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    América Latina

    A Europa precisará da carne do Mercosul

    A exportação de carne bovina do Brasil para a UE, em 2025, atingiu um volume recorde: cerca de 128 mil toneladas e um bilhão de dólares. Espera-se um aumento de cerca de 20% nas exportações de carnes de suínos e aves e de 5% na carne bovina nos próximos anos

    POR: Evaristo de Miranda

    7 min de leitura

    No mês anterior à entrada em vigor do tarifaço dos Estados Unidos, as exportações brasileiras de carne bovina bateram recorde. Em julho, foram embarcadas 313.682 toneladas, crescimento de 15,6% em relação a junho e de 17,2% na comparação com julho de 2024. Foto: Arquivo / Agência Brasil
    No mês anterior à entrada em vigor do tarifaço dos Estados Unidos, as exportações brasileiras de carne bovina bateram recorde. Em julho, foram embarcadas 313.682 toneladas, crescimento de 15,6% em relação a junho e de 17,2% na comparação com julho de 2024. Foto: Arquivo / Agência Brasil

    Pecuaristas e produtores de carnes de frango e suíno na França, Irlanda, Polônia e Itália lideraram os protestos contra a assinatura do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia (UE). Têm suas razões. Com a assinatura do Acordo, em 17 de janeiro no Paraguai, haverá um impacto positivo para o setor brasileiro de carnes. E uma certa depleção na Europa.

    Espera-se um aumento de cerca de 20% nas exportações de carnes de suínos e aves e de 5% na carne bovina nos próximos anos em direção à UE, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

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    Em 2025, o Brasil exportou um recorde histórico de 3,5 milhões de toneladas de carne bovina para 170 países. Um crescimento de 20,9% em relação a 2024. O faturamento foi 18 bilhões de dólares, um avanço de 40%, resultado do aumento de volumes, preços mais altos e ampliação de destinos.

    A China foi o principal destino mundial da carne bovina brasileira em 2025: 48% do volume total, 1,68 milhão de toneladas e quase 8,9 bilhões de dólares. Os Estados Unidos ocuparam a segunda e distante posição com 272 mil toneladas e 1,6 bilhão de dólares. Na sequência dos importadores de carne bovina brasileira vieram Chile, UE, Rússia e México. As exportações para Argélia, Egito e Emirados Árabes Unidos também avançaram. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), 46 empresas do setor e 163 plantas frigoríficas no país, esses números indicam espaço para ganhos adicionais em regiões com demanda crescente por proteína animal e menor saturação comercial.

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    A UE enfrenta um cenário deficitário no rebanho bovino. A tendência é de aumento nas importações no curto prazo. Cerca de 25% do seu mercado é atendido pelo Mercosul e, também, importa do Reino Unido e outros países. As importações aumentam para compensar a queda constante da produção europeia de carne bovina. A produção interna na UE em 2025 foi da ordem 6,6 milhões de toneladas, um declínio em relação a 2024. Em 2025, a produção interna de carne bovina no Brasil atingiu 12,5 milhões de toneladas, praticamente o dobro da UE. O país consolidou-se como o maior produtor mundial e superou os Estados Unidos.

    A pecuária enfrenta muitos desafios na UE. Desde 2010, em média, 27 fazendas desaparecem por dia na França. Entre 2020 e 2023, foram cerca de 40 mil fazendas. As pequenas propriedades rurais, inferiores a 20 hectares, estão a sumir da paisagem francesa. Em 10 anos caíram de 43% para 38% no conjunto dos imóveis rurais. O país passou de 1.588.000 propriedades rurais em 1970 para 390 mil em 2020. Hoje, está com 349 mil imóveis rurais, segundo o Ministério da Agricultura da França.

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    Entre 1988 e 2020, 90% dos departamentos franceses perderam mais da metade das propriedades. A superfície explorada segue quase a mesma: 28 milhões de hectares (redução inferior a 2%). Cresce o reagrupamento de propriedades e a concentração das terras. O setor mais afetado é a pecuária: metade das falências rurais. Das 64 mil fazendas desaparecidas entre 2010 e 2020, 33 mil eram de bovinos. No uso das terras, pela primeira vez, a área de pastos foi superada, pela de cereais e tubérculos.

