Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Internacional

    O que está acontecendo no Irã: manipulações externas e contradições internas

    Objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos

    POR: Ana Prestes

    7 min de leitura

    A população da província de Ahvaz condenou os distúrbios causados pelos manifestantes armados com uma presença unificada nas ruas. Foto: Morteza Yaghouti / Tasnim News Agency
    A população da província de Ahvaz condenou os distúrbios causados pelos manifestantes armados com uma presença unificada nas ruas. Foto: Morteza Yaghouti / Tasnim News Agency

    O Irã sempre foi um ponto sensível da geopolítica, mas nas últimas semanas a situação ficou mais mediatizada devido a uma onda de protestos. O problema é que a narrativa vendida pela mídia internacional é simples demais: de um lado, um povo oprimido e, do outro, um regime opressor prestes a cair. No entanto, a realidade é muito mais complexa e para entendê-la, precisamos olhar para dentro do país, mas também para a ingerência externa sofrida pelo Irã.

    Como em qualquer lugar, no Irã existem causas populares legítimas, dificuldades econômicas, tensões sociais, geracionais e culturais. Há grupos de oposição que não aceitam a condução do governo islâmico — um modelo de Estado regido por religiosos que é muito diferente da nossa experiência de Estado laico no Brasil. Portanto não se pode negar que há motivos para manifestações e protestos. Contudo, a existência dessas contradições internas não nos isenta de analisar as manipulações externas que estão sendo feitas sobre essas contradições.

    O Irã tem uma história marcada pela interferência direta de potências ocidentais. Em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido organizaram um golpe de Estado para controlar o petróleo iraniano. Desde então o Irã vive sob uma pressão constante. Após a Revolução Islâmica na década de 1970, a situação se intensificou, com sanções, sabotagem, guerra informacional e ações militares justificadas por uma suposta “defesa da democracia”. Hoje, os Estados Unidos aplicam ao Irã uma das políticas de sanções mais duras do planeta, que afeta diretamente a vida da população, causando falta de medicamentos, desemprego e alto custo de vida.

    + ‘Captura’: um eufemismo dos sabujos contra a soberania da Venezuela

    Todo esse sofrimento causa uma situação de comoção interna, mas ele é produzido justamente para atuar dessa forma. A partir do exterior são criados elementos para gerar uma crise social e estimular revoltas internas, fatores que caracterizam as chamadas guerras híbridas. Observo também uma atuação coordenada entre meios de comunicação e plataformas digitais, onde certos discursos políticos cuidadosamente selecionados são exaltados e outros silenciados de forma proposital. Amplificar algumas vozes e silenciar outras não tem nada a ver com solidariedade internacional, mas com interferência política, ingerência e tentativa de dominação.

    Embora os protestos sejam mostrados como homogêneos, como se fossem representativos de toda a população do país, a sociedade iraniana é plural e possui projetos políticos divergentes internamente, o que ficou demonstrado pelas recentes manifestações massivas em apoio ao governo. Fica claro que o objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos. Esse roteiro já foi aplicado na Líbia, Síria, Iraque e Venezuela.

    Defendo a soberania do Irã, o que não significa concordar com todas as decisões do seu governo – existem também críticas a ele. Mas a história nos mostra que nenhum povo se libertou através de bombardeios ou tutelas imperiais. Se forem existir mudanças dentro do Irã, elas devem partir da própria dinâmica da sociedade iraniana, sem interferências externas, chantagens econômicas ou sanções.

    + O confisco do petróleo venezuelano e o exercício do mercantilismo trumpista

    Sempre que os Estados Unidos se apresentam como defensores da democracia, o resultado recorrente é o caos, destruição, perda de soberania. Chamo a atenção também para o oportunismo da antiga monarquia Pahlevi, derrubada em 1979 pela Revolução Islâmica, cujos descendentes tentam se apresentar como uma alternativa democrática para o Irã.

    Os herdeiros estão se aproveitando do sofrimento social do povo iraniano e do desgaste interno gerado pelos protestos para se posicionarem politicamente, sendo que seu principal representante vive nos Estados Unidos há décadas. Estão recebendo espaço privilegiado na mídia ocidental, sendo tratados como lideranças naturais, que obviamente não são.

    Esse regime monárquico foi submisso aos interesses dos Estados Unidos e de outras potências do Ocidente, marcado por repressão política, tortura sistemática, perseguição a opositores e extrema concentração de riqueza. Não havia democracia, soberania, nem direitos para as mulheres. Washington apoia o retorno da família Pahlevi com o objetivo de promover novamente uma dependência colonial do Irã em relação aos Estados Unidos.

    + Quando a história parece não ter fim: a esquerda no século XXI

    Eles não falam de soberania nacional, nem do fim das sanções, mas acenam com um alinhamento ao Ocidente. Aparecem em fotos com o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com membros do governo dos Estados Unidos. Falam em abertura do país aos mesmos interesses que o exploraram no passado. Não há nada de progressista na restauração de uma monarquia que governou o Irã de forma ditatorial.

    Concluo reforçando que o Irã não enfrenta apenas uma crise interna, mas é alvo de uma guerra econômica, midiática e militar. Lamento profundamente as perdas humanas nos protestos, mas é preciso entender realmente em que circunstâncias essas mortes ocorreram e questionar os números sem consistência divulgados pela mídia para gerar comoção e uma pretensa solidariedade ao povo iraniano, quando isso pode estar sendo um grande disfarce para uma tentativa de intervenção.

    Na dimensão econômica, as sanções impostas pelos Estados Unidos funcionam como um cerco  que estrangula o comércio, bloqueia transações financeiras, dificulta a importação de alimentos e medicamentos para provocar essa instabilidade social.

    Na dimensão militar, o Irã convive com bases estrangeiras ao seu redor e sofre ameaças constantes e ataques indiretos inclusive do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos. Ataques a instalações de enriquecimento de urânio, operações clandestinas, assassinatos seletivos de físicos, químicos, cientistas e inclusive o assassinato, em janeiro de 2020, do comandante das Forças Armadas do Irã, Qasem Soleimani.

    Há um estado de guerra, embora não seja uma guerra declarada. É nesse contexto que estão acontecendo esses protestos. Ignorar essa guerra múltipla é distorcer completamente a realidade. São setores externos que estão falando de crise de legitimidade no Irã, ocultando o papel que eles mesmos desempenham na produção dessa crise.  É óbvio que não se trata apenas de conflitos internos, é um país que está sob risco de intervenção.

    Assista à análise de Ana Prestes no Conexão Sul Global

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 14/01/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo. 

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

    Notícias Relacionadas