Na coluna desta semana, abordo a nova economia do projetamento, minha linha de pesquisa que tem se consagrado nos últimos anos. Ouso dizer que é uma teoria do socialismo para o século XXI, partindo, evidentemente, da experiência chinesa, que é a mais avançada.
Desde o primeiro artigo Considerações iniciais sobre a “nova economia do projetamento” publicado em 2020, avançamos muito. Existem duas edições da revista Princípios sobre a nova economia de projetamento. Fiz apresentações e escrevi artigos na China sobre este tema e meu próximo livro, que será lançado em breve, é basicamente sobre como essa nova economia funciona no país.
Confira as edições:
Princípios 171: China e nova economia do projetamento
Princípios 172: Socialismo e nova economia do projetamento
Passei quase dois anos pesquisando in loco, em fábricas e empresas, viajando o país inteiro e pude chegar a uma nova síntese sobre a questão. É uma teoria que se consolida no campo daqueles que buscam compreender o que é o socialismo do século XXI.
Tenho muito orgulho dessa trajetória, iniciada com Alberto Gabriele, Alexis Dantas, Carlos José Espíndola e Javier Vadell, um grupo que está operando elaborações sobre a nova economia do projetamento. Mas por que é nova, e por que é projetamento?
O que é a economia do projetamento
Ignácio Rangel, que considero o pensador brasileiro mais destacado e mais completo – talvez o marxista mais capaz que a América Latina produziu – interessava-se pelas grandes questões envolvendo o capitalismo e o socialismo. Em 1956, ele lançou o livro Desenvolvimento e Projeto, no qual tratava da emergência de uma economia de projetos, que deveria constituir-se enquanto uma ciência. Em 1959, publicou sua principal obra, do meu ponto de vista: Elementos de economia do projetamento.
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Este é um livro de economia que tem como objeto um sistema empresarial fora do sistema de preços. Claramente, Rangel estava analisando a economia mais avançada baseada em projetos da época da União Soviética e também da reconstrução europeia, ambos marcos fundamentais da economia do projetamento.
Em tese, o projetamento é algo intermediário ao plano, embora hoje, para nós, ele represente um salto qualitativo em relação ao planejamento. Ele é a expressão máxima da capacidade humana de construir o seu destino a seu bel-prazer, respeitando as leis da natureza e da sociedade.
Economias baseadas em projetos existiam dos dois lados da Cortina de Ferro: na União Soviética, pela socialização dos meios de produção, e na Europa Ocidental, pela utilização da socialização de investimento e do princípio da demanda efetiva, como forma de domar o ciclo econômico.
Para entender o projetamento, Rangel parte da relação entre duas categorias fundamentais de projetamento: custo e benefício – e a razão como denominador comum dessa relação. O objetivo já não é a maximização do lucro ou o interesse empresarial. Colocando a razão como denominador comum para definir a relação custo-benefício, muda-se completamente o paradigma econômico. Se antes o objetivo era a maximização da utilidade ou do lucro, na economia do projetamento o objetivo passa a ser o bem-estar da sociedade. Rangel transforma em ciência a construção de uma sociedade orientada para o bem-estar comum.
Micro e macroeconomia: a fusão como lei do socialismo chinês
Em Elementos de economia do projetamento (Universidade de Bahia, 1959), Rangel aponta que o projetamento é parte de um movimento de renovação da economia, onde a dicotomia entre microeconomia e macroeconomia deixa de existir. Isso ocorre porque a economia do empresário (microeconomia) subordina-se lentamente à macroeconomia – a economia do Estado, do bem geral da sociedade. Uma fusão entre micro e macroeconomia existe na economia de projetamento. Isso explica a capacidade dos países socialistas e, em particular da China, de construir grandes projetos de forma muito rápida, onde as estruturas de oferta e demanda das cadeias produtivas envolvidas se equalizam ao longo do tempo, algo impossível sob o capitalismo.
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Rangel aponta que nessa economia onde a microeconomia é superada pela macroeconomia, o papel dos profissionais envolvidos na elaboração de projetos é o de circunscrever o desemprego enquanto uma circunstância restrita ao capitalismo. Em uma economia de projetamento, os homens e mulheres envolvidos na elaboração e escolha de projetos precisam ter em mente que o desemprego não pode ser uma característica daquela sociedade. Se um projeto for gerar desemprego estrutural, ele deverá ser postergado até que possa ser implementado de outra forma.
