Trocando em Miúdos
Moratórias dos Centros de Dados nos Estados Unidos: Movimento contra as Big Techs
Os centros de dados (data centers em inglês) são grandes depósitos que armazenam filas de servidores de computadores, sistemas de armazenamento de dados e dispositivos de rede. Tudo que se faz hoje em dia na Internet, como enviar e-mails, salvar fotos em uma nuvem, assistir ao streaming de um show no celular ou na televisão, ou fazer uma pergunta a um chatbot tem que passar por um centro de dados. Embora eles já existam por décadas, nos últimos anos expandiram-se exponencialmente para apoiar modelos de inteligência artificial (IA) cada vez mais populares.
Há diferentes tipos de centros de dados, entre os quais os mais comuns são:
- Centros de Dados de Alta Escala (hyperscale data centers em inglês), que são depósitos grandes que armazenam servidores avançados com capacidade para processar uma enorme quantidade de dados. Eles tornaram-se muito populares com o advento dos serviços de computação em nuvem e mineração de criptomoedas e estão expandindo-se rapidamente com o boom da IA.
- Centros de Dados de Empresas (enterprise data centers em inglês), que são operados pelas empresas proprietárias para seus serviços de armazenamento de dados e necessidades de computação.
- Centros de Dados de Colocação e Provisão de Serviços (colocation data centers and service providers em inglês), que são centros que permitem alugar espaço para seu próprio hardware. Por exemplo, em vez de usar seu próprio espaço no local para seus servidores, cabos, dispositivos de rede e outros equipamentos de computação, pode-se alugar espaço em centros de dados.
Os centros de alta escala podem ter pelo menos 5.000 servidores, mas alguns têm muito mais que isso e podem ocupar um espaço de quase 1.000 a 10.000 metros quadrados, enquanto os maiores podem chegar a mais de 90 mil. Os centros de dados têm, em média, de 2.000 a 5.000 servidores, enquanto os menores têm cerca de 500 a 2.000.
Segundo relatório recente da Agência Internacional de Energia (AIE), o desenvolvimento acelerado da IA nos Estados Unidos gerou investimentos pelas maiores Big Techs de 400 bilhões de dólares em 2025 – com crescimento esperado de cerca de 75% em 2026 – em centros de dados para a criação e operação de modelos de IA. Os investimentos de capital de apenas cinco Big Techs são maiores atualmente do que todo o investimento global na produção de petróleo e gás natural. O governo dos EUA considera o desenvolvimento dos centros como prioridade nacional e aloca recursos e terrenos para apoiar o crescimento da rede de centros no país.
A figura abaixo mostra a distribuição de muitos centros de dados em operação e planejados para o país, cujo número deve aumentar bastante nos próximos anos. Mais de 1.500 novos centros encontram-se em vários estágios de desenvolvimento, segundo análise do Centro de Pesquisas Pew de um Mapa de Centros de Dados, que pode ser acessado no site datacentermap.com/usa. Virgínia, Texas e Califórnia têm o maior número de centros de dados entre os 14 estados onde eles já existem.

Gráfico distingue centros de dados em operação (laranja escuro) e planejados ou em construção (laranja claro). Virgínia, Texas e Califórnia lideram em número total de empreendimentos, enquanto a Geórgia se destaca pelo volume de novos projetos previstos. Fonte: Pew Research Center, com dados do Data Center Map (2026).
67% dos centros planejados se localizarão em áreas rurais enquanto 87% dos atuais são urbanos. Atualmente, 38% da população dos Estados Unidos mora a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em operação. Os que defendem a construção de centros de dados argumentam que eles geram crescimento econômico em nível local e nacional, garantem a segurança nacional diante da competição global pela IA, e oferecem oportunidades para resolver problemas ambientais e melhorar a indústria de cuidados à saúde, entre outros.
Demanda energética dos data centers
Ao redor de 50% do consumo de energia elétrica de um centro de dados deriva da operação de equipamentos eletrônicos de tecnologia de informação (TI). Como cada componente do equipamento eletrônico de TI gera calor enquanto opera, os centros de dados requerem sistemas de resfriamento para dissipar o calor e manter ótima performance e a estabilidade geral do sistema. Os sistemas de resfriamento podem responder por 38% a 40% do consumo de eletricidade de um centro de dados.
A AIE estima que os centros de dados dos EUA consumiram 183 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2024, mais de 4% do consumo total de energia do país em 2024. Estima-se que o consumo vai crescer 133% até 2030, atingindo 426 TWh. Um único centro de alta escala típico consome anualmente a mesma quantidade de energia de 100.000 residências, enquanto os maiores atualmente em construção poderão consumir cerca de vinte vezes mais.
