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    Internacional

    Como o Ocidente preparou o Terceiro Reich na Alemanha para derrubar a URSS

    Após a Primeira Guerra Mundial, EUA, Reino Unido e França impulsionaram a recuperação da Alemanha para usá-la contra a União Soviética. O financiamento e os acordos internacionais pavimentaram o caminho para o nazismo

    POR: Raul Carrion

    Cena da hiperinflação na Alemanha em 1923, onde pessoas usavam o verso das notas de um milhão de marcos como bloco de notas.
    Cena da hiperinflação na Alemanha em 1923, onde pessoas usavam o verso das notas de um milhão de marcos como bloco de notas. Crédito: Bundesarchiv, Bild 102-00193 / CC-BY-SA 3.0

    A Revolução Russa de 1917, além de dar origem ao primeiro Estado Socialista do mundo, semeou a luta revolucionária e a luta anticolonial em toda parte. As revoluções alemãs de 1918, 1919 e 1923; a insurreição finlandesa de 1918; a criação da República Soviética Húngara em 1919; a greve insurrecional de 1917 em Turim e a greve geral de 1920 em toda a Itália, seguida pela ocupação das fábricas; a revolta da armada francesa no Mar Negro, em 1919; o aumento do movimento grevista na França e na Inglaterra; a criação da Internacional Comunista em 1919; o surgimento de partidos comunistas em todos os continentes; e a crescente simpatia da classe operária e dos povos coloniais pela URSS — tudo isso gerou uma profunda crise no sistema capitalista e causou um grande temor às classes exploradoras de todo o mundo.

    Reerguer a Alemanha e reintegrá-la ao bloco imperialista

    Atemorizadas por essa grave crise — ao mesmo tempo econômica, política e social —, a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos entenderam que havia chegado a hora de se reaproximarem da Alemanha e de reerguê-la, para transformá-la em um aríete contra a União Soviética e em um dique ao movimento operário. Da mesma forma — como examinaremos mais adiante —, deixando de lado quaisquer veleidades democráticas, passaram a apoiar governos ditatoriais e fascistas.

    Expressando essa reorientação, o comandante-em-chefe da Entente na I Guerra Mundial, o marechal Foch, afirmou: 

    Eu não sou louco a ponto de acreditar que se possa deixar um punhado de tiranos criminosos governarem mais da metade de um continente e vastos territórios asiáticos. Mas nada se poderá fazer enquanto a França e a Alemanha não se unirem”.

    E o general Max Hoffmann, comandante do exército alemão nas fronteiras orientais — que já em 1920 havia proposto à Entente que os exércitos alemães marchassem sobre Moscou, para liquidar o bolchevismo no seu nascedouro —, voltou à carga em 1922, defendendo uma aliança entre a Alemanha, a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos para destruir a Rússia Soviética:

    Este problema só pode ser resolvido pela União dos grandes Estados europeus, principalmente a França, a Inglaterra e a Alemanha. É preciso que, por uma intervenção militar, essas potências aliadas derrubem o poder soviético e restabeleçam a situação na Rússia, no interesse das forças econômicas inglesas, francesas e alemãs. A participação financeira e econômica dos EUA seria preciosa.”

    Na França, o Primeiro-Ministro Raymond Poincaré defendia publicamente uma intervenção militar das potências europeias, incluída a Alemanha, na Rússia Soviética 

    Em fins de 1925, inícios de 1926, foi realizada a Conferência de Locarno, que promoveu diversos outros acordos para impulsionar a economia alemã. Em Locarno, os diplomatas franceses e britânicos combinaram com seus homólogos alemães uma ação conjunta contra a Rússia Soviética.

    William Ormsby-Gore, membro do parlamento inglês, relatou: 

    A luta em Locarno […] é a seguinte: considerará a Alemanha o seu futuro ligado ao destino das grandes potências ocidentais, ou irá cooperar com a Rússia na destruição da civilização ocidental? […] no que diz respeito ao atual governo da Alemanha, ele está desligado da Rússia, jogando a sua partida com o mundo ocidental.”