Planejamento, emprego e racionalidade social na China
A China, por exemplo, emprega uma massa de pessoas que trabalham com planejamento e elaboração de projetos que pensam apenas nisso: como gerar 13 milhões de empregos urbanos por ano. Nos últimos 10 anos, o país tirou 200 milhões de pessoas do campo e as colocou na cidade, gerando 130 milhões de empregos urbanos. É um grau de racionalidade e de inteligência coletiva aplicada para esse fim, que eu ainda não consigo aferir.
O fato é que a China se urbanizou sem os males do processo capitalista, como a favelização, conseguindo gerar 13 milhões de empregos urbanos por ano. Para isso, é necessário um grupo de pessoas capazes de observar constantemente e just in time quais são os pontos de estrangulamento da economia, como desatá-los, e quais mudanças institucionais devem ser elaboradas para essa finalidade.
Essas economias baseadas em grandes projetos existiram com muita força até o final da União Soviética. Rangel afirma que o projetamento é produto de três circunstâncias históricas:
- a Revolução Russa – quando o planejamento econômico se tornou instrumento de governo e se proliferou mundo afora;
- o surgimento do capital financeiro com economias baseadas no crédito; e
- o consenso keynesiano – período pós-Segunda Guerra Mundial em que as ideias de John Maynard Keynes (1883-1946), defendendo a intervenção ativa do Estado na economia para estabilizar os ciclos e garantir pleno emprego, dominaram a política econômica no Ocidente.
No entanto, o que Rangel escreveu em 1959 acaba com a financeirização e o ressurgimento do keynesianismo militarizado – originado na Alemanha nazista de Adolf Hitler – antecede o consenso keyneseano baseado no estado de bem-estar social como uma resposta à ascensão do socialismo. Mas tudo isso acaba com o final da União Soviética.
A história da microeconomia se submetendo à macroeconomia acaba; a dinâmica de acumulação dominante passa a ser aquela baseada na finança, subordinando a produção e a sociedade aos seus interesses. As economias, principalmente a dos Estados Unidos, são cada vez mais orientadas à guerra. A impressão, para quem leu o Rangel nos anos 1990, era de que sua proposta havia terminado.
Em 2018, passei por problemas de ordem pessoal e profissional muito profundos. A forma que encontrei para superar esse momento muito difícil da minha vida foi de me entregar completamente à elaboração teórica. Passei a ter hiperfoco na construção de um pensamento particular sobre a China. Isso se inicia a partir da ideia, hoje já popularizada, de que a China, a partir de 1978, se constituiu como a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais.
Eu e meu parceiro e amigo falecido, Alberto Gabriele, criamos essa ideia e popularizamos essa ideia nos 45 mil exemplares vendidos do livro China: o socialismo do século XXI. Colocamos uma cunha no debate ao afirmarmos que a China é uma nova formação econômica e social, desafiando todas as elaborações reinantes: capitalismo de estado, capitalismo liberal ou ou interpretações marxistas que absorvem a ideia de fim da história.
Porém, falar que a China é uma nova formação econômica e social não era suficiente, nós precisávamos preencher uma caixa vazia dessa nova elaboração. Percebemos que, a partir de 1978, uma dinâmica que se consolidava, tornando-se uma lei objetiva do desenvolvimento socialista chinês, na qual o setor público da economia se transformava cada vez mais qualitativamente.
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Surgiram os conglomerados empresariais públicos em 1994 e um imenso sistema financeiro público na China orientado ao crédito, significando o surgimento de uma economia monetária de produção: a China com capacidade de gerir grandes pacotes fiscais. Surge, então, uma economia socialista moderna baseada na propriedade pública dos meios de produção e finanças. Ao lado desse salto qualitativo do Estado também surgem empresas privadas. A maior parte das empresas chinesas são privadas, o que não significa que elas dêem o tom do desenvolvimento do país, mas são beneficiárias dos ciclos de acumulação que surgem no setor público da economia.
Crise global e o salto do papel do Estado
Nesse processo de reconstrução pessoal passei a estudar de forma muito detida tanto os planos quinquenais chineses quanto os ciclos de inovações institucionais, e cheguei à conclusão de que o Estado aumentou seu alcance qualitativo e o setor privado o alcance quantitativo. Estudando a crise financeira de 2007-2009 e a reação da China, fiquei assustado.
