O ano de 1995 foi tumultuado para o sistema financeiro mundial. Foi um período de falências, de revelações de escândalos e de crimes cometidos por grandes bancos internacionais, e também um ano em que as fusões de grandes instituições financeiras bateram um novo recorde. Existem dados indicando que nos Estados Unidos, por exemplo, as operações de fusões e aquisições de empresas atingiram cerca de 355 bilhões de dólares, o que significa um novo recorde histórico. O setor financeiro, verdadeiro centro de gravidade do sistema capitalista atual, foi o que registrou maior número de fusões, respondendo por 20% do valor das operações, seguido pelos setores de telecomunicações e de informática (1).

O quadro 1 resume as principais fusões ocorridas no sistema financeiro mundial até outubro de 1995, segundo levantamento feito pela revista inglesa The banker. A essa tabela deveria ainda ser agregada a operação de compra do banco TSB pelo Lloyd’s Bank, na Inglaterra, também uma das maiores do ano passado, pois o Lloyd, pelo critério do capital, antes dessa operação, ocupava o quinquagésimo lugar entre os maiores bancos do mundo (2).

A maior fusão do ano foi a do Bank of Tokyo com o Mitsubishi Bank, no Japão. O banco nascido dessa operação, o Tokyo Mitsubishi Bank, passou a ser o maior do mundo, com ativos calculados em torno de 820 bilhões de dólares, quase duas vezes o valor do PIB brasileiro.

Em todos os lugares, essa onda de fusões é explicada como uma busca desenfreada por parte desses trustes financeiros de melhorar sua posição relativa no mercado, reduzir custos (sobretudo pelo corte de empregados) e aumentar seu poder de interferência nas operações financeiras globais. Mas no caso específico dessa fusão entre os gigantes Bank of Tokyo e Mitsubishi Bank, há analistas que apontam como sua principal causa uma manobra das autoridades japonesas visando a criar uma espécie de instituição “salva-vidas” no cenário de crescente crise do sistema financeiro daquele país. O novo Tokyo Mitsubishi Bank ficaria, assim, encarregado de absorver um número razoável de bancos problemáticos, como o Chuo Trust, o Hokkaido Takushoku Bank e o Nippon Credit Bank (3). O sistema financeiro japonês vive uma de suas piores crises de pós-guerra, em função de uma enxurrada de empréstimos vencidos e não pagos, e opera hoje com uma das mais baixas taxas anuais de juros do mundo, em torno de 2% reais ao ano. Há uma desconfiança generalizada atingindo os bancos japoneses, e cálculos de que os chamados bad loans (empréstimos ruins) ultrapassariam um trilhão de dólares. No decorrer de 1995, segundo a revista The economist, foi necessária uma operação de resgate para salvar o Cosmo. Outro banco importante, o Kizu, faliu, e o Hyogo, um banco regional, foi liquidado. Para piorar o cenário, no final do ano o gigante Daiwa Bank admitiu que um operador de sua sucursal de Nova Iorque escondeu, durante onze anos seguidos, prejuízos de cerca de 1,1 bilhão de dólares. O Banco Central norte-americano (o Federal Reserve), diante do escândalo, interveio e encerrou as atividades do Daiwa nos Estados Unidos (4).

Mas foi nos Estados Unidos que o processo de fusões e incorporações na área financeira, no decorrer de 1995, avançou mais do que em qualquer outro lugar. O sistema financeiro norte-americano é considerado bastante fragmentado, em comparação com outros países capitalistas como Japão, Alemanha e França. A legislação, que vem sendo modificada, não favorecia o processo de fusões.

Talvez por isso, o único banco norte-americano que aparecia entre os 50 maiores do mundo pelo critério de volume de ativos era o Citibank. Essa situação, porém, vem se modificando bastante nos últimos anos. Pelo levantamento feito pela revista The Banker, das quinze operações de aquisições e fusões realizadas no ano passado entre os maiores 200 bancos do mundo, sete ocorreram nos Estados Unidos. Os principais motivos que explicam isso são, entre outros, a busca de uma determinada escala imposta pela crescente globalização das operações financeiras de todo tipo (empréstimos, operações de câmbio, mercados futuros etc.) e a redução de custos. A principal fusão foi realizada entre os bancos nova-iorquinos Chemical e Chase Manhattan, a maior da história financeira dos Estados Unidos, resultando numa instituição com ativos da ordem de 275 bilhões de dólares. O Chemical, em 1991, já havia incorporado o Manufacturer’s Hanover, despedindo 6.200 empregados e reduzindo custos operacionais em 750 milhões de dólares anuais. Com a nova fusão, há estimativas de que outros 12.000 trabalhadores sejam cortados, e que haverá uma redução de custos da ordem de 1,2 bilhão de dólares.

