A ecocivilização como modelo de desenvolvimento socioeconômico (Parte 2) – Em 2021, tive a oportunidade de conversar com o amigo e sinólogo brasileiro Elias Jabbour sobre a concepção de ecocivilização e como ela se insere nas políticas de Estado na China (Jabbour & Bertotti, 2021). Segundo Jabbour, a ecocivilização é uma premissa da concepção de socialismo adotada pelo Estado chinês e parte necessária da sua implementação, uma vez que o planejamento de uma economia comprometida com desenvolvimento sustentável não partirá dos interesses do chamado livre mercado.
Como exemplo, podemos citar o processo de mudança da matriz energética na China (Grinsztejn et al., 2021). Esse processo absorve um volume de recursos e um tempo de investimento que só podem ser suportados pelo Estado, além de demandar inovações tecnológicas que transitam na fronteira do conhecimento, historicamente financiadas pelos Estados nacionais e não pela iniciativa privada (Mazzucato, 2011).
Na cultura milenar chinesa, ser humano e natureza são uma coisa só. Nesse sentido, a ecocivilização é uma reconexão do homem com a natureza. Entretanto, existem obstáculos iminentes que desafiam a implementação desse conceito, pois, em que pese a liderança da China nos investimentos em energias renováveis em 2022, a queima do carvão representou 61% da sua matriz energética (IEA, 2022). Como consequência, as emissões de dióxido de enxofre de origem industrial foram responsáveis por 52,83% dos gastos governamentais com saúde, indicando que a poluição do ar foi um dos principais fatores que afetam os gastos governamentais com saúde (Xia et al., 2022).
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Para superar os obstáculos e responder aos desafios, é preciso solucionar a tensão entre crescimento econômico acelerado baseado em energia barata, como é o caso do carvão, versus crescimento econômico com equilíbrio ambiental para melhoria das condições de saúde da população, representado pelos investimentos em energia limpa. Para tanto, é necessário pensar uma nova concepção de desenvolvimento econômico.
A alternativa do modelo de socialismo chinês é uma resposta a esse dilema, considerando os princípios da “Nova Economia de Projetamento” (Jabbour et al., 2020). Pois, enquanto no mundo capitalista o apetite por investimentos em energia renovável recua diante da mudança de rumo do governo americano depois da eleição de Donald Trump, a China se impõe a tarefa de gerar anualmente pelo menos 13 milhões de novos empregos direcionados para áreas estratégicas, dentre elas o setor de energia renovável. Considerando que este setor alcança 10% do PIB chinês, boa parte desses empregos estará comprometida com o desenvolvimento sustentável.

Passageiros aguardam para embarcar num trem de alta velocidade na cidade de Zaozhuang, província de Shandong, no leste da China, em 22/02/2025. Foto: Li Zongxian/Xinhua.
Outro exemplo é o setor de transporte de massas, que atingiu a marca de 40.000 km de trilhos de trens de alta velocidade em 20 anos. Este é um exemplo de como a China tem direcionado seu sistema de inovação tecnológica para enfrentar problemas econômicos relevantes com o objetivo de gerar valor de uso para os bens necessários para mover os setores ditos improdutivos, mas essenciais para a qualidade de vida da população e o desenvolvimento do Estado, incluindo saúde, educação, conservação do meio ambiente etc.
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Esses investimentos direcionados pelo Estado são parte de um planejamento econômico consistente e sistemático, assentado em decisões políticas e condições institucionais construídas ao longo dos anos. São parte de um projeto socialista de sociedade conduzido historicamente pelo Estado chinês. Nas palavras de Rodrik (2020), ao analisar o caso concreto de enfrentamento da pandemia de Covid pela China, ele afirma:
“Devemos reconhecer que um modelo econômico misto, conduzido pelo Estado, sempre esteve na raiz do sucesso econômico chinês. Se metade do milagre econômico da China reflete sua virada para os mercados após o final dos anos 1970, a outra metade é o resultado de políticas governamentais ativas que protegeram antigas estruturas econômicas – como empresas estatais – enquanto novas indústrias foram geradas por meio de uma ampla gama de políticas industriais.”
Trazendo a discussão para o caso do Brasil, penso que podemos extrair lições. Atualmente, o Brasil não consegue planificar sua economia pelas necessidades internas, como a resolução de gargalos de nossa infraestrutura de portos, estradas e ferrovias, ou do inchaço de nossas cidades assoladas pela baixa qualidade de serviços de transporte e saneamento, além do imenso quantitativo de habitações consideradas subnormais, nossas favelas.
