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    China

    O PCdoB e a China socialista

    Relações entre os comunistas chineses e brasileiros remontam a 1953, com o primeiro intercâmbio entre o PCCh e o Partido Comunista do Brasil

    POR: Nilton Vasconcelos

    8 min de leitura

    Luís Carlos Prestes durante encontro com o líder chinês Mao Tsé-Tung em outubro de 1959. Foto:  Reprodução / Novos Rumos, ed. 43
    Luís Carlos Prestes durante encontro com o líder chinês Mao Tsé-Tung em outubro de 1959. Foto: Reprodução / Novos Rumos, ed. 43

    Em artigo publicado recentemente neste Portal, abordei a crítica à chamada Teoria dos Três Mundos formulada por Mao Zedong, especialmente a partir do livro de autoria do grande dirigente comunista João Amazonas, em 1981. As relações entre os comunistas chineses e brasileiros, entretanto, remontam ao ano de 1953, quando se deu o primeiro intercâmbio entre o PC da China e o Partido Comunista do Brasil (à época sob a sigla PCB), seguido de muitos encontros após a reestruturação do partido, até os dias atuais.

    Podem ser estabelecidos três períodos distintos nessas relações. O primeiro estende-se até 1962, em um contexto marcado pela hegemonia política e ideológica da União Soviética no movimento comunista internacional, hegemonia essa crescentemente questionada após o XX Congresso do PCUS. O segundo período vai de 1963, ano da visita de João Amazonas à China, até 1992, quando da realização do 8º Congresso do PCdoB. O terceiro tem início em 1993 e se estende até os nossos dias, caracterizando-se por uma reavaliação sistemática das experiências internacionais de construção do socialismo, em especial a chinesa.

    + A ligação profunda do Partido Comunista da China com o povo

    Na primeira fase, destaca-se a visita do Secretário Geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), Luís Carlos Prestes, à China, em 1959, quando foi recebido por Mao Zedong durante as solenidades comemorativas do décimo o aniversário da Revolução Chinesa de 1949.

    Mao Tsé-Tung proclama a República Popular da China em 1º de Outubro de 1949. Foto: Wikimedia Commons / Domínio Público

    A edição no. 33 do jornal Novos Rumos, órgão oficial do PCB, publicado em outubro de 1959, trazia como manchete a notícia do voo de uma aeronave soviética que alcançara uma órbita próxima à Lua e retornara com sucesso à órbita terrestre, feito apresentado como grande realização do socialismo. Na mesma edição, eram destacadas as comemorações pelo décimo aniversário da República Popular da China, exaltando-se as conquistas no curto espaço de tempo, bem como a “aliança e amizade inquebrantáveis” entre a URSS e a China. Lideranças comunistas de todo o mundo participaram das celebrações, entre elas o então primeiro-secretário do Comitê Central do PCUS, Nikita Kruschev.

    + Quando a história parece não ter fim: a esquerda no século XXI

    Embora já tivessem transcorrido três anos do XX Congresso do PCUS, de 1956, e fossem perceptíveis as divergências emergentes entre soviéticos e chineses, predominava ainda uma postura de cautela. Àquela altura, contudo, a direção chinesa já havia rejeitado a tese da transição pacífica universal do capitalismo ao socialismo, reafirmando a centralidade da luta anti-imperialista e da revolução nacional – posições que influenciaram o debate no interior do movimento comunista internacional.

    Discurso de Luís Carlos Prestes em visita à China em outuro de 1959. Foto: Novos Rumos nº 34 / Reprodução

    Em janeiro de 1960, Prestes publicou três artigos no jornal Novos Rumos (edições 45 a 47), nos quais tratou de sua viagem à China. Enfatizou que, sob direção de um partido marxista-leninista experiente, a China conseguiu cumprir rapidamente as tarefas da revolução nacional e democrática, ingressando no caminho da construção socialista (PRESTES, 1959a). Destacava que o poder político passara às mãos do povo e que imensas forças produtivas haviam sido liberadas.

    Os textos refletiam grande entusiasmo com as transformações ocorridas nos dez primeiros anos da revolução, especialmente, com os resultados do Primeiro Plano Quinquenal. Prestes registrava avanços significativos na indústria e na agricultura, com base em estatísticas chinesas, e expressava otimismo em relação ao Grande Salto Adiante, iniciado em 1958. Chegou a sustentar que a China poderia alcançar realizações ainda mais expressiva que a União Soviética, em razão da sua população numerosa e da experiência acumulada pelo campo socialista (PRESTES, 1959b).

    As Comunas Populares eram apresentadas como formas organizativas superiores às cooperativas, representando um estágio avançado da coletivização das terras, e articulando funções produtivas, administrativas, educacionais e mesmo militares.  Após visitar uma dessas comunas, Prestes manifestou confiança no êxito da experiência socialista chinesa (PRESTES, 1959c).

