O PC DO BRASIL E A CHINA SOCIALISTA – PARTE II
Como visto na primeira parte deste estudo, profundas divergências abalaram o movimento comunista internacional a partir do XX Congresso do PCUS, em 1956, quando a nova liderança soviética denunciou Stálin e aprovou teses que alteravam de forma significativa a compreensão então predominante sobre a construção do socialismo. Essas mudanças tiveram forte impacto na organização dos comunistas brasileiros, culminando na reorganização do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Encerrava-se, assim, uma primeira fase das relações entre os comunistas brasileiros e o Partido Comunista Chinês (PCCh), ainda incipientes e fortemente marcadas pelo predomínio da influência soviética.
A cisão no movimento comunista internacional
Neste contexto, um importante encontro realizado em Moscou, em novembro de 1960, após a explicitação pública das divergências – especialmente entre a União Soviética e a China –, resultou na “Declaração da Conferência dos 81 Partidos Comunistas e Operários”, publicada na íntegra pelo jornal Novos Rumos, edição nº 94, de dezembro de 1960. O documento expressava o objetivo de preservar a unidade do movimento comunista internacional em torno de uma estratégia comum de enfrentamento ao imperialismo.
Havia, naquele momento, um clima de entusiasmo com o crescimento da influência internacional do campo socialista, que reunia, além da URSS e China, diversos países do Leste Europeu e também na Ásia, na África e no Caribe. Apesar das divergências já existentes, a Declaração propunha a busca da unidade dos partidos comunistas contra o revisionismo, priorizando a paz, posicionava-se contra a guerra nuclear e na defesa da coexistência pacífica entre os sistemas sociais distintos.
Entretanto, como ficaria explícito pouco depois, essas formulações não foram suficientes para conter o aprofundamento das cisões. Em 1962, no XXII Congresso do PCUS, as críticas mútuas alcançaram um novo patamar, tornando evidente que a Declaração dos 81 partidos já não conseguiria assegurar a unidade de ação do movimento comunista internacional.
Contatos internacionais do PCdoB
Meses após a reorganização do PCdoB, em maio de 1962, Maurício Grabois e João Amazonas viajam a Cuba, em um esforço para romper o isolamento político e apresentar a outros partidos comunistas as razões da ruptura ocorrida no Brasil. Em Havana, durante as comemorações do Dia do Trabalho, tiveram a oportunidade de dialogar com delegações de diversos países, entre elas chinesa, albanesa e coreana, que compareceram às festividades (BUONICORE, 2012).
O PCdoB via, ainda, na Revolução Cubana de janeiro de 1959, uma evidência do equívoco das teses kruschevistas sobre a transição pacífica ao socialismo. No retorno da viagem, Grabois e Amazonas realizam palestras, e o partido promoveu a publicação de livros sobre a revolução cubana no Brasil, além de organizar atividades em defesa da ilha durante a crise dos mísseis, que opôs EUA e União Soviética (BERTOLINO, 2012).
A posterior aproximação do Partido Comunista Cubano com o PCUS levou ao afastamento político do PCdoB, que intensificou a crítica ao revisionismo soviético e em outros países do Leste Europeu. Neste novo cenário, em março de 1963, João Amazonas e Lincoln Oest viajaram à China, onde foram recebidos por Mao Zedong. Segundo Amazonas, a direção chinesa os acolheu “com camaradagem”, e demonstrou interesse em conhecer melhor as posições do PCdoB, embora mantivesse relações regulares com o PCB (BERTOLINO, 2012).

Mao Tsé-tung conversa com João Amazonas e Lincoln Oest, integrantes da delegação do PCdoB, em Pequim (1963). Crédito: Reprodução.
O acirramento das divergências com o PCCh
A situação internacional evoluiu rapidamente. Em junho de 1963, o PCCh divulgou um documento no qual apresentava a sua posição sobre o movimento comunista internacional, reconhecendo a responsabilidade tanto do próprio partido chinês quanto do PCUS na construção da unidade do campo socialista. O texto afirmava que, por mais sérias que fossem as diferenças, deveriam ser envidados esforços para superá-los (PCCh, 1963).
A resposta soviética foi imediata e adotou um tom significativamente distinto. Em longo documento, a direção do PCUS acusou o PCCh de desenvolver “atividade prática voltada para o socavamento da unidade do campo socialista mundial e do movimento comunista internacional”. De modo mais específico, afirmava que os chineses contavam com apoio no Brasil de “grupos de fracionistas expulsos das fileiras do Partido (como, por exemplo, o grupo de Amazonas—Grabois)” (PCUS, 1963).