No Brasil, ainda estamos pautados pelos preços das commodities definidas nas bolsas de valores no exterior. Nesse sentido, a aquisição de terras foi um dos ativos mais rentáveis no Brasil no período 2019-2024 (Scot Consultoria, 2025). Enquanto isso, a taxa de juros interna torna proibitivos os investimentos no setor industrial e inviabiliza os grandes projetos de infraestrutura, pois a aplicação no mercado financeiro se torna mais rentável, embora totalmente improdutiva, o que acentua a taxa da exploração da população trabalhadora. No dito mercado financeiro, quem financia essa rentabilidade é o Estado brasileiro, e os beneficiários das aplicações em títulos do Tesouro recebem remunerações que são reaplicadas nos mesmos títulos, contribuindo para o congelamento desses ativos, consequentemente causando represamento da capacidade de investimento produtivo e, como consequência, tornando o Brasil o país com maior concentração de renda do planeta, segundo relatório do Global Wealth Report de 2023 (IHU, 2023).
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Dessa forma, por mais que esteja presente, de forma difusa, a sensação de que o meio ambiente é essencial, na prática, na vida dos cidadãos, ainda parece haver necessidades mais urgentes para a manutenção da qualidade de vida. Ainda prevalece a compreensão de que desenvolvimento econômico é incompatível com a preservação do meio ambiente. Falta uma política realista de desenvolvimento sustentável que aplique a tecnologia à solução de problemas estruturais, gere renda e empregos, e melhore a qualidade de vida das pessoas. Falta a compreensão de que, no Brasil, investir em saneamento básico, acesso ao esgotamento sanitário, água limpa e potável é investir em desenvolvimento sustentável, é proteger o meio ambiente e, simultaneamente, melhorar a qualidade de vida das pessoas. O mesmo raciocínio vale para o sistema de transporte e para o planejamento urbano.
No entanto, isso só se tornará política de Estado quando nossa nação não for regida pela busca da acumulação privada de bens, não for marcada cada vez mais pela concentração de riqueza. Para que isso mude, urge a necessidade de formas políticas que garantam a representação dos interesses do povo e formas econômicas de produção baseadas no bem comum, na distribuição de renda e de oportunidades, e não na manutenção de pequenas castas cada vez mais indiferentes aos problemas da humanidade.
Este artigo é a continuação de uma reflexão iniciada em Ecocivilização: como a China equilibra desenvolvimento e proteção ambiental, onde são apresentadas as bases do conceito e as ações que vêm transformando o país em referência na agenda climática.
Referências
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O Dilema da China: Entre a liderança na transição energética e a dependência do carvão — Grinsztejn, C., Rodriguez, M. E., Estill, G. Centro de Estudos e Pesquisas BRICS, PUC/RJ. BPC Policy Brief V.11 N.9, out-nov/2021. Acessado em 29.03.2025.
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Brasil teve a maior concentração de renda do mundo em 2022 — Instituto Humanitas Unisinos.
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Valorização do mercado de terras no Brasil — Scot Consultoria.
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China – International Energy Agency (IEA) — Dados e estatísticas energéticas da China.
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Ecocivilização Socialista na China — Jabbour, E. & Bertotti, J. A. Entrevista no YouTube.
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(Nova) Economia do Projetamento: o conceito e suas novas determinações na China de hoje — Jabbour, E. M. K., Dantas, A. T., Espíndola, C. J., Vellozo, J. A. Geosul, v. 35, n. 77 (2020).
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Mazzucato, Mariana. O Estado Empreendedor. Companhia das Letras, 2011.
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China as Economic Bogeyman — Rodrik, D. The ASEAN Post, 10/07/2020.
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Os efeitos de superposição da poluição do ar nos gastos governamentais com saúde na China — evidências espaciais do GeoDetector — Xia, Q., Zhang, X., Hu, Y. et al. BMC Public Health, 22, 1411 (2022).
José Bertotti, é professor e pesquisador em inovação do Instituto de Pesquisa em Petróleo e Energia, da UFPE e sócio-fundador do Instituto Toró, Clima, Tecnologia e Cultura. Foi secretário de estado em Pernambuco nas pastas de Meio Ambiente e Sustentabilidade; e de Ciência e Tecnologia. É membro da direção estadual do Partido Comunista do Brasil em Pernambuco e um dos coordenadores do GP Transformação Ecológica e Diversificação Energética da Fundação Maurício Grabois.
Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.