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    América Latina

    Nova Estratégia de Segurança dos EUA e a Doutrina “Donroe” para as Américas

    Sob o discurso de “paz pela força”, Trump reorganiza sua política externa, intensifica a pressão sobre a América Latina e aprofunda a lógica imperial em crise

    POR: Eduardo Siqueira

    13 min de leitura

    Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, anuncia planos de expansão militar da Marinha em evento realizado em Mar-a-Lago, na Flórida, em 22 de dezembro de 2025. Na imagem, painéis exibem a inscrição “Trump Class”, termo usado pelo governo para identificar o projeto naval anunciado. Ao fundo, o secretário de Estado Marco Rubio. Foto: Casa Branca / Daniel Torok (domínio público)
    Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, anuncia planos de expansão militar da Marinha em evento realizado em Mar-a-Lago, na Flórida, em 22 de dezembro de 2025. Na imagem, painéis exibem a inscrição “Trump Class”, termo usado pelo governo para identificar o projeto naval anunciado. Ao fundo, o secretário de Estado Marco Rubio. Foto: Casa Branca / Daniel Torok (domínio público)

    Trocando em Miúdos
    A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos: Doutrina Donroe para as Américas

    A Estratégia de Segurança Nacional (ESN), divulgada pelo governo Trump em 4 de dezembro de 2025, marca mudanças importantes na política externa dos Estados Unidos.

    Conforme análise de Larry Johnson, analista de inteligência da CIA aposentado, a Nova ESN significa uma grande mudança em relação às estratégias anteriores nos seguintes aspectos:

    • Os Estados Unidos deixam de ser polícia do mundo para tornarem-se hegemons regionais. Comparada com a Estratégia de Segurança Nacional do governo Biden de 2022, que enfatizou alianças e competição entre grandes poderes, ou a de Trump de 2017, que denominou a China e a Rússia como potências revisionistas, a atual acaba com o ônus permanente dos Estados Unidos no exterior. Ela prioriza as Américas sobre a Eurásia, classificando a Europa e o Oriente Médio como áreas não prioritárias.
    • Propõe recuo ideológico, porque a promoção da democracia como slogan é abandonada explicitamente. O documento afirma:  “Nós procuramos relações comerciais pacíficas sem impor mudanças democráticas.” Ditadores ou líderes autoritários não são inimigos e a União Europeia é considerada anti-democrática. 
    • Aliados europeus são criticados duramente por riscos relacionados com migração, liberdade de expressão e ameaças de ocaso civilizatório por diminuição da população, que podem torná-los irreconhecíveis em 20 anos. Os Estados Unidos se comprometem a apoiar partidos europeus patrióticos que resistem a isto e são acusados por líderes da União Européia como anti-europeus. 
    • Reconhece falhas na relação com a China e propõe laços mutuamente benéficos com o país, mas com dissuasão. Não defende o desacoplamento, mas sustenta restrições quanto a tecnologias e dependências chinesas em cadeias de produção estratégicas. Manter potencial conflito entre Taiwan e China é prioridade.  
    • Aceita a multipolaridade e convida poderes regionais a gerenciar suas esferas de influência; por exemplo, o Japão na Ásia do Leste, ou bloco árabe-israelense no Golfo Pérsico. Esse recuo significa que os EUA querem diminuir o confronto direto com seus inimigos.

    Para ver o documento National Security Strategy of the United States of America, em inglês, clique aqui.

    O Arquiteto da Nova Estratégia de Segurança dos EUA

    Antes de detalhar aspectos do documento diretamente relacionados às Américas, é importante situar quem é o formulador central dessa orientação estratégica. Segundo informações divulgadas por diversos analistas geopolíticos, o principal mentor da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos é Elbridge A. Colby, atual vice-secretário de Guerra para Políticas. A seguir, um resumo de sua trajetória conforme apresentação institucional do próprio Departamento de Guerra dos EUA:

    “É o principal assessor do Secretário de Guerra [Pete Hegseth] em assuntos de defesa e política externa. Suas atribuições incluem liderar o desenvolvimento e supervisionar a implementação da Estratégia Nacional de Defesa, além de responder por estratégias e revisões voltadas ao planejamento, à postura e à gestão da Força Conjunta.”

    Antes de assumir esse cargo, Colby foi cofundador da Iniciativa Maratona, think tank que se tornou referência na formulação de estratégias voltadas à competição entre grandes potências. Seus livros, artigos e entrevistas circularam amplamente em veículos de grande projeção internacional, e Colby tornou-se presença frequente em programas de televisão e outros meios de comunicação.