Esta posição do PCUS motivou uma reação do PCdoB, expressa no documento Resposta a Kruschev, publicado em julho de 1963. Nele, o partido qualifica como calúnia a acusação de que a China teria influenciado sua reorganização, afirmando que a cisão teve como causas principais fatores de ordem interna, ligados à penetração de ideias burguesas no partido e à intolerância da direção chefiada por Prestes, que teria recorrido a métodos condenáveis na condução da luta ideológica.
Na Resposta, o PCdoB afirma também que, a partir da leitura dos documentos do PC da China, era possível concluir que “os chineses são verdadeiros defensores da paz” e que seus líderes indicam “o justo caminho para impedir a eclosão de uma guerra atômica” (PCdoB, 1963).
Com a rápida deterioração do quadro político nacional e a eclosão do golpe de 1964, novas e urgentes tarefas se impuseram ao partido, voltadas à resistência à ditadura e à proteção dos seus militantes e dirigentes frente à repressão. Ainda pequeno, o PCdoB manteve-se ativo e cresceu na luta contra o regime de exceção. Na 6ª Conferência, realizada em junho de 1966, o partido afirmou a necessidade da união dos brasileiros para livrar o país da ditadura e da ameaça neocolonialista; apontando também a preparação para a guerrilha como uma das principais formas de luta. Essa orientação passou a ser implementada de forma sigilosa na região do Araguaia a partir de 1967. No plano internacional, o partido reiterou a crítica ao revisionismo e sustentou que a contradição principal no mundo opunha os imperialistas – à frente os EUA – aos povos oprimidos (RUY e BUONICORE, 2012).
As relações internacionais continuaram a se desenvolver, com a viagem de João Amazonas para representar o PCdoB no 5º Congresso do PTA e, em 1967, à China, em pleno curso da Revolução Cultural, quando manteve diálogo com os dirigentes chineses sobre questões teóricas.
Ditadura, luta armada e consolidação das divergências
A repressão nos grandes centros urbanos intensificou-se após o AI-5. As prisões e desaparecimentos de dirigentes e militantes – como Lincoln Oest e Carlos Danieli, em 1972 e 1973 –, o deslocamento de quadros para a região do Bico do Papagaio, a organização da Guerrilha do Araguaia, o ataque das Forças Armadas, a resistência e o assassinato cruel dos guerrilheiros e do comandante Maurício Grabois, no final de 1973, bem como o cerco ao partido culminando na Chacina da Lapa, em 1976, marcaram um período de imensa atividade política, apesar de todas as restrições, e de enormes perdas humanas e organizativas. Um fato extraordinário deste período foi a incorporação da Ação Popular, em maio de 1973, que reforçou as fileiras do partido com militantes experientes, e com grande penetração no movimento de massas.
Sobre a influência do pensamento de Mao Zedong na linha política do PCdoB, o jornal A Classe Operária (1978) é categórico ao afirmar que “o PCdoB nunca foi um partido maoísta, ou de linha chinesa”. Destaca ainda que, quando criado em 1962, o partido não mantinha relações com o PCCh, e que o documento que mais se aproximou das ideias chinesas foi Guerra Popular – Caminho da luta armada no Brasil (1967), embora apresentasse diferenças significativas, não assumindo, por exemplo, a concepção do “cerco das cidades pelo campo”.
+ Há 100 anos, jornal A Classe Operária lançava sua primeira edição
Um dos primeiros documentos que abriram divergência entre o PCdoB e o PCCh foi o texto Atualidade do Pensamento de Lênin, de autoria de João Amazonas e Maurício Grabois, publicado em A Classe Operária. O texto criticava formulações aprovadas no IX Congresso do PCCh, em 1969, particularmente a tentativa de apresentar o pensamento de Mao Zedong como uma terceira etapa do marxismo, em substituição a Lênin.
Ao longo dos anos 1970, novos elementos agravaram as divergências, especialmente com a ascensão de Deng Xiaoping e a aproximação da China com os Estados Unidos. Em 1973, no documento Acerca da Luta Anti-imperialista, o PCdoB se opunha à Teoria dos Três Mundos e, em 1977, passou a se referir abertamente ao revisionismo chinês.