Houve uma intervenção em massa do Estado na economia, a partir de um pacote fiscal de 600 milhões de dólares, executando simultaneamente dezenas de programas de aceleração do crescimento. Analisar aquilo me levou a concluir que as relações do ser humano com a natureza atingiram um patamar superior na China. A partir da mudança da realidade, novas teorias, categorias e conceitos devem aparecer para dar conta da totalidade.
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Na minha cabeça, a China se transformou em um desafio teórico gigantesco devido a essa mudança de qualidade, que se expressa numa elevação da capacidade humana de intervir na realidade. As teorias antigas, no máximo, entregam o particular, não mais o universal.
O mestre Márcio Henrique Monteiro de Castro, que foi estagiário de Rangel e é um dos maiores economistas brasileiros vivos, vinha me dizendo: “Elias, leia Elementos de economia de projetamento“. Quando passei a entender Rangel, cheguei à conclusão de que talvez esteja emergindo na China uma nova economia de projetamento, nova porque possui outras características.
Na China, opera-se uma fusão da micro e macroeconomia. À medida que o setor privado chinês vai se tornando um setor não público, e os bilionários são obrigados a se reportar cada vez mais ao Partido Comunista, o setor privado é obrigado a se adequar aos planos quinquenais. A economia de projetamento visa uma economia orientada ao aumento da utilidade per capita, ou seja, ao aumento do bem-estar per capita e para isso o setor empresarial privado vai ter que se adaptar a uma nova realidade.
Inovação tecnológica e nova capacidade de planificação
Descobri que, no 11º Plano Quinquenal, surge um sistema nacional de inovação tecnológica com um ecossistema que gera inovações tecnológicas disruptivas, como 5G, Big Data, inteligência artificial e o computador quântico. O Estado se apropria dessas inovações disruptivas e não as aplica apenas para fins de elevação da produtividade, mas sim para fins de elevação da capacidade de planificação do país. Uma outra particularidade que surge nos últimos 45 anos na China é o aumento da capacidade de previsão da economia e novas e superiores formas de planificação econômica.
Quando leio o Rangel e sua menção à relação custo-benefício e à razão como denominador comum, encontro ali uma chave teórica muito grande a ser desenvolvida. Existe um Partido Comunista que orienta a ação desse Estado, a partir das demandas da sociedade, demandas da base do partido, que pressionam o Estado para fins de mudança qualitativa.
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Quando observo a utilização em larga escala de inovações tecnológicas disruptivas para gerar 13 milhões de empregos urbanos por ano; para o ordenamento territorial, retirando 200 milhões de pessoas do campo e colocando-as na cidade em 10 anos; e o surgimento de complexos urbanos altamente inteligentes, as smart cities de Shenzhen, Xangai e Pequim, chego à conclusão de que renasce na China uma nova economia de projetamento. A China consegue crescer, inovar e dar saltos porque construiu mecanismos, estabelecendo uma sociedade de projetamento e um governo baseado na ciência. O poder político do socialismo na China se manifesta a partir da transformação da razão aristotélica rangeliana em instrumentos de governo e essa nova economia de projetamento é caracterizada por algumas regularidades:
- Superação da incerteza Keynesiana: A China está em vias de superar a incerteza keynesiana que afeta as economias ocidentais. Isso é possível porque ela possui uma base pública na produção e na finança que permite maior previsibilidade e maior utilização de mecanismos institucionais para enfrentar o ciclo econômico.
- Destruição criativa: conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter (1883-1950), que é a troca do velho pelo novo em termos tecnológicos. A China consegue planejar essa destruição criativa, combinando o ordenamento populacional/territorial com avanços tecnológicos.
- Fusão de planejamento e mercado: A dicotomia entre micro e macroeconomia é superada, e o planejamento e o mercado se fundem. O projetamento restringe absurdamente a ação da lei do valor, pois pauta diversas cadeias produtivas de forma simultânea, o que é impossível no capitalismo.
- Introdução consciente de contradições na economia: O projetamento é um nível avançado de desenvolvimento da sociedade e de sua governança que permite ao Estado introduzir mecanismos de contradição no seio econômico. Ao introduzir conscientemente esses elementos, gera-se um movimento: a sociedade precisa correr atrás para solucionar aquela contradição, que pode ser uma inovação tecnológica.
Assista na íntegra o programa Meia Noite em Pequim:
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 10/12/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.