    Durante o primeiro mandato de Donald Trump, Colby atuou como Subsecretário-Adjunto de Defesa para Estratégia e Desenvolvimento de Forças, entre 2017 e 2018. Nessa função, liderou a formulação e a implementação da Estratégia Nacional de Defesa de 2018, que reorientou o Departamento de Defesa a priorizar a ameaça representada pelo crescimento militar da China e a enfatizar a necessidade de maior compartilhamento de encargos entre os aliados.  Ao longo da carreira, exerceu ainda outras funções no governo dos Estados Unidos, inclusive no Departamento de Estado, com atuação no Iraque.

    Quando a Estratégia de Segurança Nacional foi divulgada, Colby publicou um longo fio na rede X exaltando o documento. Na primeira mensagem, afirmou que a estratégia do presidente Trump representa “uma articulação clara e poderosa” da agenda “América Primeiro, Paz por Meio da Força”.

     

     

    O hemisfério ocidental e a Doutrina Monroe atualizada

    O documento da ESN divide a estratégia em três pilares fundamentais: defesa da pátria, do hemisfério ocidental e do crescimento econômico. Secundariamente, enfoca parcerias seletivas na Ásia, Europa, Oeste da Ásia (Oriente Médio) e África.

    Para o Brasil, o mais importante é entender o que a ESN afirma sobre o hemisfério ocidental, que inclui todos os países da América do Sul e Central, o México e o Canadá, na América do Norte, e todos os países caribenhos. A estratégia coloca como objetivo central nesses países o combate ao narcotráfico e à imigração não autorizada. Apresenta propostas como o deslocamento de forças militares para o combate a traficantes de pessoas e drogas. A meta dessas ações é a apreensão de mais de 300 toneladas de precursores de metanfetamina anualmente.

    + Relembre: Trump usa guerra ao narcotráfico como pretexto para militarizar América Latina

    Outro objetivo central é resumido no mal denominado Corolário Trump para a Doutrina Monroe, que reafirma a necessidade de os EUA terem hegemonia no hemisfério ocidental. Essa hegemonia significa que nenhum rival externo à região pode ter acesso a recursos naturais e cooperação tecnológica com países ocidentais.

    A Doutrina Monroe foi anunciada em 1823 pelo presidente James Monroe e se opunha à colonização das Américas por países europeus, principalmente Espanha e Portugal. Embora a intenção inicial dessa doutrina fosse combater o colonialismo nas Américas, em aliança com a Inglaterra, a partir de 1848 ela se transformou na Doutrina Polk de “As Américas para os Estados Unidos”, durante a presidência de James Polk.

    Trump anunciou recentemente que a nova versão do corolário deveria se chamar Doutrina “Donroe” (de Donald), isto é, a retomada, por seu governo, da hegemonia perdida pelos EUA na América Latina nas últimas décadas, para de novo dominar os países latino-americanos e eliminar parcerias e investimentos da China e da Rússia em países, como Venezuela, Peru, Colômbia ou Brasil. Segundo ele, os EUA devem ser donos das Américas e combater qualquer outro país que mantenha relações comerciais, tecnológicas, militares e até culturais com a América Latina. Os países latino-americanos têm de aceitar sua submissão aos EUA voluntariamente ou serão forçados a isso, custe o que custar.

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    O endereço certo desta nova doutrina é sem dúvida a China, que é o seu principal competidor  nas Américas e talvez em todo o mundo. A ESN indica como ações concretas para implementar a doutrina a realocação de tropas da Europa e Oeste da Ásia, a expansão da presença da Guarda Costeira e da Marinha, e a promoção de investimentos dos EUA para impedir o controle por outros países considerados como alheios ao continente americano. 

    Pouco tempo passou para que ficasse claro como a ESN seria posta em prática. O deslocamento de milhares de forças navais e fuzileiros para o Mar do Caribe, os atos de pirataria com a apreensão de navios petroleiros e o escandaloso sequestro do presidente Nicolás Maduro revelam o fascismo a olho nu do governo Trump 2.0, que anda de vento em popa dentro e fora do país.

    Como, a cada semana, o império decadente e desesperado provoca seus principais rivais com mais assombração e barbáries, e o curso dos acontecimentos acelera como acontece em períodos de grandes crises do sistema capitalista, há que também analisar  a crise em desenvolvimento com um olho de águia, como se diz nos Estados Unidos.  

    + Veja mais análises sobre o governo Trump 2.0

    A ESN sintetiza bem por que, daqui para a frente, o governo estadunidense tende a se comportar como um Estado fora da lei, nas palavras do jornalista Chris Hedges, ou como um pirata global ameaçando aliados e adversários. Se a guerra é a continuação da política por outros meios, conforme postulou von Clausewitz, as aventuras imperiais belicistas demonstram que as políticas internas e externas do governo Trump 2.0 são tentativas de lidar com crises internas e externas à base do cacete e da pilhagem. A violência no combate a imigrantes lembra práticas da Gestapo e anda de mãos dadas com o uso sistemático da força para impor os interesses do império em todo o mundo ocidental.