    O passo seguinte foi a admissão da Alemanha, em 1926, na Sociedade das Nações, inclusive – pasmem – no seu Conselho de Segurança. Seguiu-se a retirada das tropas francesas da Renânia e a sua desmilitarização.

    Vista da sala de reuniões da Liga das Nações em Genebra, 1926, onde a Alemanha foi reintegrada ao bloco ocidental. Sete anos depois, em 1933, a Alemanha nazista se retiraria da Liga. Crédito: Bundesarchiv, Bild 102-09042 / CC-BY-SA 3.0

    A unidade de ação que havia acontecido, na prática, entre as “democracias ocidentais” e os militaristas alemães, durante a intervenção estrangeira na Rússia Soviética (1918-1921), serviu de inspiração para a estratégia de reerguimento da Alemanha, para reaproximá-la das potências ocidentais” e transformá-la na “tropa de choque” contra a pátria do socialismo.

    Analisando a política externa da Grã-Bretanha nessa época, o historiador inglês Palme Dutt afirmou:

    Foi julgado essencial reconstruir e armar o imperialismo alemão contra a União Soviética, ao mesmo tempo que se pretendia manter o rival em cheque. […] Chamberlain e Churchill […] representavam as duas metades contraditórias da política externa imperialista britânica, durante este período. De um lado, o desejo de construir […] uma arma apontada contra a União Socialista Soviética. De outro lado, levar a União Soviética a uma aliança militar, como uma arma contra o imperialismo rival da Alemanha. Ambas as estratégias partiam do princípio de que uma […] guerra germano-soviética enfraqueceria e destruiria, simultaneamente, as duas principais potências consideradas pela Inglaterra como ameaças ao seu imperialismo.

    Plano Dawes e Plano Young

    Para viabilizar o reerguimento econômico da Alemanha foi criado, em setembro de 1924, o Plano Dawes – elaborado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Itália e Bélgica –, que amenizou e postergou o pagamento das indenizações alemãs, aprovou a evacuação da região do Ruhr pela França e proporcionou grandes investimentos estadunidenses (70%) e ingleses na Alemanha. Tiveram importante papel no Plano Dawes os monopólios estadunidenses Dupont, Morgan, Rockfeller, Lamont e outros, que financiaram e se associaram à indústria pesada alemã e aos seus consórcios militares.

    Em consequência do Plano Dawes, já em 1926 a produção industrial da Alemanha superou o seu nível de pré-guerra e voltou a ser uma das maiores da Europa, tendo a sua economia passado a crescer de forma mais rápida que a França e o Reino Unido. Sob os olhos complacentes da França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, os gastos militares da Alemanha aumentaram 11 vezes, entre 1924 e 1928, em uma clara transgressão ao Tratato de Versalhes.

    Ficava cada vez mais clara a estratégia de fortalecer a Alemanha, para transformá-la em um aríete contra a URSS.

    Em agosto de 1929, foi aprovado o Plano Young – que deveria substituir o Plano Dawes –, viabilizando o pagamento das indenizações impostas à Alemanha, em condições ainda mais favoráveis. A previsão era ele entrar em vigor em janeiro de 1930, mas a crise de 1929, inviabilizou a sua aplicação e mergulhou a Alemanha em uma terrível crise econômica, que fez o desemprego chegar a 34%, em 1931 e a 40% em 1932, abrindo caminho para a ascensão de Hitler em 1933.

    Conspiração Reilly-Savinkov

    Ao mesmo tempo que trabalhava para reerguer a Alemanha, o ocidente nunca cessou os seus intentos de destruir o Poder Soviético.

