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    Ciência e Tecnologia

    IA generativa, valor de uso e concorrência em mercados oligopolizados

    artigo discute as características da concorrência entre as big techs pela mercadoria inteligência artificial generativa a partir das lentes do marxismo e da economia política da comunicação (EPC)

    POR: André Pfeil e Pablo Nabarrete Bastos

    14 min de leitura

    “O consumo das mercadorias simbólicas presentes no meio virtual deixa rastro dos usuários em forma de dados, os quais serão utilizados pelas plataformas com a finalidade de comercialização de espaço publicitário”
Foto: Igor Omilaev / Unsplash
    “O consumo das mercadorias simbólicas presentes no meio virtual deixa rastro dos usuários em forma de dados, os quais serão utilizados pelas plataformas com a finalidade de comercialização de espaço publicitário” Foto: Igor Omilaev / Unsplash

    Este artigo discute as características da concorrência entre as big techs pela mercadoria inteligência artificial generativa a partir das lentes do marxismo e da economia política da comunicação (EPC), com foco no valor de uso dos chatbots das empresas que compõem o oligopólio da internet.

    Partindo do pressuposto de que as IAs generativas são também mercadorias da indústria cultural, desenvolvemos o artigo a partir das especificidades dessa mercadoria por meio dos marcos teóricos da EPC crítica, de tradição brasileira. Metodologicamente, utilizamos o método dialético e pesquisa documental a partir de reportagens jornalísticas que trazem dados factuais sobre a história recente da IA generativa e as relações de concorrência no setor.

    Palavras-chave: Inteligência artificial generativa. Mercadoria cultural. Marxismo. Economia política da
    comunicação. Concorrência.

    Princípios 173: Inteligência artificial e novas tecnologias disruptivas – Parte I

    1. Introdução

    No início de seu estudo do capital, logo no primeiro capítulo, Marx (2013) postula a tese de que, para entender o capitalismo, seu modo de produção e de acumulação, é preciso realizar a análise do objeto mais elementar do capitalismo: a mercadoria. Ou seja, no nível de abstração que o autor alemão propõe, é fundamental compreender como os produtos do trabalho humano se constituem como algo a ser trocado no mercado.

    Dessa forma, Marx (2013) observa que na rcadoria há um duplo caráter: o valor de uso e o valor de troca, ou simplesmente valor. O valor de uso diz respeito à capacidade do produto de satisfazer necessidades humanas. Já o valor de troca relaciona-se ao tempo de trabalho humano empregado para a produção da mercadoria, que constitui medida comum para o câmbio com outras mercadorias. Marx (2013, p.100) deixa claro que, para ser mercadoria, o produto do trabalho humano a ser trocado tem de ter utilidade, no entanto, o inverso não é necessariamente verdadeiro.

    Uma coisa pode ser valor de uso sem ser valor. É esse o caso quando sua utilidade para o homem não é mediada pelo trabalho. Assim é o ar, a terra virgem, os campos naturais, a madeira bruta etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Quem, por meio de seu produto, satisfaz sua própria necessidade, cria certamente valor de uso, mas não mercadoria.

    Para a tradição brasileira da economia política da comunicação (EPC), a partir da crítica dialética formulada nos estudos pioneiros de César Bolaño (Bastos, M., 2024), a indústria cultural, ao produzir mercadorias culturais, está de fato produzindo duas mercadorias: a mercadoria cultural e a mercadoria audiência. Ou seja, os trabalhadores do setor produzem valor de uso e valor de troca, simultaneamente. A mercadoria cultural vai ser consumida pela audiência e usuários, e a mercadoria audiência, por sua vez, vai ser trocada com anunciantes. Além disso, a mercadoria audiência é que vai permitir aos meios de comunicação realizar a troca por dinheiro (Bolaño, 2000), uma vez que as empresas que atuam no setor da comunicação, em muitíssimos casos, fornecem o valor de uso da mercadoria cultural gratuitamente.