Estudo de 2025 estimou que treinar um modelo grande de IA consumiu 50 gigawatts-hora (equivalente a 1 milhão de quilowatt-hora) de energia, “suficiente para fornecer energia para São Francisco por 3 dias” (James O’Donnell e Casey Crownhart, “We Did the Math on AI’s Energy Footprint. Here’s The Story You Haven’t Heard”, MIT Technology Review, 20 de maio de 2025). Outros estudos recentes sugerem que o consumo de energia dos centros de dados em construção crescerá rapidamente nos próximos anos, mesmo quando a eficiência energética deles reduza o consumo de energia.
Demanda de água dos data centers
Segundo relatório do Serviço de Pesquisas do Congresso dos EUA (Data Centers and Their Energy Consumption: Frequently Asked Questions), a operação de equipamento de TI aumenta a temperatura ambiente e exige uma estratégia de resfriamento. Existem dois tipos de recursos centralizados de resfriamento: (a) os que movem ar resfrido através de dutos largos; ou (b) os que movem água resfriada em uma tubulação curva que troca calor com o ambiente.
Uma alternativa para os sistemas centralizados são aparelhos de ar-condicionado para ambientes menores, comuns em centros de dados pequenos. A troca de calor com o ambiente ocorre mais rápido com métodos que consomem água diretamente. A fonte de água pode ser fornecida por companhias locais, pode vir de reservatórios situados nos centros ou de outras fontes locais como um lago artificial.
Um estudo da AIE estimou que um centro de dados de 100 megawatts nos EUA poderia consumir quase 2 milhões de litros de água por dia, calculado pela média de várias estratégias de resfriamento, dos quais 725.000 litros por dia seriam consumidos no centro (pouco menos de 40%). Um exemplo de como os centros de dados afetam cidades próximas é o da cidade The Dalles, no estado de Oregon, onde quase 30% do consumo de água na cidade foi atribuído a centros de dados da Google, que triplicaram o consumo de água em cinco anos.
Impacto dos data centers nos preços da eletricidade
As evidências sobre o impacto dos centros de dados na conta de luz paga pelos consumidores residenciais ainda não são conclusivas. O que não está em discussão é o aumento de 7,1 % nos preços da eletricidade nos EUA em 2025, o dobro da inflação no mesmo ano. Em alguns estados, o aumento foi além de 20%. As razões pelas quais há grande debate no país sobre se e até que ponto os centros de dados causam aumento dos preços da energia elétrica incluem os seguintes aspectos, entre outros:
- A inflação crescente e os custos de reposição da rede elétrica envelhecida são fatores reconhecidos como causas do aumento dos custos da eletricidade.
- Pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, por exemplo, conduziram estudo sobre o impacto dos centros e de outros fatores nos preços da eletricidade no varejo entre 2019 e 2025. Os pesquisadores verificaram que a maior causa do aumento de preços da eletricidade naquele período foram os investimentos das companhias de fornecimento de eletricidade na infraestrutura da rede, principalmente devido ao envelhecimento da infraestrutura e às necessidades de resiliência. Outras causas foram os preços do gás natural, a recuperação de desastres naturais como tempestades e incêndios, e políticas de energia e ambientais dos estados. Esta análise não identificou os centros de dados como grandes influenciadores dos preços da eletricidade na maior parte do país.
- Não há transparência nos contratos firmados entre as Big Techs e as companhias distribuidoras de energia, o que dificulta saber quanto pagam pela energia recebida como consumidores industriais. Além disso, as Big Techs afirmam que aportam recursos próprios para bancar a sua demanda, o que segundo elas resulta em poucos custos adicionais para consumidores residenciais.
Movimento contra os data centers
Inúmeras cidades e estados nos Estados Unidos estão propondo ou já aprovaram moratórias na construção de novos centros, seja pela enorme demanda de eletricidade, seja pelo alto consumo de água, seja pela privatização de terrenos que poderiam ter outros usos, ou seja, pelo poder das grandes empresas de tecnologia de introduzir a IA em toda a sociedade sem participação popular nas decisões.
De acordo com o site Data Center Watch, um movimento nacional estadunidense pela moratória na expansão dos centros se consolidou em todo o país desde o segundo semestre do ano passado. O site resume os avanços do movimento afirmando que em 2025 a oposição aos centros em nível local bloqueou ou adiou dezenas de projetos de data centers, representando 152 bilhões de dólares de investimento potencial. Essa oposição foi além de campanhas locais e se estendeu para litígios legais, moratórias e questionamentos sobre projetos pré-aprovados em vários estados, contribuindo para obstruir e alongar o cronograma deles na segunda metade do ano.