    Em meados de 1924, logo após a morte de Lenin – momento considerado propício pelos imperialistas e pelos contrarrevolucionários russos para uma rebelião antissoviética –, foi urdido o Plano Reilly-Savinkov, em que o contrarrevolucionário Bóris Savinkov iniciaria um levante no Cáucaso. Em seguida, a França e a Inglaterra denunciariam o governo soviético e reconheceriam Savinkov como o “ditador da Rússia”. Os exércitos contrarrevolucionários presentes na Iugoslávia e na Romênia ingressariam na Rússia, a Polônia avançaria sobre Kiev e a Finlândia bloquearia Leningrado. O Cáucaso seria separado da Rússia, e seria criada uma Federação Transcaucásica – sob os auspícios da Grã-Bretanha e da França. Obviamente, os poços petrolíferos e oleodutos do Cáucaso retornariam a seus antigos donos estrangeiros, entre eles Henri Deterding, presidente da Royal Dutch Shell, um dos mais ativos membros da conspiração.

    Leia também: Guerra na Ucrânia completa 3 anos com avanço russo e virada nas relações diplomáticas

    Mas, ao entrar na Rússia para liderar o movimento, Savinkov foi detido. E o levante no Cáucaso, deflagrado em 29 de agosto de 1924, foi rapidamente sufocado. No seu julgamento em Moscou, Savinkov confessou detalhes da conspiração e denunciou as autoridades francesas e inglesas envolvidas na conspiração.

    Conspiração do “Partido Industrial”

    Outras conspirações com apoio estrangeiras foram urdidas, mas merece um destaque especial a conspiração do “Partido Industrial” (1928-1930), que teria a participação militar da Romênia, Polônia, Alemanha, França e Grã-Bretanha. Desacordos entre os países interventores quanto às suas esferas de influência acabaram adiando a operação, inicialmente prevista para 1929.

    Em julho de 1930, Deterding, presidente da Schell, anunciou em uma reunião com filhos de oficiais contrarrevolucionários e aristocratas russos: 

    A esperança da próxima libertação da Rússia […] cresce e se robustece dia a dia. A hora da emancipação de vossa grande pátria está próxima. […] A libertação da Rússia far-se-á muito mais cedo do que pensamos. É mesmo coisa de poucos meses.

    Porém, em outubro de 1930, os órgãos de segurança da URSS desbarataram a conspiração e prenderam os principais líderes do “Partido Industrial”. No seu julgamento na Suprema Côrte Soviética. entre 25 de novembro e 7 de dezembro de 1930, diante das robustas provas apresentadas, os acusados confessaram a sua culpa, implicando na organização da conspiração Henri Deterdingo presidente da Schell, Raymond Poincaré, Primeiro-Ministro da França, Leslie Urquhart, empresário, presidente da “Associação dos Credores Britânicos da Rússia”, o Coronel Joinville, indicado pelo Estado-Maior francês para comandar as tropas interventoras, e outros agentes do imperialismo.

    Aposta da grande burguesia nos movimentos e partidos fascistas

    Ao mesmo tempo que tratavam de reerguer econômica e militarmente a Alemanha – para lançá-la contra a URSS – e organizavam todo o tipo de conspirações contra o poder soviético, a grande burguesia mundial passou a observar com grande simpatia os movimentos e partidos fascistas que surgiram em diversos países e que defendiam o combate ao “bolchevismo” e a destruição da URSS.

    O primeiro desses movimentos foi o “Fasci italiani di combattimento”, liderado por Benito Mussolini.

    Mas, isso será tema do próximo artigo desta série sobre os 80 anos da derrota do nazi-fascimo.

    Leia os artigos de Raul Carrion já publicados para marcar os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial

    Raul Carrion é historiador e militante do PCdoB há 55 anos. Atualmente, é membro da Comissão Política do PCdoB-RS, da Secretaria Nacional de Relações Internacionais e da Escola Nacional João Amazonas. Foi presidente da FMG-RS entre 2013 e 2023. 

    Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial dFMG.

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