    O mesmo se aplica aos produtos presentes gratuitamente na internet, como o buscador Google. Para Bolaño e Vieira (2015, p. 54, tradução nossa), a internet “não é apenas um tipo de nova indústria, mas na realidade é um espaço para a convergência de toda produção cultural industrializada” 1 . Ou seja, ao superar as limitações das mídias analógicas, a mídia digital possibilita ampliar o espectro de produtos midiáticos que atraem a atenção do usuário e, de maneira segmentada, oferecer, por via da publicidade, os mais variados
    produtos.

    + Revista Princípios se consolida como Qualis A3 na Capes

    Para este artigo, consideraremos a inteligência artificial generativa como mais uma mercadoria da indústria cultural presente na internet. As principais inteligências artificiais desse tipo no mercado são ChatGPT, Claude AI, Gemini, Meta AI e Grok, produzidas, respectivamente, pelas empresas estadunidenses OpenAI, Anthropic, Alphabet/Google, Meta e xAI, além da chinesa DeepSeek, que gerou grande abalo nesse setor com seu lançamento. Elas têm em comum sua disponibilização gratuita para o usuário, ainda que essas versões apresentem limitação em relação às contas pagas, com exceção da DeepSeek, que é gratuita e de fonte aberta. Inteligências artificiais generativas são, grosso modo, softwares capazes de processar dados e, a partir da simulação de redes neurais, gerar respostas novas em texto, áudio, imagem e vídeo.

    No dia 26 de dezembro de 2024, a startup chinesa DeepSeek, de Hangzhou, gerou repercussão global ao lançar o DeepSeek V3. A ferramenta, que desafia gigantes norte-americanos como OpenAI/Microsoft e Meta, tem 671 bilhões de parâmetros (Vidal, 2025) e está entre os maiores modelos de IA do mundo. A ampliação das capacidades de processamento e armazenamento de dados permitiu a evolução das primeiras tecnologias baseadas em aprendizado de máquina, capazes apenas de classificar e diferenciar dados. No entanto, as IAs de tipo generativo podem combinar as informações presentes na base de dados e oferecer respostas novas.

    Embora vivamos recentemente momentos de grande alarme e excitação com os avanços da IA, sobretudo a IA generativa, a história do conceito e suas práticas têm mais de 70 anos. Com o avanço das tecnologias de informação e comunicação (TICs) diante do contexto de crise e reestruturação das forças produtivas, na década de 1970, se criam condições para um novo período de desenvolvimento da IA, das plataformas e da plataformização. Se nos anos 1970 e 1980 há intervalos conhecidos na literatura como “inverno de IA” (Russell; Norvig, 2016), a partir dos anos 1990 são criadas as bases tecnológicas que possibilitam o avanço da IA nos anos 2000, com destaque para o crescimento de big data, entrelaçado com o surgimento e evolução das plataformas de mídias sociais. Todo esse processo ocorre em meio às contradições e disputas por hegemonia entre os Estados hegemônicos e a concorrência dos capitais individuais, sobretudo as big techs. O nome inteligência artificial surgiu seis anos após a publicação de um emblemático artigo de Alan Turing, “Computer machinery and intelligence” (computadores e inteligência), na revista de filosofia Mind, quando um grupo de cientistas liderado pelo matemático John McCarthy, no Dartmouth College, em New Hampshire (EUA), se propôs a investigar como as máquinas poderiam simular a inteligência humana. Foi durante esses workshops acadêmicos que o nome inteligência artificial foi criado. Uma premissa fundamental é que seria possível emular o pensamento humano por meio de técnicas matemáticas, resolvendo problemas por meio de algoritmos (Verdegem, 2021).

