O momento foi marcante e inusitado, já que duas caravanas se encontraram em Marabá. A dos jovens –que vinham desde Palmas (TO), passando pela Vila Santa Cruz dos Martírios (PA) e Xambioá (TO), percorrendo mais de 3 mil quilômetros– e a do Ministério da Justiça, completando 83 sessões da caravana da Comissão de Anistia.

Na praça central de Marabá, após a exibição de um vídeo que contou a história do golpe de 1964 e todas as atrocidades que o procederam, a Comissão de Anistia deu início à avaliação e julgamento de pedidos de indenização de pessoas que tiveram a vida prejudicada pela ditadura militar. A mesa contou com a participação da vice-presidente da Comissão de Anistia, Sueli Bellato; o presidente da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, Sezostrys Alves da Costa; a presidenta da UNE, Virgínia Barros; a presidenta da UBES, Barbara Melo; o presidente do CEMJ, Eusébio Jorge Silvio; o representante da fundação Maurício Grabóis, Fernando Garcia; e o presidente da UJS, André Tokarski.

O ato da Caravana de Anistia ratificou ainda a necessidade da urgente revisão da Lei de Anistia de 1979, a punição severa aos torturadores do regime militar e a abertura de todos os arquivos que existiram durante o período. “A história que temos hoje está incompleta. Algumas pessoas que escreveram essas páginas passaram e elegeram aquela como a melhor versão que poderia ser contada. Não nos calaremos e exigimos justiça sobre todo esse processo doloroso. Ainda há tempo de contarmos a nossa versão”, analisou Sueli Bellato, vice-presidente da Comissão.

Juntamente com outros cinco conselheiros, a Comissão de Anistia avaliou sete processos que já tramitavam há anos na justiça. Infelizmente, devido ao feriado e a distância que cada cidade possui, nenhum requerente pôde participar do julgamento. Apenas Agostinho Pereira do Nascimento Filho, que estava representado pela sua procuradora, recebeu sua reparação pelas atrocidades cometidas durante o regime militar. Agostinho tinha um comércio nas regiões do rio Araguaia e vendia mantimentos para os guerrilheiros. Os militares o torturaram por oito meses com a premissa de que o comerciante compactuava com a guerrilha.

“Temos buscado refletir os obstáculos que impedem o Brasil de avançar e se realizar plenamente. Nesse investigação que a caravana elo Araguaia proporcionou, percebemos que sem tocar na ferida da transição democrática, não andaremos para a frente. É preciso que se conte a história do Araguaia porque aqui foi palco da maior atrocidade da ditadura militar. O major Curió, por exemplo, que assassinou os guerrilheiros e torturou e matou camponeses, continua impune, ainda com poderes e colocando medo na população dessa região”, expôs o presidente da UJS, André Tokarski.

LUGAR DE CURIÓ É NA CADEIA

O último dia da caravana serviu para lançar uma nova campanha contra o major Curió, coronel da reserva do Exército e comandante militar da Guerrilha do Araguaia. Curió violou os direitos humanos durante o período do combate e deve responder aos crimes cometidos. “Lugar de Curió é na cadeia”, essa foi a palavra de ordem durante a mesa de debate que encerrou as atividades da caravana na segunda-feira.

O projeto da UJS de visitar a região reitera o fato de que a própria caravana se transformou, com o passar dos dias, em um instrumento de justiça e um marco na história pela preservação da Coluna Prestes e da Guerrilha do Araguaia. E é por isso que o propósito da caravana passou a ser também, conforme os dias foram passando, uma carta de apresentação sobre um desenvolvimento econômico que distribui renda, distribui terra e combate a desigualdade social.

A “Carta de Marabá”, escrita e assinada pelos 40 jovens, é um reencontro com a história que compõe o DNA da UJS e fonte permanente de inspiração revolucionária, de coragem e de amor pela humanidade. “Não nascemos para o silêncio! Nos somamos à luta pela memória e pela verdade, para que os arquivos da ditadura sejam abertos. Para que os corpos dos nossos mortos possam ser encontrados e suas famílias possam enterrá-los com dignidade. Para que o heroísmo, surgido da força popular que resiste à opressão, possam ser letra escrita da história e formar as gerações à luz das lições do passado. Para que os tempos sombrios da ditadura não se esqueça e nunca mais aconteça. Saímos revitalizados e mais fortes para escrever as próximas páginas de lutas por um Brasil de igualdade, de democracia e soberano. Sejamos hoje o que nossos guerrilheiros e lutadores foram em seus tempos, que apesar da perda prematura de suas vidas, não se furtaram a defender nosso país e construir o Socialismo”, diz um trecho do documento.

ARAGUAIA, SUAS ÁGUAS AINDA LEMBRAM SANGUE DERRAMADO

A caravana, sem dúvida, permitiu conhecer mais dessas duas experiências e perceber as raízes indeléveis que exemplos de coragem e generosidade, como o dos guerrilheiros Osvaldão e Dina, causaram nesses povoados que os jovens percorreram. Ficou a certeza de que esse último conflito deve ser redimensionado historicamente. E com urgência. É indiscutível, apesar dos silêncio dos algozes, que o sul do Pará e o norte de Tocantins, entre 1972 e 1975, se transformaram em uma zona de guerra, em pleno território brasileiro. Como omitir dos registros históricos uma situação de beligerância que durou quase três anos, envolvendo mais de dez mil homens em armas?

Como deixar de registrar o terror que se abateu sobre uma população que, à margem do processo civilizatório, viu as primeiras novidades tecnológicas somente quando do surgimento da Guerrilha, bem como registrou o professor de Xambioá Paulo Cesar, durante debate na esquecida e miúda vila de Santa Cruz dos Martírios, palco de guerra?  Como esquecer as centenas de moradores presos, humilhados e torturados, obrigados a se silenciar pelos órgãos repressivos e que carregam traumas até hoje?

Por fim, como silenciar sobre o destino de jovens que, em determinadas circunstâncias, abandonaram seus cotidianos para embrenharem-se nas matas longuínquas, tentando realizar seus ideais? É importante resgatar, para a história, o fato de que a ditadura que se abateu sobre o povo encontrou resistência na coragem e determinação de alguns. E que o enfrentamento entre militares e guerrilheiros aconteceu nos caminhos mais difíceis, recém-abertos, da floresta amazônica, nas matas e rios de um pedaço esquecido do Brasil.

Ali, uma população que sempre vivera à margem da nossa história tornou-se, ativa ou passivamente, personagem central de um episódio histórico, compondo um capítulo a mais das lutas que construíram o Brasil. Isso quem comprovou foram a Dona Geralda, Seu Paçoca, Dona Maria, Seu Raimundo, Seu Leonardo, Seu Antônio e tantos outros camponeses que foram escutados durante a trajetória da caravana pelo território. E é exatamente esse o ponto central: todas essas pessoas devem ser ouvidas sempre, para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça.

A caravana se soma à luta pela memória e pela verdade para que o heroísmo, surgido da força popular que resiste à opressão, possa ser letra escrita da história e formar gerações à luz da história do passado. Os jovens socialistas saíram da caravana revitalizados e mais fortes para escrever as próximas páginas de luta por um Brasil de igualdade. Que sejam hoje o que os jovens combatentes do Araguaia foram ontem. Que sejam Osvaldões, Dinas, Valquírias e Grabóis desse novo tempo.

De Marabá (PA), Patrícia Blumberg e Rafael Minoro