    A exportação de carne bovina do Brasil para a UE, em 2025, atingiu um volume recorde: cerca de 128 mil toneladas e um bilhão de dólares. Foi, dos principais destinos, o de maior crescimento em relação a 2024, cerca de 110%. A Rússia, com cerca de 126 mil toneladas, representa um mercado quase equivalente ao da UE e pode crescer. E a exportação para o Chile é superior à destinada a UE (136 mil toneladas e 755 milhões de dólares).

    No Acordo UE – Mercosul, para a carne bovina foi definida uma cota de 99 mil toneladas de carcaça (55% de carne resfriada e 45% congelada). De imediato, a Cota Hilton (volume limite de exportação de 10 mil toneladas) terá a tarifa reduzida de 20% para zero com o Acordo. A carne bovina adicionará mais de meio bilhão de dólares à balança comercial do Brasil nos próximos anos, mesmo com a Argentina no mercado e no Acordo.

    Para o Ipea, o valor da produção da carne bovina no Brasil deve crescer 1% com o Acordo. Na UE prevê retração de 1,5%. O Brasil ganhará mais com a valorização nas transações e menos com aumento dos volumes exportados. O grande avanço com o Acordo ocorrerá nas carnes de frango e suína. Seu adicional poderá ultrapassar 2,5 bilhões de dólares, por ganhos em volume. O Acordo firmou uma cota de 180 mil toneladas (50% cortes com osso e 50% desossados) isentas de tarifa, a ser efetivado em seis anos.

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    O consumo de carne de frango cresce na Europa: 25 kg por habitante/ano em 2025, contra 47 kg no Brasil. O consumo anual da UE é de 12 milhões de toneladas. A maior parte da carne de frango consumida na UE provem da produção interna. Seis países detêm quase três quartos da produção total do bloco. Polônia e Itália lideram com crescimento significativo na produção. Outros grandes produtores são Alemanha, Espanha, França e Países Baixos. A produção europeia enfrenta problemas sanitários crônicos (gripe aviária), o alto custo de mão de obra, rações e insumos. O Brasil segue como o principal fornecedor externo da carne de frango à União Europeia. Apesar dos desafios regulatórios e da concorrência interna do bloco, o Brasil é competitivo e um fornecedor estratégico, além de estar isento de gripe aviária.

    Na carne suína, o impacto do Acordo será menor. A Europa é um dos maiores produtores e exportadores globais da proteína de porco, com destaque para a Espanha e Alemanha. Algum ganho ocorrerá com o aumento da demanda.

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    A pecuária da Europa conseguiu “inventar” a doença da vaca louca por erros na nutrição de bovinos. Enfrenta a grave dermatose nodular contagiosa com abate sistemático de bovinos, o ressurgimento da peste suína africana nos porcos domésticos e com forte pressão sobre os javalis. Não consegue debelar a epidemia de gripe aviária em suas granjas. E os criadores europeus ousam denunciar as más condições sanitárias da carne brasileira, do maior exportador mundial de carne bovina e de frango!

    Com o Acordo, a perspectiva é de mais mercado, melhor cooperação e maior participação do setor privado no desenvolvimento sustentável do Brasil. No agregado, o Acordo Mercosul–UE ampliará o valor da produção na agroindústria brasileira em US$ 10,9 bilhões (Ipea) e induzirá redução na produção europeia em vários setores agropecuários. A União Europeia precisa da carne, da proteína animal produzida com sanidade, competitividade e sustentabilidade no Mercosul. A China então… Como dizem os franceses: C’est la vie!

    Evaristo de Miranda é agrônomo, com mestrado e doutorado em ecologia pela Universidade de Montpellier. Com mais de 1.400 publicações no Brasil e exterior, é autor de 56 livros, como “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura Brasileira” (em português, inglês, árabe e mandarim). Pesquisador da Embrapa de 1980 a 2023, coordenou mais de 40 projetos e dirigiu três centros nacionais de pesquisa. Membro da Academia Nacional de Agricultura, foi eleito Agrônomo do Ano em 2021. Sua produção científica e artigos estão disponíveis no site: evaristodemiranda.com.br.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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