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    Direitos Humanos

    Palestina e a impossibilidade de um “sionismo de esquerda”

    A tradição marxista e vozes judaicas antissionistas convergem na rejeição da tentativa de separar ocupação, limpeza étnica e projeto sionista

    POR: Carlos Lopes

    9 min de leitura

    Dois manifestantes palestinos seguram bandeiras diante do muro de separação israelense na Cisjordânia, com assentamentos ao fundo. Foto: יורם שורק/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
    Dois manifestantes palestinos seguram bandeiras diante do muro de separação israelense na Cisjordânia, com assentamentos ao fundo. Foto: יורם שורק/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

    A questão nacional palestina e o sionismo “de esquerda”

    Há quase 150 anos, em uma carta dirigida a Karl Kautsky, datada de 7 de fevereiro de 1882, Friedrich Engels sublinhou a identidade entre a luta de libertação nacional e a luta de classes. Esta última, que constitui o núcleo do marxismo, muitas vezes assume a forma – e, mais do que a forma, mesmo o conteúdo – daquela.

    A colocação de Engels não era inédita e remontava a um texto tão longínquo quanto o Manifesto do Partido Comunista (fevereiro de 1848) e a menções recorrentes de Marx à questão irlandesa (a Irlanda era, então, uma colônia, extremamente oprimida e explorada, da Inglaterra), inclusive do ponto de vista da nação opressora: “não pode ser livre um povo que oprime outros povos” (cit. por Lenin, O Socialismo e a Guerra – a atitude do POSDR em relação à guerra, julho/agosto de 1915).

    Em sua carta a Kautsky, escrevia Engels:

    “… há duas nações na Europa que têm não só o direito, mas também o dever de ser nacionalistas antes de ser internacionalistas: os irlandeses e os poloneses. Quanto mais nacionalistas elas forem, mais internacionalistas serão” (grifo nosso – ver a carta completa em inglês).

    A linha exposta por Engels foi seguida, e desenvolvida, pelos expoentes do marxismo no século XX – Lenin, Stalin, Mao Tsé-tung, Gramsci, Dimitrov, Togliatti, Ho Chi Minh, Kim Il Sung, etc.

    Hoje, principalmente depois que a vitória da União Soviética na II Guerra Mundial contra a tentativa de colonização nazista desencadeou uma série de revoluções anti-coloniais pelo mundo, a questão é perfeitamente atual, o que é uma forma de dizer que, apesar das derrotas do fim do século passado – como a queda do socialismo no Leste Europeu – nós não regredimos ao estágio em que estávamos antes de 1945.

    Lenin, em especial, no princípio do século XX, realizou uma importante distinção entre o colonialismo “clássico”, baseado na anexação política das nações e povos, e o neocolonialismo, baseado na anexação econômica das nações.

    Apesar da luta contra o neocolonialismo, isto é, contra a anexação econômica, como é o caso do Brasil, ser predominante agora no mundo, existe uma nação que ainda está submetida ao escandaloso colonialismo “clássico”.

    + Orientalismo e colonialismo, por João Quartim de Moraes

    Esta é a Palestina, tratada como um campo de concentração (ou, muitas vezes, como um campo de extermínio) por Israel. Como afirma Domenico Losurdo, comparando o sionismo ao colonialismo ianque em seu próprio território:

    “Desde o início, Israel tratou os palestinos em parte como se fossem peles-vermelhas (privando-os de suas terras e submetendo-os a dizimações), em parte como se fossem negros (discriminados, torturados, humilhados); na melhor das hipóteses, constrangendo-os a ocupar os segmentos inferiores do mercado de trabalho” (Domenico Losurdo, O sionismo e a tragédia do povo palestino, publicado em Colonialismo e Luta Anti-colonial, Boitempo, 2020).

    + Domênico Losurdo: o pecado imperialista

    Isso implica em uma brutal desumanização dos palestinos por parte dos sionistas, assim como os brancos ianques desumanizaram brutalmente os indígenas e negros no território dos Estados Unidos. Isso não é, nem mesmo, um segredo de Polichinelo. Não faltam declarações sionistas que não consideram “humanos” os palestinos – nem os árabes ou muçulmanos em geral. É verdade, com isso, quem se desumaniza realmente (tal como observaram os abolicionistas brasileiros sobre os senhores de escravos) são os sionistas. Mas o fato deles não se importarem com isso é uma exposição aberrante de sua natureza ideológica.

    Aqui, obviamente, é forçoso um exame do sionismo, pois, hoje, instaurou-se a confusão a respeito dessa infâmia. Até apareceram alguns indivíduos que se pretendem “sionistas de esquerda”, tal como se isso fosse possível (sobre a posição “clássica” de Marx e Lenin a respeito do sionismo, ver Lenin contra o sionismo).

    + Bolchevismo e Antissemitismo (1917-1953)

    Vamos reduzir a questão à sua essência.

    O que sintetiza o sionismo, desde o século XIX, muito mais que o rocambole pseudo-teórico de Theodor Herzl, é o slogan “uma terra sem povo para um povo sem terra”.

    Se assim é (e é mesmo), logo, para os sionistas, os palestinos – que já estavam naquela terra – não existiam ou sequer deveriam existir. Em suma, se estavam, não deviam estar naquela terra.

    Caso contrário, seria impossível falar em “uma terra sem povo”.

    Muito tempo depois, Golda Meir, esse modelo de “sionista de esquerda”, falaria da insônia que a acometia, a cada criança árabe que nascia. Certamente, cada nascimento de uma criança palestina é o desmentido cabal do slogan sionista.

    Então, o que é esse slogan senão uma palavra de ordem para a limpeza étnica – ou seja, o genocídio – do povo palestino?

