Fim de tarde de sexta-feira em Campinas (SP). Temperatura amena e clima agradável, em contraste com um janeiro de calor e chuvas intensas. Ao caminhar pela rua Delfino Cintra, na região central da cidade, uma casa colorida de arquitetura simples atraía a atenção de quem passava. Pessoas começaram a chegar e a se juntar na entrada do lugar. O letreiro na fachada anunciava: “Sede Cultural do PCdoB – Casa Augusto Buonicore“.
Uma homenagem justa, coerente e necessária. Augusto Buonicore, historiador formado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas e mestre em Política pela Universidade de Campinas (Unicamp), foi um respeitado intelectual e militante comunista que dedicou sua vida ao estudo da história e da teoria marxistas, contribuindo para a formação de quadros e dirigentes políticos do PCdoB e para o rigoroso estudo e análise da história do movimento comunista brasileiro. Falecido em março de 2020, Buonicore segue inspirando, com sua obra, sua postura e valores cultivados ao longo da vida, o sentido ético e político da militância comunista na luta de ideias.
Cheguei ao local acompanhado pelos amigos Célio Turino e Silvana Bragatto, contemporâneos de Buonicore no vibrante movimento estudantil de Campinas do final dos anos 1970 e início dos 1980. Fomos recebidos por Gustavo Petta, meu contemporâneo de militância estudantil, ex-presidente da UNE e atualmente vereador em Campinas pelo PCdoB. Logo na entrada, havia uma exposição com fotos e textos sobre a história do PCdoB na cidade. Célio Turino, reconhecido historiador, escritor e gestor cultural, idealizador dos Pontos de Cultura e do programa Cultura Viva, ex-secretário de Cultura de Campinas e do Ministério da Cultura, se reconheceu em algumas das imagens. Estava lá, então um jovem militante do PCdoB, dirigindo a mesa da conferência de João Amazonas no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas, numa das primeiras atividades públicas do dirigente comunista no país após o seu retorno do exílio, em 1979. [leia abaixo depoimento de Célio Turino sobre o episódio]
Com fotos e textos selecionados e elaborados por Augusto Buonicore, a linha do tempo da exposição atravessa a atuação do PCdoB na luta contra a ditadura e pelas liberdades democráticas, a atuação do partido no movimento sindical da cidade, na reconstrução e fortalecimento do movimento estudantil campineiro, onde atuaram quadros de várias gerações, e a presença nos movimentos populares por moradia, transporte, educação e serviços públicos de qualidade. A história de um partido militante, atuante pela base e profundamente enraizado nos territórios e na luta do povo.
Fomos adentrando e conhecendo melhor o espaço, enquanto ia chegando mais gente, ainda antes do início das atividades. A Casa Augusto Buonicore equilibra, na disposição dos espaços, ambientes para o exercício da atividade política do partido e espaços voltados para o funcionamento de uma “sede cultural do PCdoB”: salas de reuniões e escritórios convivendo com estúdio multimídia, colagens e intervenções artísticas nas paredes, um palco montado no quintal dos fundos e uma livraria improvisada na garagem. Reconhecemos, nesta disposição e aproveitamento dos espaços, características comuns a tantos Pontos de Cultura e espaços culturais espalhados pelo Brasil e pela América Latina, que reúnem e mobilizam a comunidade por meio da arte e da cultura, em uma perspectiva de transformação social.
Veja imagens da inauguração:
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Casas de Cultura e Memória: semeando uma rede nacional
A iniciativa dos camaradas de Campinas pode e deve florescer em outros jardins. No plano quadrienal que está sendo elaborado para orientar a atuação da Secretaria Nacional de Cultura do PCdoB, apresentamos a ideia da criação de “Casas de Cultura e Memória” do PCdoB em todos os lugares onde as condições permitam.
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As Casas de Cultura e Memória do PCdoB devem ser espaços de presença política, cultural e social do Partido, abertos à sociedade e enraizados nos territórios. É desejável que recebam o nome de figuras históricas relevantes do campo comunista, democrático, popular ou cultural, nacionais, internacionais ou locais, afirmando a valorização das referências históricas, a preservação da memória das lutas sociais e a pedagogia política junto à militância e à sociedade.
