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    China

    China e EUA precisam aprender a conviver no século XXI

    Documento divulgado por importante centro de estudos de Pequim defende respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação como caminhos para evitar que a disputa entre as duas maiores potências do planeta se converta em um conflito de grandes proporções

    POR: Walter Sorrentino e Theófilo Rodrigues

    10 min de leitura

    O presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante cerimônia oficial de recepção em Pequim, em maio de 2026. Crédito: Foto: Daniel Torok/White House Photo
    O presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante cerimônia oficial de recepção em Pequim, em maio de 2026. Crédito: Foto: Daniel Torok/White House Photo

    China, Estados Unidos e a nova grande transformação mundial

    Em 1944, em meio à crise do liberalismo e à devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial, o intelectual húngaro Karl Polanyi publicou A Grande Transformação, obra que se tornou um clássico da teoria política contemporânea. O livro procurava compreender como a expansão desenfreada do mercado autorregulado havia produzido profundas rupturas sociais, econômicas e políticas, abrindo caminho para crises sistêmicas, guerras e rearranjos geopolíticos de grande magnitude.

    Polanyi analisava a crise histórica do liberalismo concorrencial e o colapso da ordem internacional construída no século XIX. Oitenta anos depois, o mundo volta a atravessar uma nova “grande transformação”, agora marcada pela crise da globalização neoliberal, pela reorganização das cadeias produtivas globais, pela revolução tecnológica e pela transição de uma ordem unipolar para um cenário cada vez mais multipolar.

    Da ordem unipolar à nova grande transformação

    Foi nesse contexto que o Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas divulgou, em 13 de maio deste ano, o documento intitulado A Grande Transformação do Mundo e a Forma como a China e os Estados Unidos Devem Coexistir, precisamente no mesmo dia em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a Pequim para uma visita ao governo chinês.

    O texto parte da ideia de que as relações entre China e Estados Unidos ingressaram em uma nova etapa histórica e que a estabilidade internacional dependerá, em grande medida, da capacidade de ambos os países construírem formas de convivência pautadas pelo respeito mútuo, pela coexistência pacífica e pela cooperação mutuamente benéfica. Mais do que um documento diplomático, trata-se de uma reflexão estratégica sobre a crise e colapso da ordem liberal construída após a Guerra Fria e sobre os caminhos possíveis da transição geopolítica em curso.

    O conceito fundamental presente no documento é o de que “os laços bilaterais passaram por muitas tempestades e agora entraram em uma nova fase de impasse estratégico”. Trata-se da mesma preocupação expressa por Xi Jinping em suas conversas com Donald Trump ao alertar para os riscos da chamada “armadilha de Tucídides” (1). Segundo essa leitura, os dois países precisam encontrar urgentemente uma forma adequada de coexistência compatível com as novas realidades das relações bilaterais.

    A China já alcançou capacidade econômica, tecnológica e militar suficiente para impedir imposições unilaterais dos Estados Unidos; por outro lado, os EUA continuam sendo a potência mais poderosa do sistema internacional. Nessas condições, nenhum dos lados possui força suficiente para derrotar ou subordinar completamente o outro, tornando a coexistência estratégica uma necessidade objetiva.

    Coexistência estratégica entre China e Estados Unidos

    Na primeira seção, intitulada “Transformações globais inéditas em um século”, o documento sustenta que a ordem internacional vive uma transição marcada pelo esgotamento da arquitetura liberal liderada pelos Estados Unidos e pela emergência de uma nova configuração ainda indefinida. O deslocamento do dinamismo econômico para a Ásia, a crise das instituições multilaterais e a revolução tecnológica redefinem as relações de poder no sistema internacional. Nesse cenário, China e Estados Unidos teriam a responsabilidade de evitar que a transição para a multipolaridade se converta em um confronto sistêmico destrutivo.

    A segunda seção aborda a nova fase de impasse estratégico na rivalidade sino-americana. O crescimento econômico, científico e militar da China alterou profundamente a correlação internacional de forças, encerrando a fase de hegemonia unipolar dos Estados Unidos após o fim da União Soviética. Ao mesmo tempo, a forte interdependência entre as duas economias impede uma simples lógica de “nova Guerra Fria”.

    As tensões comerciais, tecnológicas e geopolíticas expressam essa nova etapa da disputa internacional, mas o documento reconhece que um confronto aberto teria consequências catastróficas para o mundo. Por isso, o respeito mútuo, a coexistência pacífica e a cooperação aparecem como necessidades objetivas da nova realidade histórica.

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    Na terceira seção, partindo do reconhecimento de que se produz um agravamento dos déficits em matéria de paz, desenvolvimento, segurança e governança, o documento apresenta a proposta chinesa para a construção de um novo tipo de relação entre grandes potências. Essa proposta baseia-se em princípios como respeito mútuo, não ingerência e cooperação vantajosa, considerando que interesses profundamente entrelaçados e uma interdependência complexa emergiram como característica marcante desta fase.

    A questão do separatismo de Taiwan aparece como principal risco de guerra e uma linha vermelha inegociável para a China:

    “Constitui o cerne dos interesses fundamentais da China e a base política das relações sino-americanas. Se os Estados Unidos adotarem posições ambíguas ou regressivas em relação a Taiwan e enviarem sinais errôneos às forças separatistas da ‘independência de Taiwan’, o respeito mútuo entre a China e os Estados Unidos se tornará impossível”, diz o documento.

