiárido, além de institutos estaduais de pesquisa, empresas e universidades da região. Após o vasto acervo de estudos sobre a Caatinga, especialmente no âmbito da SUDENE, a Embrapa inaugurou uma nova etapa. A partir do fim da década de 1970, seus centros de pesquisa desenvolveram tecnologias modernas de convivência com a seca, no manejo da Caatinga e na agricultura irrigada.

    Técnicas simples e eficazes passaram a garantir água de qualidade para famílias e rebanhos, além de assegurar níveis mínimos de produção mesmo em anos críticos de seca. Reduziram a vulnerabilidade estrutural da produção rural. Essas inovações e outras complementares, como a melhoria da apicultura e da piscicultura em açudes, foram difundidas pelo Projeto Sertanejo da SUDENE, pelo Projeto Nordeste com apoio do Banco Mundial e pelos serviços estaduais de extensão rural. Esse processo permitiu ganhos reais de resiliência, mesmo se heterogêneos.

    + Desigualdades regionais no Brasil são um desafio histórico e contemporâneo

    Em meio a esse processo positivo na agricultura dependente de chuva, a ampliação de programas sociais, como a aposentadoria rural e o Bolsa Família, teve inegáveis efeitos positivos. Houve aumento da renda, redução da insegurança alimentar. Em períodos de seca prolongada houve redução drástica de crises recorrentes, como saques e frentes emergenciais de trabalho. Esse fenômeno não deve ser negligenciado e foi analisado em meu artigo A Seca e o Bolsa Família (2013).

    A questão que se coloca hoje não é a pertinência dessas políticas, mas seus efeitos indiretos e de longo prazo sobre a dinâmica produtiva rural, especialmente em contextos de baixa rentabilidade agrícola. A expansão contínua e a sobreposição de benefícios federais (Bolsa Família, Bolsa Estiagem, Benefício de Prestação Continuada, Seguro Defeso e Auxílio Gás) e estaduais (Cestas Básicas, Cofinanciamento do PAIF/Benefícios Eventuais, PAS Nordeste – Consórcio Nordeste, Cartão Mais Infância, Alimenta Ceará e Chapéu de Palha em Pernambuco) pode alterar a relação custo-benefício do trabalho agrícola de baixa produtividade e merecem revisão.

    Em parte dos pequenos estabelecimentos agrícolas, não houve mais avanço no uso de novas tecnologias. Observa-se redução nas áreas cultivadas e cresce a dependência de rendas não agrícolas. Em alguns casos, o receio da perda de benefícios desestimula o trabalho sazonal e prejudica outras atividades como a colheita do caju, de frutas e legumes em áreas irrigadas.

    Muitos produtores transformaram suas propriedades de poucos hectares em residências rurais. Sem pagar aluguel e com renda estável proveniente sobretudo dos benefícios federais (Bolsa Família, Bolsa Estiagem, Benefício de Prestação Continuada e Aposentadoria Rural) deixam de cultivar a terra. Enquanto a produção agrícola perde dinamismo, a população residente no campo se mantém. Relatos recorrentes de produtores indicam esse dilema. Como me sintetizou um agricultor pernambucano: — Doutor, entre o sol e a enxada na roça e a varanda de casa com o dinheiro do governo, o que o senhor prefere?

    Entre 2006 e 2017, o número de pessoas ocupadas na agropecuária na Caatinga caiu cerca de 917 mil pessoas, uma redução de 19%, bem superior a queda nacional de 9%, segundo o IBGE. O bioma representava 31% da população ocupada na agropecuária em 2006 e caiu para 28% em 2017 (-3%). Essa tendência acompanha as transformações estruturais do meio rural brasileiro, mas, no semiárido, se combina com a perda de dinamismo da agricultura de sequeiro e o envelhecimento da população rural.

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    Em contraste, segmentos mais capitalizados e tecnificados apresentam forte expansão. A irrigação privada avança rapidamente nas chapadas (Apodi e Diamantina) e no Vale do São Francisco, com fruticultura de alto valor agregado (manga, melão e uva) e crescente inserção internacional. Em 2025, as exportações superaram US$ 1 bilhão. Cadeias produtivas modernas geram riqueza, renda, emprego qualificado e impulsionam os centros de processamento, embalagem, agroindústria e logística. Dadas condições adequadas de tecnologia, escala e acesso a mercados, o semiárido pode ser altamente competitivo.

    A pecuária também passa por modernização significativa, num processo de concentração e verticalização. Avanços em genética, manejo de pastagens, nutrição, saúde e bem-estar animal elevaram a produtividade. A produção formal de leite no Nordeste cresceu mais de 76% desde 2017, o maior crescimento percentual no Brasil. No Ceará, inteiramente inserido na Caatinga, o crescimento foi 147% entre 2015 e 2024. Na produção de corte, em 2024, o rebanho bovino nordestino atingiu 28,5 milhões de cabeças, um crescimento de 30% em cinco anos. 

    Na genética, o uso de sêmen de raças adaptadas ao estresse térmico e de alto valor genético (Girolando, Nelore), aliado à nutrição e técnicas de manejo de pastagens, acelera o ganho de peso. O melhoramento genético pode elevar a produção em 15 a 30% e a renda familiar em 20 a 35%.

    O contraste é claro: onde há tecnologia, escala e integração a mercados, há dinamismo; onde predominam sistemas de baixa produtividade e alta vulnerabilidade, persistem estagnação e dependência de transferências.

    Isso não implica reduzir políticas sociais. É urgente requalificá-las e articulá-las melhor com políticas produtivas. O desafio não é escolher entre proteção social e produção. Uma não deve substituir a outra. Deveriam ser complementares.

    A Caatinga, associada à escassez, revela-se um espaço crescente de inovação tecnológica nas áreas irrigadas e na pecuária. Poderia avançar no mesmo sentido nas vastas áreas de sequeiro. As evidências mostram: é possível produzir, conservar e viver com dignidade no semiárido. As políticas públicas deveriam reforçar, e não desestimular, os incentivos à inovação e ao trabalho produtivo.

    No Dia Nacional da Caatinga, valorizá-la é reconhecer sua singularidade ecológica e esforço histórico de milhões de brasileiros aliado à ciência aplicada. O semiárido deixou de ser apenas espaço de subsistência para se tornar um polo competitivo. Persistem o desafio de enfrentar a pobreza rural, rever o papel do assistencialismo na agricultura de sequeiro e integrar milhões de pequenos produtores a esse dinamismo.

    Casos e setores de sucesso na Caatinga destacam o empreendedorismo e a resiliência do produtor rural. Sua capacidade de iniciativa deve ser estimulada pela combinação equilibrada de políticas de proteção social com incentivos claros à produção, ao trabalho, à inovação e à inserção em mercados.

    Os riscos desse modelo de política pública são conhecidos há décadas. Em 1953, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, na canção Vozes da Seca, já advertiam:

    Mas doutor, uma esmola a um homem que é são

    ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.

     


    Evaristo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier. Com mais de 1.400 publicações no Brasil e exterior, é autor de 56 livros, como “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura Brasileira” (em português, inglês, árabe e mandarim). Pesquisador da Embrapa de 1980 a 2023, coordenou mais de 40 projetos e dirigiu três centros nacionais de pesquisa. Membro da Academia Nacional de Agricultura, foi eleito Agrônomo do Ano em 2021. Sua produção científica e artigos estão disponíveis no site: evaristodemiranda.com.br.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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