Em seu livro O Revisionismo Chinês de Mao TseTung (1981), João Amazonas reproduz o artigo Breve histórico das divergências com o PC da China, publicado em A Classe Operária em dezembro de 1978. O texto registra inúmeras questões teóricas e práticas que opuseram os dois partidos desde o restabelecimento das relações em 1963. Em todos esses casos, a direção do PCdoB debateu e rechaçou as formulações chinesas. Amazonas esclarece, contudo, que durante alguns anos a posição pública do partido era de elogio a Mao Zedong, considerado um grande marxista-leninista, e ao PCCh, visto como um partido revolucionário. Houve inclusive avaliações positivas sobre a Revolução Cultural e, mesmo após a morte de Mao, foram publicados artigos elogiosos, em contraste com a posição interna mais crítica.
Inicia-se, assim, uma nova fase das relações com o PCCh, que se estenderia até o final dos anos 1980 e início da década de 1990, quando o PCdoB adotaria nova política internacional em seu 8º Congresso. Esse processo será analisado no próximo artigo.
Conclusão
O período examinado nesta segunda parte evidencia a complexidade e as contradições das relações entre o PCdoB e o Partido Comunista da China, profundamente condicionadas pelas disputas ideológicas e estratégicas que atravessaram o movimento comunista internacional nas décadas de 1960 e 1970. A aproximação inicial, marcada pela crítica comum ao revisionismo soviético, deu lugar a um processo de distanciamento progressivo, à medida que se aprofundaram as divergências teóricas em torno da estratégia revolucionária, do papel do partido e da interpretação do marxismo-leninismo.
Ao mesmo tempo, a experiência histórica do PCdoB — forjada na resistência à ditadura militar, na luta armada e na reorganização partidária em condições extremas de repressão — contribuiu para a consolidação de uma elaboração política própria, crítica tanto ao modelo soviético quanto às formulações chinesas. Esse percurso explica por que, mesmo mantendo relações internacionais e diálogo político, o PCdoB nunca se constituiu como um partido de “linha chinesa”, preservando autonomia teórica e estratégica.
Essa etapa do relacionamento ainda se agravaria no final dos anos 1980, quando a crise da construção do socialismo no Leste Europeu se aprofundou, culminando no colapso da União Soviética. Esse processo abriu caminho para uma ampla avaliação das experiências socialistas, que se afirmaria de forma mais sistemática a partir dos anos 1990. É esse novo momento – marcado por transformações profundas na China e por uma inflexão na política internacional do PCdoB – que será objeto da análise seguinte.
Referências
AMAZONAS, João. O Revisionismo Chinês de Mao TseTung. Editora Anita Garibaldi. São Paulo, 1981. P. 206.
BERTOLINO, Osvaldo. Maurício Grabois: uma vida de combates o caminho de um revolucionário brasileiro. 1ª ed. São Paulo. Fundação Maurício Grabois: Anita Garibaldi, 2012. 580 p.
BUONICORE, Augusto. Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas. 1ª ed. São Paulo. Fundação Maurício Grabois, Anita Garibaldi. 2012. 464 p.
CLASSE OPERÁRIA. Breve histórico das divergências com a China. N° 132, dezembro de 1978, Ano XIV.
MAO, Zedong. Sobre o falso comunismo de Kruschev e suas lições históricas para o mundo: Comentário à Carta Aberta do Comitê Central do PCUS (IX). 14 de julho de 1964.
PCCh – Partido Comunista da China. Proposta Acerca da Linha Geral do Movimento Comunista Internacional Comitê Central do Partido Comunista da China. 14 de junho de 1963.
PCdoB – Partido Comunista do Brasil. Resposta a Kruschev. 27 de julho de 1963.
PCUS. Carta Aberta às Organizações Partidárias, a Todos os Comunistas da União Soviética. 14 de julho de 1963.
RUY, José Carlos e BUONICORE, Augusto (organizadores). Contribuição à história do Partido Comunista do Brasil. 2ª ed. – São Paulo. Anita Garibaldi e Fundação Maurício Grabois, 2012.
Nilton Vasconcelos é doutor em Administração Pública. Secretário do Trabalho e Esporte do Estado da Bahia (2007-2014). É diretor de Relações Institucionais do Centro de Estudos Avançados Brasil China (Cebrach) e membro do Grupo de Pesquisa sobre Estado e Instituições da Fundação Maurício Grabois.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.