O protesto contra os centros se solidificou através de leis, eleições e políticas apoiadas pelos dois partidos. Em 2025, os centros de dados se moveram de comissões de planejamento para assembleias legislativas, regulamentação de distribuidoras, e o eleitorado, influenciando eleições nos estados de Virgínia, Nova Jersey e Geórgia, preparando o terreno para as eleições de novembro de 2026. O movimento de base atingiu escala nacional, com centenas de grupos opositores ativos em 42 estados dos EUA, cujas atividades aceleraram no segundo semestre. Petições contra a construção de centros surgiram em paralelo, refletindo a generalização do movimento a nível de escala e coordenação da oposição.
O senador Bernie Sanders, Independente de Vermont, e a deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, Democrata de Nova Iorque, se tornaram vozes parlamentares do movimento ao propor um projeto de lei intitulado “Moratória de Centros de Dados de Inteligência Artificial”, visando criar uma pausa no desenvolvimento de IA para garantir a segurança da humanidade. O senador Sanders declarou:
“A IA e a robótica estão criando a maior revolução tecnológica na história da humanidade. A escala e o escopo da mudança não tem precedentes. O Congresso está bastante atrasado em relação a onde deveria estar para entender a natureza desta revolução e os seus impactos. Resumo da ópera: Não podemos esperar sentados e permitir que um punhado de bilionários oligarcas das Big Techs tomem decisões que irão reformatar a nossa economia, a nossa democracia e o futuro da humanidade. Precisamos de debate sério e público e controle democrático sobre esta enormemente importante questão. A hora para ações é agora. Precisamos de moratória federal para os centros de dados de IA.”
+ Os poderes das Big Techs, por Ergon Cugler
Econômico: Big Techs se tornaram mais poderosas que países
Político: Big Techs já mandam mais na democracia que o nosso voto
Cognitivo: Como as Big Techs transformaram nosso cérebro em produto
A deputada Ocasio-Cortez declarou:
“Temos visto o ICE fazer parcerias com companhias de IA para vigiar americanos, usuários de redes sociais utilizarem ferramentas de IA para criar deepfakes (imagens, vídeos ou áudios que simulam pessoas reais) de sexo explícito de crianças e mulheres, e a construção de centros de dados inflacionar as contas de luz em comunidades de todo o país. E todo este dano tem ocorrido pela falta de legislação federal para regular a IA. O Congresso tem a obrigação moral de estar ao lado do povo americano e parar a expansão desses centros de dados até que tenhamos uma estrutura para lidar adequadamente com o dano existencial que a IA coloca para a nossa sociedade. Nós temos que escolher a humanidade acima dos lucros.”
Segundo o texto anexo ao projeto de lei, seria instituída uma pausa nos centros de dados ao criar uma moratória federal até que proteções a nível nacional estejam em vigor para garantir que a IA seja segura e efetiva — prevenindo que executivos da indústria de IA lancem produtos perigosos no mundo que ameaçam a saúde e o bem-estar das famílias de trabalhadores, a privacidade, os direitos civis e o futuro da humanidade. O projeto defende que os ganhos econômicos da IA e robótica beneficiem os trabalhadores, não somente os donos ricos das Big Techs e que a IA não aumente o preço da conta de luz e da eletricidade, cause danos a comunidades ou destrua o meio ambiente.
Por último, o projeto pretende paralisar a corrida global para ver qual país é o primeiro a eliminar milhões de empregos ou o primeiro a criar uma IA que destrua o planeta. Para alcançar isto, ele bane exportações da infraestrutura computacional de IA para países que não tenham proteção em vigor para garantir que a IA seja segura e efetiva, trabalhadores são protegidos e que a IA não causa danos ao meio ambiente.
Nesta coluna apresento resumidamente o que está em jogo com a construção e operação de centros de dados de IA nos Estados Unidos, onde há a maior expansão deles no mundo. Como o Brasil está em vias de se abrir para que as Big Techs desenvolvam tais centros no país, é mais do que urgente que levemos em consideração os impactos reais e potenciais desses centros antes de aceitar que os oligarcas estadunidenses exportem os riscos e impactos negativos dos centros para o Brasil e transfiram os lucros para suas corporações.
+ Soberania digital e seu significado para o desenvolvimento do Brasil
Em poucas palavras, há que impedir a dependência do país em relação ao novo colonialismo de dados sugerido pelo modelo de negócios adotado pelas Big Techs, já que tudo indica que nos EUA muitas comunidades estão reagindo abertamente contra elas. Os oligarcas querem exportar os centros para o Brasil para se livrar das barreiras que estão surgindo no centro do imperialismo.
Eduardo Siqueira é professor na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Grabois.