Esses espaços – que podem funcionar nas sedes do partido, mas também em espaços exclusivamente dedicados para esta finalidade – são, em sua essência, pontos de cultura de pequena e média escala. Biblioteca, cineclubismo, lançamentos de livros, leituras poéticas, pequenas encenações e um pequeno café ou bar, que ajudem na sustentabilidade, incentivem a sociabilidade e estimulem a convivência, o encontro e a socialização política. Cada Casa de Cultura e Memória pode ter todas essas características ou parte delas, de acordo com a realidade e as possibilidades de cada lugar. Articulando cultura, memória, formação e organização militante em uma Rede Nacional de Casas de Cultura e Memória, o PCdoB pode ampliar sua presença e enraizamento nos territórios, construindo vínculos orgânicos junto às comunidades. Cada “sede cultural do PCdoB” configura-se como um instrumento duradouro de mobilização social, divulgação de ideias, acolhimento e convivência.
Augusto Buonicore, presente!
Já era noite quando, após um breve ato político, dirigentes municipais do PCdoB de Campinas fizeram uma emocionante homenagem a Augusto Buonicore com a presença de sua esposa, Sônia, e sua filha Clara. Ao escrever este artigo, me deparei com um texto publicado pelo PCdoB em 28/07/2020, onde Sônia relata um desejo recorrente do marido Augusto: “A gente andava por Campinas e ele dizia: ‘Ah, se tivesse um dinheiro para a gente comprar essa casinha’, que ele via para vender ou alugar. ‘Isso daria um centro cultural. Nossa, se a gente pudesse comprar, se o Partido pudesse, comprava para fazer um centro cultural’. Ele tinha essa ideia.”
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+ Depoimento da professora Sônia Ferreira, companheira de Buonicore, à PCTV:
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Uma roda de samba sob a luz da lua encerrou a noite de homenagem, inauguração, emoção, e festa. Samba fincado nas raízes jongueiras, no samba de bumbo e nos tambores de aço das terras onde o Boi Falô. Uma noite que emanou o espírito e o afeto de Augusto Buonicore – presente! – que certamente estaria feliz e satisfeito ao se ver inspirando a criação deste espaço político-cultural. Nossas saudações, felicitações e agradecimentos aos camaradas de Campinas que, a partir desta iniciativa, dão um exemplo que pode ser seguido em todo o país.
Confira o relato de Célio Turino sobre sua participação na organização da Conferência de João Amazonas realizada no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas, em janeiro de 1980:
“Como eu trabalhava na prefeitura (gráfico na secretaria de cultura), fui eu quem fez a reserva do salão vermelho (auditório para 280 lugares, mas no dia do Amazonas havia 500). Daí, dias depois, eu fui procurado no trabalho por agentes do CIE (Centro de Informações do Exército) e só não me levaram para depor no quartel em Campinas, porque as mulheres da secretaria de cultura (minha mãe trabalhava lá) fizeram uma barreira impedindo que eu saísse do local. Foi um rebuliço, o então vice-prefeito, que também era secretário de cultura, Magalhães Teixeira (em 1982 foi eleito prefeito) intercedeu e impediu minha ida, alegando sobre minha pouca idade (eu tinha 18). Com isso aconteceu o meu primeiro fichamento nos órgãos de segurança da ditadura
Meu local de trabalho era ao lado da copa, nos fundos da secretaria, onde ficava a impressora e os papéis. O oficial do CIE foi direto ali, como a parede para a copa era vazada, foi uma senhora, não me recordo o nome, uma mulher negra, que escutou, chamou minha mãe e outras mulheres e elas se colocaram no corredor da secretaria impedindo que me levassem. Foi aí que o vice-prefeito intercedeu. Por sorte já era abertura, pós anistia. Alguns anos antes, outros foram levados e não voltaram mais.”
Alexandre Santini é presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa (MinC), gestor, produtor cultural e escritor. Mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF e doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV, integra o Grupo de Pesquisa Cultura & Sociedade, da Fundação Maurício Grabois. Foi secretário das Culturas de Niterói, diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer. É autor do livro Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.