    As monstruosidades relatadas por Ilan Pappé em A Limpeza Étnica da Palestina (2006) não são a fantasia de um historiador tresloucado – por sinal, um historiador judeu e israelense, mas antissionista.

    + Como Israel transformou Gaza em campo de extermínio palestino

    Diante disso, a impostura de um suposto “sionismo de esquerda” é uma agressão não somente à luta dos palestinos, mas também à luta dos judeus progressistas, que se opõem ao sionismo (além de Pappé, um exemplo dessa posição progressista pode ser visto em Um tributo a Moshe e Yehudi Menuhin), para não mencionar a luta da humanidade por sua libertação.

    O sionismo foi, desde sempre, um projeto colonialista, primeiro como ramo do colonialismo inglês contra os árabes, depois como braço do imperialismo norte-americano no Oriente Médio (o líder negro norte-americano Malcolm X também abordou o conteúdo político e religioso do sionismo; ver O sionismo, segundo Malcolm X).

    E, como diz o pensador italiano que citamos acima, “o colonialismo é sinônimo de pilhagem e de exploração; e implicou guerra, agressão e imposição, em larga escala, de formas de trabalho forçado em detrimento das populações coloniais” (D. Losurdo, idem).

    Além disso, ostensivamente visível no genocídio e escravidão do povo palestino, o colonialismo israelense implica no massacre dos povos vizinhos. Aliás, é um interesse comum ao sionismo e ao imperialismo norte-americano desindustrializar e manter desindustrializados os povos vizinhos, pois eles constituem a retaguarda, real ou potencial, do povo palestino – e, se industrializados, tornam-se um obstáculo ao domínio imperialista do mundo.

    Não por acaso, Israel é o único país do mundo a apoiar irrestritamente a política de domínio e agressão do imperialismo norte-americano. Nem a Inglaterra consegue aportar um apoio tão absoluto aos tiranos e tubarões de Washington e Wall Street.

    Isso, inclusive, explica, em muito, a gana dos EUA e Israel contra o Irã, país do Oriente Médio que não conseguiram desindustrializar nem impedir sua industrialização.

    + Por dentro do Irã: origens históricas do conflito com os EUA

    O caráter intrinsecamente colonialista do sionismo  (ver As raízes do colonialismo no genocídio israelense em Gaza, por Ben Norton) explica por que, independentemente do governante de Israel — seja Sharon, Netanyahu, Ben Gurion, Begin, Golda Meir ou Barak — o tratamento dispensado aos palestinos e aos vizinhos árabes é sempre da mesma natureza.

    O único que poderia ser arguido como uma possível exceção, Rabin, foi assassinado por seus próprios compatriotas (sem contar a ferocidade de Rabin, quando ministro da Defesa, contra os palestinos, registrada por Rashid Khalidi em Palestina: um século de guerra e resistência, trad. de Rogerio W. Galindo, Todavia, 2024, p. 228).

    Por isso é outra impostura – correlata à primeira, que registramos acima – a pretensa tentativa de concentrar o alvo em Netanyahu para livrar o sionismo. Esta é mais uma das truanices do “sionismo de esquerda”. Netanyahu é apenas a expressão acabada do sionismo. A ideia asinina de que ele seria uma expressão “degenerada” do sionismo, somente serve para introduzir, sub-repticiamente, que poderia haver um sionismo “não degenerado”.

    Sob outro ângulo, é correta a noção de que o antissionismo, ao contrário do que pretendem os dirigentes do Estado de Israel e seus apoiadores, não é a mesma coisa — nem de longe — que antissemitismo. Até porque os árabes também são semitas. Se existe algo antissemita no mundo de hoje, é o colonialismo em relação aos palestinos e aos demais árabes.

    + Antissionismo e antissemitismo: quando crítica a Israel vira acusação

    Evidentemente, a suposta identificação entre antissionismo e antissemitismo tem o objetivo de identificar os sionistas com os judeus em geral. O que seria uma tragédia, pois passaria por cima dos judeus progressistas do mundo todo.

    Entretanto, é uma tentativa destinada ao fracasso, desde que Hannah Arendt demonstrou, em Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963), que, entre os judeus, os nazistas preferiam — e não pouco — os sionistas aos assimilacionistas. Aliás, eles odiavam esses últimos.

    É particularmente incômodo, para os sionistas, que a autora seja, inescapavelmente, judia. Isso os impede de se apresentarem impunemente como representantes dos judeus.

    Porém, voltando à questão inicial: os palestinos são um povo que luta por sua independência nacional. Neste sentido, as conclusões de Engels, mesmo 144 anos depois, são totalmente válidas.

    A luta nacional palestina é a mais acirrada luta de classes que se trava, hoje em dia, em nosso planeta. Comparável a ela, existe a agressão ao Irã – mas esta pode ser vista como uma extensão da luta nacional palestina.

    Em 1952, Stalin, em seu discurso ao XIXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), apontou que a burguesia internacional – isto é, a burguesia imperialista – havia jogado fora as bandeiras das liberdades democráticas e da independência nacional.

    Diante disso, conclamava os comunistas e democratas a recolher essas bandeiras, antes agitadas pela burguesia, e “levá-las adiante”: “não há mais ninguém que possa fazê-lo”, disse ele.

    É isso o que, na questão palestina, cabe a nós fazer – e sem tergiversações supostamente “de esquerda”.


    Carlos Lopesé redator-chefe do jornal Hora do Povo, vice-presidente nacional do PCdoB e membro do Grupo de Pesquisa sobre Problemas e desafios contemporâneos da teoria marxista.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião da Fundação Maurício Grabois.