Quadro 1 (p. 9)

Outra grande operação, para os padrões norte-americanos, foi a oferta feita, no final de 1995, pelo banco californiano Wells Fargo, para absorver seu concorrente First Interstate pela quantia de 10 bilhões de dólares. A oferta surpreendeu o mercado financeiro devido a seu caráter pouco usual, pois a First Interstate não estava em negociação com o Wells Fargo, que vem se consolidando como um dos principais da costa do Pacífico. É que a fusão provocaria um substancial aumento de ganhos e uma efetiva redução de custos, da ordem de 700 milhões de dólares anuais (evidentemente com novos cortes de funcionário, como o banco admitiu) (5). A operação foi finalmente concretizada em janeiro de 1996, com o anúncio do Wells Fargo de que iria adquirir o First Interstate pelo valor de 11,6 bilhões de dólares, um valor recorde na história das fusões bancárias nos Estados Unidos (6).

Ao lado desse crescente processo de fusões, outro fenômeno que manteve o sistema financeiro nas manchetes, no decorrer de 1995, foi um onda de falências e escândalos, a começar pela quebra de um dos mais antigos bancos comerciais da City de Londres, o Barings. De repente, a notícia caiu como bomba nos mercados financeiros: o Barings, instituição mais que centenária, e de cuja solidez ninguém duvidava, agente financeiro da Coroa Britânica, estava quebrando, em virtude de operações nos mercados futuros (derivados), realizadas por sua sucursal de Cingapura. O Banco da Inglaterra interveio e negociou a absorção do Barings pelo banco holandês ING Bank. Mas a falência deixou um rol de dúvidas no mercado. Um relatório divulgado em outubro de 1995 em Cingapura perguntava por que o Banco da Inglaterra apesar de saber de fato, não havia impedido que o Barings excedesse seu limite de exposição legal, afirmando que o colapso do Barings havia sido causado por “incompetência institucional”. Essa foi uma das mais fortes acusações feitas às autoridades encarregadas de fiscalizar a situação dos bancos, abrindo uma discussão sobre se realmente alguém controla as ações dos grandes bancos, em escala internacional. A esse caso veio juntar-se o escândalo do Daiwa Bank, com as mesmas indagações: a habilidade de um operador de sucursal de Nova Iorque em esconder perdas de mais de 1 bilhão de dólares por um período de onze anos punha em questão todos os controles legais a que o banco estava submetido, tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, além de desmoralizar os chamados auditores externos, no caso a firma norte-americana Ernest & Young, que havia auditado o Daiwa e afirmado que a situação estava em ordem.

Em outubro, a revista norte-americana Business Week revelou os detalhes de outro grande escândalo financeiro envolvendo o poderoso Bankers Trust, um dos maiores bancos dos Estados Unidos. A reportagem divulga o conteúdo de uma extensa documentação reunida pela empresa Procter & Gamble e por investigações realizadas por órgãos de justiça norte-americana – cerca de 6.500 fitas gravadas e 300 mil páginas – na qual se demonstrava como o Bankers Trust realizava as chamadas operações com derivativos, auferindo grandes ganhos e provocando enormes prejuízos em seus clientes, entre os quais estava a Procter & Gamble, o monopólio norte-americano do setor de limpeza e higiene pessoal.

Segundo ela, as perdas provocadas pelas operações fraudulentas com derivativos feitas pelo Bankers Trust atingiram mais de 500 milhões de dólares, sendo que a própria Procter & Gamble teria perdido quase 200 milhões de dólares (7).