    + Notas sobre plataformas digitais, economia de dados e inteligência artificial

    Bolaño (2024) argumenta que há um intervalo inicial entre a emergência dos fenômenos, a articulação ao pensamento que os justifica e a manifestação do pensamento crítico. Essa assincronia entre emergência dos fenômenos, integração entre processos e pensamento e mobilização do pensamento crítico pode ser dirimida se o conhecimento crítico estiver calcado em método e recursos que possibilitem desvelar as contradições intrínsecas e características do desenvolvimento capitalista e das forças produtivas. Desse modo, embora a entrada do pensamento crítico e marxista seja recente no campo da IA, é possível mobilizar massa crítica aperfeiçoada nos últimos dois séculos para ir além da reprodução de aspectos negativos ou tecnologicamente ufanistas da realidade aparente, duas faces ideológicas da IA.

    Interessa-nos neste trabalho a categoria valor de uso, para correlacioná-la aos movimentos das big techs em concorrência pela tecnologia da IA generativa. Para tanto, vamos desenvolver essa categoria e a sua aplicação em um contexto de mercadoria cultural. São as interações entre as diferentes unidades do capital que criam as condições para o capital total, por isso a concorrência é o nível executor das leis imanentes da produção capitalista. Bolaño (2000) afirma que a otimização das performances é uma contrapartida do sistema de concorrência, no qual o desenvolvimento técnico e científico está submetido às exigências de acumulação do capital. Nesse processo, a informação exerce um papel central tanto no processo de trabalho e suas formas de controle, para a garantia de vantagens competitivas em contexto de concorrência, como na perspectiva do Estado, que carece de conhecimento e informação como recursos legitimadores de sua dominação. O autor argumenta que o Estado cumpre as funções de um capitalista coletivo ideal, atuando diferentemente do mercado, pois seu propósito não é a produção de mais-valor, mas a contínua produção de mais- valor pelas unidades individuais produtivas de capital em concorrência. Em suma, a expansão capitalista “provoca e exige o desenvolvimento da informatização” (Bolaño, 2000, p. 39).

    Quando Bolaño (2000) utiliza o método da derivação das formas, a partir do debate alemão sobre a derivação do Estado (Bonnet; Piva, 2017), para entender a forma comunicação na sociedade capitalista, aplicando-o à mídia de massa da época, ele observa que a comunicação exerce três funções: publicidade, propaganda e programa. A derivação realizada por Bolaño (2015a) desvela as contradições imanentes da forma cultura em relações sociais capitalistas, em que a categoria informação é a forma mais simples e geral nessa análise, carregando em si a contradição geral da indústria cultural e suas funcionalidades: a publicidade e a propaganda. Bolaño também argumenta que a derivação lógica da informação lida com a necessidade de duas aproximações em paralelo: a derivação da informação para a definição de suas contradições imanentes e a compreensão das formas históricas em que se materializam essas contradições: a esfera pública burguesa e a indústria cultural, forma cultural característica do capitalismo monopolista. A necessidade de atender ao interesse do próprio público por valores de uso define a terceira função da indústria cultural, o programa, que possibilita o debate sobre mediação em relação a uma “dialética entre sistema e mundo da vida”, conforme os termos habermasianos utilizados por Bolaño (2000, p. 120). A função programa exerce justamente a função simbólica da mercadoria cultural, a função publicidade, relacionada aos capitais individuais, serve como vitrine para outras mercadorias e a função propaganda está relacionada ao domínio ideológico do sistema capitalista e, mais diretamente, ao Estado. Num contexto de comunicação digital via internet, Figueiredo e Bolaño (2017, p. 28) adicionam uma quarta função, a função interatividade, que cumpre em certa medida o propósito da função programa: oferecer valores de uso que causem interesse na maior audiência ou número de usuários possível:

    A diferença em relação à radiodifusão, em que o conteúdo é racionalmente organizado por meio de programação de rádio ou TV por um determinado (e poderoso) setor da equipe de mídia, é que as redes sociais tornam essa tarefa automática, organizando o conteúdo de acordo com a disposição do usuário, levando em consideração interações com outros usuários, empresas comerciais e perfis de outras organizações (Figueiredo; Bolaño, 2017, p.28, tradução nossa). 2

