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    América Latina

    Porque Lula não deve aceitar ‘Conselho de Paz’ de Trump sobre Gaza

    Documento que cria a organização foi assinado na manhã desta quinta (22) em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial

    POR: Ana Prestes

    6 min de leitura

    Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião bilateral na Cúpula da Asean em Kuala Lumpur, na Malásia em outubro de 2025. Foto: Ricardo Stuckert/PR
    Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião bilateral na Cúpula da Asean em Kuala Lumpur, na Malásia em outubro de 2025. Foto: Ricardo Stuckert/PR

    Na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a criação de um Conselho de Paz para supervisionar o governo de transição que irá controlar o território palestino.

    Trump será presidente do conselho com mandato vitalício e o único com poder de veto e convidou diversos chefes de Estado para serem membros, entre eles o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que até o momento não aceitou o convite. 

    O documento que cria a organização foi assinado na manhã desta quinta (22) em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, com a confirmação de que 20 países aceitaram participar da iniciativa, entre eles estão Arábia Saudita, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, Israel e Jordânia.

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    Nesta coluna eu argumento porque o presidente Lula não deveria aceitar o convite do presidente Donald Trump para compor esse suposto Conselho de Paz. Considero algo absolutamente estranho e abjeto o convite de Trump para que o Brasil participe. É fora de qualquer propósito que uma figura como o atual presidente dos Estados Unidos se sugira como portador de um projeto de paz para o povo palestino. Na minha visão, trata-se de mais um capítulo do genocídio contra a Palestina, agora disfarçado de uma pretensa solução multilateral. 

    O presidente Lula não deve levar o Brasil para dentro desse conselho, pois ele faz parte de um projeto global de Trump que inclui o desmonte do sistema multilateral e da governança global. Trump passa por cima de todos os parâmetros do direito internacional e do sistema ONU para executar um projeto de colonização na Palestina, visando beneficiar empresas norte-americanas na construção de uma “Gaza dos sonhos”, que já teve até imagens projetadas por inteligência artificial incluindo estátuas de Trump.

    Defendo que o presidente Lula decline o convite por diversos motivos fundamentais. Lula tem uma trajetória consolidada, muito consistente, de compromisso com a paz. Foi um dos primeiros chefes de Estado a denunciar o genocídio promovido pelo governo do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de forma contínua contra a população palestina, agravado desde o 7 de outubro de 2023.

    O presidente brasileiro já construiu uma autoridade internacional como líder e adepto do multilateralismo e da soberania dos povos, da solução negociada dos conflitos e, desde o seu primeiro mandato, afirma que a paz não nasce da força nem da imposição, mas do diálogo entre iguais. Neste terceiro mandato em especial, Lula tem um compromisso com a valorização dos instrumentos e mecanismos já existentes e com o comprometimento da maioria dos países do mundo, como o Conselho de Segurança da ONU.

    Apesar de serem utilizados a bel prazer pelas grandes potências como os Estados Unidos, são os mecanismos que existem e precisam ser reformados. Se a ONU é enfraquecida ainda mais, isso abre espaço para indivíduos e atores erráticos, imprevisíveis, imponderáveis, como Trump, que consegue agir à margem da lei de uma forma cada vez mais impressionante.

    Temos observado o governo dos EUA sinalizar ações como a possível tomada da Groenlândia, o afastamento da China no Panamá, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a instalação de bases militares em países como Equador e Paraguai. Essas ações têm sido tomadas por parte do governo Trump e sabemos que o sistema ONU não tem capacidade, nem mecanismos para barrá-las – até porque isso tem a ver com a dinâmica do próprio capitalismo e do imperialismo e da sua força diante de outras nações. 

    Não vai ser implodindo que esse sistema e instalando novos instrumentos falaciosos como esse pretenso Conselho de Paz que vamos chegar a uma solução. Há uma grande hipocrisia do imperialismo, porque o que os EUA estão fazendo na América Latina, já foi feito no Iraque, na Síria, na Líbia, no Afeganistão e em tantos outros locais.

    É uma enorme hipocrisia que eles falem de paz, sendo que pelo menos oito países foram atacados e bombardeados nesse primeiro ano de governo Trump, que se diz defensor da paz e merecedor do Prêmio Nobel. Além disso, existe uma dinâmica de protagonismo do Sul Global que vai subsumir nesse processo: se Lula aceitar, Trump vai ter ao lado dele um líder do Sul Global,  uma contradição que ele quer explorar. Países do Brics –  Brasil, Índia, Rússia, China e África do Sul –  deveriam se contrapor a esse novo episódio de cercamento e aniquilação do povo palestino.

    Aceitar esse convite significa normalizar a existência de fóruns absolutamente paralelos ao sistema ONU e legitimaria sanções como políticas de paz, enfraqueceria inclusive a autonomia diplomática brasileira, que estaria subordinada aos compromissos estabelecidos dentro desse conselho – a partir de coerção, sanções e imposições como forma de construir artificialmente um processo de paz.

    Esse processo não se sustenta porque não dá espaço e voz para os principais envolvidos na questão que são a população e as forças políticas da Palestina. Seria absolutamente contraditório com a trajetória do presidente Lula, da política externa brasileira desse terceiro mandato que busca a construção de parâmetros para uma governança global realmente comprometida com a soberania dos povos, com a democracia de cada país e com processos sustentáveis de paz.

    Deixo aqui esses elementos para o debate e reforço minha preocupação de que o Brasil não aceite ser coadjuvante deste novo capítulo de ataque ao povo palestino.

    Assista na íntegra ao programa Conexão Sul Global com Ana Prestes

    Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.

    *Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 21/01/2025. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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