Operação salva-vidas significa novo comprometimento do Estado com o setor financeiro

Nenhum desses fatos deve causar muita surpresa entre os brasileiros, que assistem a um grande conluio entre o governo FHC e o sistema financeiro. Nesse sentido, as operações salva-vidas montadas no decorrer de 1995 para socorrer os bancos significaram um novo patamar de comprometimentos e envolvimento do Estado brasileiro com o setor financeiro. O governo chegou mesmo a lançar um programa especial, o Programa de Estímulo à Reestruturação e Fortalecimento do Sistema financeiro nacional, o PROER, para financiar e subsidiar operações de fusões e incorporações de bancos. A lógica é a mesma que vigora no centro do capitalismo, ou seja, os grandes bancos jogam um papel tão relevante e estratégico do funcionamento de economia que deve ser feito todo o possível para evitar qualquer turbulência nessa área. E quanto maior o banco maior o perigo de uma queda ser devastadora, segundo o princípio já cunhado pelos anglo-saxões de too big to fail (grande demais para falir), exigindo a intervenção do estado por meio de seus bancos centrais.

Em meados de 1995, já circulavam boatos de que pelo menos três grandes bancos privados estavam em situação ruim: o banco Econômico, o banco Nacional e Bamerindus. Esses boatos estavam acoplados à chamada teoria do dominó, ou seja, a teoria de que, se os três quebrassem poderiam levar de roldão todo o sistema financeiro e, numa reação mais ampla ainda, atingir seriamente o conjunto da economia. Aí reside a força dessas enormes instituições financeiras: com seu poder de interferir no cerne da economia e arrastar, com suas crises, todo mundo com elas. O governo FHC não fez por menos: socorreu a todos que pôde. Lançou o PROER para incentivar e acelerar o processo de fusões e incorporações, tudo em nome da saúde econômica do país. Financiou a incorporação do Nacional pelo Unibanco e do Econômico pelo Excel. Nessas operações ocorreu um fenômeno muito interessante, num país em que no que mais se fala é em privatização e desestatização como sinônimos de modernização. O Banco Central interveio (isto é, interferiu no sagrado princípio neoliberal do livre jogo de mercado), negociou a parte boa dos bancos em crise com aqueles que os incorporaram e ficou com a parte ruim.

Apenas uma fusão de bancos superou a despesa de um ano com as universidades

E ninguém reclamou da intervenção. O Estado absorveu prejuízos de bilhões de dólares. Dados oficiais divulgados indicam que em dois meses de vigência do PROER o Banco Central dispendeu cerca de 5,6 bilhões de reais apenas com a operação Nacional-Unibanco, quantia que superou toda a despesa feita em 1995 com as Universidades Federais, e que é 2,5 vezes maior do que foi liberado pelo plantio da próxima safra agrícola (8). E isso num país em que o sistema financeiro atende a apenas 20% da população (9). Mas o fator que pesa, que define essa ação, como a realidade mostrou, não é nem o livre jogo de mercado, e muito menos o interesse da população, mas o poder da oligarquia financeira em manipular o Estado e colocá-lo a serviço de seus interesses como se fossem interesses de toda a sociedade.

* Economista e jornalista. Foi editor de economia dos semanários Opinião e Movimento e membro do Conselho Federal de Economia em 1987 a 1989.

Notas

(1) “EUA batem recorde de fusões”, Folha de São Paulo, 30-12-1995.
(2) The banker Top 1000, julho/1995.
(3) “More wedding”, The Banker, outubro de 1995.
(4) “Financial disasters”, The economist, 23-12-1995.
(5) “Wells Fargo’s no-invite play”, The Banker, novembro/1995.
(6) “EUA têm maior fusão bancária da história”, Folha de São Paulo. 25-01-1996. No caso, o título da matéria se refere não ao tamanho das instituições envolvidas, mas ao valor da operação, US$ 11,6 bilhões.
(7) “The Bankers”, Business Week, 16-10-1995.
(8) “Fusão custa US$ 5,6 bilhões ao país”, Folha de São Paulo, 20-01-1996.
(9) YOSHINO, Joe Akira. “Uma avaliação dos bancos brasileiros”, Folha de São Paulo, 06-01-1996. Segundo o autor, professor da USP, esse percentual é de 70% nos Estados Unidos, e de 75% na Alemanha.

EDIÇÃO 40, FEV/MAR/ABR, 1996, PÁGINAS 8, 9, 10