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    Sociedade

    Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional

    Apropriado pelas massas, criou um estilo próprio de jogo e ajudou a transformar o Brasil em potência mundial. Após três Copas conquistadas entre 1958 e 1970, deixou de ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta

    POR: Alexandre Machado Rosa

    5 min de leitura

    Pelé (camisa 10) dribla os suecos Bengt “Julle” Gustavsson, Sigge Parling e Sven Axbom durante partida da Copa do Mundo de 1958, torneio que marcou o primeiro título mundial do Brasil. Foto: Charlie Raasum/Domínio Público.
    Pelé (camisa 10) dribla os suecos Bengt “Julle” Gustavsson, Sigge Parling e Sven Axbom durante partida da Copa do Mundo de 1958, torneio que marcou o primeiro título mundial do Brasil. Foto: Charlie Raasum/Domínio Público.

    O Brasil não nasceu potência do futebol. Tornou-se. E essa transformação exigiu que o esporte fosse arrancado das mãos das elites e apropriado pelas massas populares. Para que o país se transformasse em uma potência respeitável do futebol mundial, foi necessária a popularização radical do esporte em território nacional.

    Inicialmente, o futebol foi confinado atrás das cercas dos clubes privados, reproduzindo hábitos sociais elitizados presentes em parte da sociedade inglesa da época. Contudo, diferentemente de modalidades como tênis, hipismo ou golfe, o futebol, na própria Inglaterra, rapidamente se tornou um esporte de massas, apropriado pelos trabalhadores urbanos das cidades industriais. Sua enorme simplicidade material, bastando uma bola e algum espaço livre, sendo organizado por poucas regras, favoreceu sua disseminação entre operários, jovens pobres e setores populares. No Brasil, porém, as elites tentaram inicialmente controlar e restringir o acesso ao novo esporte, retardando sua plena popularização entre as massas proletárias.

    Assim como ocorreu na Inglaterra e na Argentina, trabalhadores urbanos, jovens pobres e populações periféricas rapidamente transformaram o esporte em patrimônio coletivo. No Brasil, pipocaram campos improvisados em várzeas, terrenos baldios, praias e ruas de terra. A ideia sustentada pelas elites de um esporte elitizado começou a ruir diante da força da apropriação do novo jogo pelas massas trabalhadoras.

    Mesmo com os clubes oficiais ligados às elites proibindo explicitamente a participação de negros e pobres, o primeiro grande craque do futebol brasileiro foi justamente Arthur Friedenreich (1892-1969), considerado o primeiro grande ídolo nacional do esporte. Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, Friedenreich tornou-se símbolo da contradição brasileira: um país profundamente racista que, ao mesmo tempo, via emergir no futebol uma linguagem popular impossível de ser contida pelas elites.

    Cronistas e jornais na construção do futebol brasileiro

    Em meio à invenção das tradições ligadas ao futebol brasileiro, surgiram também os cronistas esportivos. Intelectuais e jornalistas entraram em campo tentando compreender e decifrar a linguagem do novo passatempo popular.

    Em 1931, o jornalista Argemiro Bulcão fundou o primeiro diário especializado em futebol, o Jornal dos Sports. Com sua primeira página cor-de-rosa, inaugurou uma nova etapa da crônica e do jornalismo esportivo no país. Em 1936, o diário foi comprado por Mário Filho, que posteriormente emprestaria seu nome ao estádio do Maracanã. Sob seu comando, o periódico tornou-se referência nacional na cobertura esportiva, especialmente do futebol. Ainda na década de 1930, em São Paulo, Thomaz Mazzoni impulsionou A Gazeta Esportiva, consolidando no eixo Rio-São Paulo dois dos principais jornais dedicados ao esporte no Brasil. Cronistas como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego assumiram papel crucial durante a campanha pela Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil. Lins do Rego foi um árduo defensor da construção do estádio do Maracanã.

    Os cronistas perceberam gradualmente que os brasileiros estavam criando uma forma própria de jogar o association football — o futebol de associação, nome oficial dado pelos ingleses. A rigidez tática inglesa deu lugar à improvisação; a força física passou a conviver com a ginga; o jogo coletivo incorporou criatividade, drible e espontaneidade. O futebol brasileiro nasceu da mistura entre culturas populares urbanas, heranças africanas e experiências das classes trabalhadoras.

    Intelectuais como Gilberto Freyre perceberam precocemente que o futebol brasileiro não reproduzia mecanicamente o modelo europeu. Em textos clássicos publicados nos anos 1930, Freyre associou o estilo brasileiro de jogar à mestiçagem cultural do país, destacando a ginga, a improvisação e a malícia corporal como expressões legítimas da formação social brasileira, embora essa interpretação muitas vezes tenha sido marcada por idealizações sobre a democracia racial no país. Décadas depois, Mário Filho aprofundaria essa interpretação ao narrar a popularização do futebol entre negros, trabalhadores e setores populares urbanos no célebre livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), obra que se tornaria um dos maiores clássicos da historiografia esportiva nacional.

    Como diria Eric Hobsbawm, o futebol brasileiro também produziu suas próprias “tradições inventadas”: símbolos, narrativas, heróis e estilos de jogo que ajudaram a consolidar um sentimento coletivo de identidade nacional ao longo do século XX. Não por acaso, o futebol transformou-se em um dos maiores símbolos da identidade brasileira na modernidade.

    Do estilo brasileiro ao reconhecimento mundial

    Entre 1958 e 1970, o Brasil conquistou três Copas do Mundo em apenas doze anos. Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos, Tostão, Jairzinho e Rivellino não eram apenas jogadores extraordinários; representavam uma escola de futebol admirada globalmente. O Brasil deixou de ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta.

    + Símbolo de uma era: Em 1958, o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo
    + O futebol e o jogo da vida

    Mas, depois de 1970, o país que reinventou o futebol começaria lentamente a perder o controle sobre sua própria criação.

    Este é o primeiro artigo da série Do apogeu à decadência: a saga do futebol no Brasil. No próximo texto, abordo a aparição e da ascensão dos clubes brasileiros.


    Alexandre Machado Rosa é doutor em Saúde Coletiva. Graduado e mestre em Educação Física, é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.

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