    + China não tem favelas: a questão da moradia no socialismo e no capitalismo

    Entretanto, o Grande Salto Adiante não produziu os resultados esperados. Após taxas iniciais de crescimento, verificou-se forte queda da produção agrícola, grande parte do aço produzido revelou-se de baixa qualidade, as requisições estatais de grãos aumentaram, desestimulando a produção; surgiram graves problemas de logística e desorganização econômica. A fome se alastrou, enquanto a crise foi oficialmente negada até tornar-se incontornável.

    Ao final do processo, a Conferência Central de Trabalho da China, em janeiro de 1962, promoveu uma análise crítica da experiência do Grande Salto Adiante, reconhecendo erros de orientação (PCCh, 1981).

    O V Congresso do PCB, realizado em agosto de 1960, aprofundou as contradições internas, com manifestações contrárias ao aprofundamento da linha programática alinhada ao pensamento difundido pelos soviéticos. Em consequência, vários dirigentes, a exemplo de Maurício Grabois, João Amazonas e Diógenes Arruda são excluídos do Comitê Central. Nos meses seguintes, Carlos Danielli, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo foram afastados, bem como Lincoln Oest, José Duarte, Walter Martins e Calil Chade.

    Em 1961, a direção do partido publicou novos Programa e Estatuto no jornal Novos Rumos, alterando a denominação para Partido Comunista Brasileiro, em contradição com as deliberações congressuais. Em resposta, cem dirigentes divulgaram uma Carta Pública contestando a nova orientação, o que resultou na expulsão dos principais signatários. Finalmente, em 18 de fevereiro de 1962, teve início a Conferência Extraordinária, que reorganizou o Partido Comunista do Brasil, adotando a sigla PCdoB (BERTOLINO).

    Conclusão da primeira parte

    A trajetória das relações entre os comunistas brasileiros e a China socialista, desde os primeiros intercâmbios na década de 1950 até a reorganização do PCdoB em 1962, revela-se profundamente condicionada pelas disputas teóricas, políticas e estratégicas que atravessaram o movimento comunista internacional no pós-guerra. Nesse período, a experiência chinesa exerceu forte impacto simbólico e político sobre setores do comunismo brasileiro, inicialmente mediado pela hegemonia soviética e, posteriormente, tensionado pelas divergências abertas após o XX Congresso do PCUS.

    Programas do Partido Comunista contam a história de um mundo em transição

    O entusiasmo inicial com as conquistas da Revolução Chinesa, amplamente registrado nos relatos de Luís Carlos Prestes, conviveu com avaliações limitadas sobre os impasses e contradições do Grande Salto Adiante, cuja crise só mais tarde seria plenamente reconhecida pela própria direção chinesa. Paralelamente, o aprofundamento da ruptura sino-soviética expôs divergências estratégicas fundamentais acerca da transição ao socialismo, da luta anti-imperialista e do papel do Estado e do partido, repercutindo diretamente no interior do PCB.

    A reorganização do PCdoB, em 1962, não pode ser compreendida apenas como um episódio da história interna do comunismo brasileiro, mas como parte de um realinhamento internacional mais amplo, no qual a experiência chinesa passou a ocupar lugar central como referência alternativa ao modelo soviético. Esse marco encerra uma primeira etapa das relações entre o PCdoB e o PCCh, abrindo caminho para uma fase posterior, caracterizada por maior proximidade política, intercâmbio direto e elaboração teórica própria — tema que será desenvolvido na sequência deste estudo.

    Referencias:

    BERTOLINO, Osvaldo. Maurício Grabois: uma vida de combates o caminho de um revolucionário brasileiro. 1ª ed. São Paulo. Fundação Maurício Grabois: Anita Garibaldi, 2012. 580 p.

    PCCh – Partido Comunista da China. Resolução Sobre Certas Questões na História de Nosso Partido Desde a Fundação da República Popular da China, Adotada pela Sexta Sessão Plenária do Décimo Primeiro Comitê Central do Partido Comunista da China, 27 de Junho de 1981. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/tematica/1981/06/27.htm

    PRESTES, Luiz Carlos. A Vitória do Socialismo na China. Novos Rumos, edição nº 45, p. 2. Rio de Janeiro, 1° a 7 de janeiro de 1960. 1960a.

    PRESTES, Luiz Carlos. Novos Rumos, edição nº 46, p. 2. Rio de Janeiro, de 8 a 14 de janeiro de 1960. Na China – Grande salto para a frente de 1958. 1960b.

    PRESTES, Luiz Carlos. As comunas populares na China. Novos Rumos nº 47, p. 2. Rio de Janeiro, 15 a 21 de janeiro de 1960.1960c.

    Nilton Vasconcelos é doutor em Administração Pública. Secretário do Trabalho e Esporte do Estado da Bahia (2007-2014)É diretor de Relações Institucionais do Centro de Estudos Avançados Brasil China (Cebrach) e membro do Grupo de Pesquisa sobre Estado e Instituições da Fundação Maurício Grabois.

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

     

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