    Ao oferecer diferentes serviços ao usuário, a internet faz convergir valores de uso de vídeos, músicas, correios eletrônicos, buscadores, redes sociais e, agora, a inteligência artificial generativa. Esses valores de uso podem ser consumidos sob demanda, no tempo que o usuário bem entender ou em que estiver disponível. Isso significa que se diversificou, também, a produção da mercadoria audiência, adicionando qualidades ao seu valor de uso, pois o consumo das mercadorias simbólicas presentes no meio virtual deixa rastro dos usuários em forma de dados, os quais serão utilizados pelas plataformas com a finalidade de comercialização de espaço publicitário.Esse refinamento do conhecimento sobre a audiência é fator fundamental para a economia da internet.

    Este artigo apresenta resultados de pesquisa mais ampla, cujo objetivo principal foi compreender o ChatGPT e a IA generativa em geral a partir do marxismo e da economia política da comunicação (EPC) (Pfeil, 2024). Para a pesquisa mais ampla, foram selecionadas 86 reportagens, das quais 19 informaram sobre ações de concorrência das big techs no período de novembro de 2022 até dezembro de 2023. Para este artigo, atualizamos as notícias sobre a concorrência.

    Selecionamos 30 novas reportagens, de janeiro de 2024 até janeiro de 2025. Este artigo discute as características da concorrência pela mercadoria inteligência artificial generativa a partir das lentes do marxismo e da EPC, com foco no valor de uso dos chatbots das empresas que compõem o oligopólio da internet. Partindo do pressuposto de que as IAs generativas são mercadorias da indústria cultural, desenvolvemos o artigo a partir das especificidades da mercadoria cultural por marcos teóricos da EPC crítica, de tradição brasileira. Metodologicamente, utilizamos o método dialético e pesquisa documental a partir de reportagens jornalísticas que trazem dados factuais sobre a história recente da IA generativa e as relações de concorrência do setor.

    Leia o artigo completo

    Serviço

    Revista: Princípios (Qualis A3)

    ISSN: 1415-7888 | E-ISSN: 2675-6609

    Editora: Anita Garibaldi

    Número: 173

    Para ler a edição completa online: Clique aqui

    Adquira a versão impressa: Clique aqui

    André Pfeil, é mestre e doutorando em Comunicação Social pelo Programa de Pós- Graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense (PPGMC-UFF), com bolsa Capes. Membro do Grupo de Pesquisa em Economia Política da Comunicação e Hegemonia (Epocha).

    Pablo Nabarrete Bastos, é professor no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminese (UFF). Professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da UFF (do PPGMC-UFF). Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Líder do Epocha e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação Comunitária e Publicidade Social (Laccops). Pesquisador com projetos de pesquisa cujos resultados foram em parte apresentados neste artigo, financiado pelos seguintes editais: Programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE-Faperj), processo E-26/201.291/2021, período 2021- 2025; Programa de Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense, com vínculo em ICTs do estado do Rio de Janeiro — 2024, processo SEI-260003/004521/2025, período 2025-2028. Bolsista de Pós-Doutorado no Exterior (PDE) do CNPq, com período na Universidade de Westminster (2024), processo 441758/2023- 1. Bolsista de Produtividade (PQ) do CNPq, nível C, processo 310362/2025-3, período 2025-2028. E-mail: [email protected]

     

    Notas

    1  No original: “nor it is not only some kind of new industry, but actually it is a space for the convergence of all
    industrialized cultural production”.

    2 No original: “Unlike broadcasting where content is rationally organized via radio or TV programming by a certain (powerful) sector of the media staff, social media makes this task automatic, organizing content to the user's disposition, taking into account interactions with other users, business companies and other organizations profiles.”.

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