    Ao mesmo tempo, o texto defende mecanismos permanentes de diálogo entre os dois países. Para os autores, os desafios do século XXI – como mudanças climáticas, inteligência artificial e segurança internacional – exigem novos níveis de coordenação global.

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    Multipolaridade, interdependência e rivalidade administrada

    A multipolaridade é apresentada não como fragmentação caótica, mas como possibilidade e necessidade de construção de uma ordem internacional mais equilibrada. Frente a ela, o documento argumenta que os dois países ainda podem estabelecer um modo adequado de coexistência e construir juntos um futuro positivo. Trata-se de uma coexistência competitiva, na qual não cabe a hipótese ocidental de contenção da China nem o fim da rivalidade, mas uma gestão racional de crises na competição entre grandes potências nuclearmente armadas, preservando uma integração econômica seletiva. Tais fatores são os mecanismos de estabilização estratégica neste período.

    Nisso reside uma diferença fundamental em relação à lógica da Guerra Fria. Ao contrário da relação amplamente paralela e relativamente desconectada que existia entre os Estados Unidos e a União Soviética, China e EUA mantêm interesses profundamente entrelaçados e uma complexa interdependência econômica. Trata-se de uma relação marcada por vínculos comerciais, financeiros, produtivos e tecnológicos cada vez mais complementares e simbióticos, embora também vulneráveis à coerção e às perturbações provocadas por qualquer uma das partes.

    Essa é a concepção expressa no documento do Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas (CICIR), partindo da visão segundo a qual o mundo vive uma transição histórica.

    Brasil, BRICS e a transição para uma nova ordem mundial

    Registramos um destaque, do ponto de vista brasileiro: o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) afirmou, provavelmente como a primeira força política nacional a fazê-lo, essa inflexão histórica já em 2009, durante seu 12º Congresso, ao formular a categoria de um mundo em transição. Ao aprovar o Programa Socialista para o Brasil, o partido identificava que o sistema internacional atravessava uma inédita virada histórica, marcada pela crise da hegemonia unipolar dos Estados Unidos e pela emergência de uma tendência à multipolaridade. Dizia:

    “Está em curso uma transição do quadro de dominação unipolar que marcou o imediato pós-Guerra Fria, com a intensificação de tendências à multipolarização e à instabilidade no sistema internacional. Transição cuja essência é marcada pelo declínio relativo e progressivo dos EUA e pela rápida ascensão da China socialista.”

    Esse diagnóstico expressava aquilo que já começava a se afirmar no cenário global: o crescente papel da China e dos países do Sul Global, numa ampla frente contra-hegemônica e antiimperialista. Nesse sentido, evidencia-se que os BRICS emergem como um espaço estratégico de articulação política, econômica, ambiental e cultural voltado à construção de uma ordem internacional mais equilibrada, cooperativa e multilateral.

    O Brasil, por suas dimensões continentais, sua tradição diplomática e sua capacidade de diálogo entre diferentes regiões do mundo, possui uma contribuição singular a oferecer nesse processo histórico. Contribuição expressa na defesa do multilateralismo, da integração sul-americana, da cooperação Sul-Sul e de uma nova arquitetura internacional voltada ao desenvolvimento, à paz e à proteção ambiental. O sentido histórico da nova multipolaridade dependerá justamente da capacidade dos povos e das nações emergentes de transformar essa transição geopolítica em um novo ciclo de soberania, desenvolvimento, paz e cooperação entre os povos.

    A certeza crescente é o papel decisivo da China, entronizando-se em definitivo no quadro das duas principais potências mundiais, sem desconhecer as assimetrias ainda presentes entre elas, propondo a cooperação e estabilidade na rivalidade sistêmica com os EUA. O documento que analisamos brevemente representa uma formulação sofisticada da grande estratégia chinesa contemporânea para rejeitar tanto submissão quanto confronto aberto, e buscar uma ordem multipolar estável com um multilateralismo mais justo e democrático, na qual a China seja aceita como potência civilizacional equivalente aos Estados Unidos.

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    A proverbial habilidade, paciência, resiliência e altivez nacional permitiram à China ganhar tempo e seguir adiante rumo à meta do “segundo centenário”, a ser alcançada até 2049: “transformar a China em um grande país socialista moderno em todos os aspectos”. Segundo a definição do Partido, isso significa alcançar um patamar “modernizado, próspero, democrático, civilizado e harmonioso”, atingindo o padrão dos países moderadamente desenvolvidos (2).

    Notas

    1 – A chamada “armadilha de Tucídides” refere-se à possibilidade de que a ascensão de uma nova potência provoque tensões crescentes com a potência estabelecida, aumentando o risco de conflito entre ambas. A expressão deriva da interpretação da análise feita pelo historiador grego Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta no século V a.C., e tem sido frequentemente utilizada para refletir sobre os desafios estratégicos colocados pela ascensão da China diante da posição historicamente dominante dos Estados Unidos.

    2 – Referente a 1949, data da vitória da revolução socialista, após alcançar a meta do primeiro centenário, o marco da fundação do Partido, celebrado em 2021, que era “concluir a construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos”.


    Walter Sorrentino é presidente da Fundação Maurício Grabois.

    Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Iuperj/UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira. Também é diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach).

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial dFundação Maurício Grabois.