    O principal instrumento usado pelos EUA desde os anos 1970 para acumular poder e domínio é o petrodólar, obtido pelo controle do acesso e da comercialização da maior riqueza natural do planeta, o petróleo. No século XXI, o velho ouro negro passou a dividir espaço com outros minérios raros, como o nióbio e o lítio, que se tornaram fontes fundamentais de riqueza para o crescimento econômico dos EUA. Os monopólios que de fato governam o país – particularmente a indústria bélica, as big techs e a indústria do petróleo, entrelaçadas em redes complexas e obscuras com o capital financeiro – buscam ampliar ou recuperar lucros e poder sem concessões ou luvas de pelica.

    + O confisco do petróleo venezuelano e o exercício do mercantilismo trumpista

    A pirataria no Caribe e no Atlântico Norte contra a Venezuela e seus aliados tem seu corolário, palavra agora na moda, na pilhagem dos recursos públicos levada a cabo sistematicamente pelo governo Trump 2.0. Afinal de contas, quando o orçamento público destina mais de 1 bilhão de dólares por ano a empresas do complexo industrial-militar, sem nenhuma transparência, para encher os bolsos de acionistas e contratistas que fabricam armamentos a preços astronômicos e frequentemente pouco eficazes, como chamar essa política, senão de pirataria com o dinheiro do povo dos EUA?

    Crise estrutural do capitalismo e a decadência da hegemonia dos EUA

    Além de uma análise conjuntural da ESN, cabe analisar se, como afirmou Marx, as crises profundas do capitalismo são estruturalmente causadas pela contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção. Em um nível mais profundo, temos que explicar como essa contradição se manifesta na fase atual da decadente hegemonia dos EUA.

    Indicadores econômicos das últimas décadas revelam que a produtividade do trabalho caiu e que houve também queda da taxa média de lucro desde os anos 1980. Como resultado, as empresas transnacionais controladas pelo grande capital dos EUA transferiram suas fábricas para o Sul Global, principalmente para a China e, anteriormente, para o México, gerando profunda desindustrialização e enormes consequências econômicas, sociais e políticas, como o desemprego estrutural, a precarização das condições de trabalho, o subemprego, o crescimento da economia informal e da desigualdade, bem como a consolidação da hegemonia do neoliberalismo em todo o país.

    Desde então, o capital financeiro, especulativo e rentista, sem compromisso com o desenvolvimento das forças produtivas, passou a ditar as regras da ordem internacional e as políticas econômicas dos governos estadunidenses. Não é coincidência que o país tenha tido bolhas financeiras periódicas e que as relações de produção de interesse do rentismo, como a superexploração da maioria dos trabalhadores e a precarização do emprego, tenham se tornado uma camisa de força para a economia produtiva, real e industrial, geradora de desenvolvimento socioeconômico efetivo.

    Esse mesmo rentismo não tem qualquer compromisso com a natureza, a democracia ou a paz. Surge, assim, a resposta neofascista para tentar resolver essa contradição estrutural, que, na prática, a acirra ainda mais e não oferece qualquer solução pacífica para a crise.

    A contradição principal no plano político fica cada vez mais evidente. De um lado, aqueles que anseiam pela multipolaridade, soberania nacional, paz, democracia e libertação do imperialismo, liderados pelos BRICS, com China e Rússia na vanguarda. De outro, os que defendem a hegemonia ocidental, a unipolaridade, o neofascismo e guerras eternas, liderados pelos Estados Unidos, seguidos de perto por vassalos europeus vanguardeados pela Alemanha. A ideologia de vários representantes de carteirinha do rentismo nos EUA sugere que preferem o fim do mundo ao fim do capitalismo monopolista do hegemon!

    Embora a mídia oligopolizada, do Washington Post ao New York Times, destaque em suas manchetes nomes como Steve Miller, Marco Rubio, Pete Hegseth e Colby, entre outros, eles não passam de marionetes ou, no máximo, porta-vozes dos monopólios. Trump, com seu comportamento errático, narcisista e megalomaníaco, alcunhado de neo-Calígula por Pepe Escobar, mente e bravateia todos os dias para fazer o jogo que serve aos representantes dos monopólios que financiam sua campanha, hegemonizados há décadas por sionistas e neoconservadores. 

    Diante desse panorama de grande instabilidade, da quebra de todas as leis internacionais e das reiteradas violações da Constituição dos Estados Unidos, não é nenhum exagero afirmar o que Richard Wolff caracterizou, em conversa recente com o professor Glenn Diesen, como o colapso do neoliberalismo e a chegada de um momento pré-revolucionário no capitalismo ocidental. Se o diagnóstico de Wolff estiver correto, o ano de 2026 será ainda mais conturbado que 2025. Ponhamos não só a barba, mas todo o corpo de molho!

    Eduardo Siqueira é professor na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.

    Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial dFMG.