Outubro de 1920. A Rússia revolucionária enfrenta guerra civil, fome, bloqueio imperialista. Lenin tem mil urgências. Mesmo assim, encontra tempo para discursar no III Congresso da União da Juventude Comunista.
O tema não era tático. Era estratégico.
Lenin sabia que revoluções se ganham ou se perdem na formação das novas gerações. Que o poder conquistado hoje pode ser retomado amanhã se a juventude não for preparada para sustentá-lo. Que a batalha mais difícil não é a tomada do Palácio de Inverno, mas a construção de uma nova consciência.
Um século depois, a pergunta permanece: quem está formando a juventude brasileira?
A tarefa se resume em uma palavra
Lenin foi direto. Perguntou aos jovens comunistas qual deveria ser sua tarefa fundamental. E respondeu com uma palavra só: aprender.
Soa simples. Não é.
Lenin não falava de decorar manuais. Não falava de repetir palavras de ordem. Falava de dominar criticamente todo o conhecimento que a humanidade acumulou. De apropriar-se da cultura burguesa para superá-la. De conhecer o inimigo melhor que ele conhece a si mesmo.
Escreveu Lenin que seria um erro pensar que basta assimilar as palavras de ordem comunistas, as conclusões da ciência comunista, sem assimilar a soma de conhecimentos de que o próprio comunismo é consequência. O marxismo é exemplo de como o comunismo surgiu da soma dos conhecimentos humanos.
Releia.
Lenin exigia que os jovens comunistas dominassem matemática, física, química, história, filosofia. Não por erudição vazia, mas porque sem esse domínio não se compreende o capitalismo, não se decifra sua lógica, não se constrói alternativa viável.
Era implacável contra o que chamava de presunção comunista. O jovem que se contenta com fórmulas prontas, que repete jargões sem entendê-los, que substitui o estudo sério pela agitação superficial. Esse jovem, dizia Lenin, não será comunista. Será papagaio.
Quantos papagaios temos formado?
A escola como trincheira
Da prisão fascista, Antonio Gramsci aprofundou o problema. Nos Cadernos do Cárcere, denunciou uma armadilha que permanece atual: a divisão entre escola clássica para os filhos da burguesia e escola profissionalizante para os filhos dos trabalhadores.
Aparente democratização. Real perpetuação da divisão de classes.
A escola clássica formava dirigentes. Ensinava a pensar, a argumentar, a comandar. A escola profissionalizante formava executores. Ensinava a obedecer, a operar máquinas, a aceitar ordens. Duas escolas. Dois destinos. Uma única função: reproduzir a estrutura de classes.
Gramsci propunha a escola unitária. Formação que integrasse trabalho manual e intelectual. Que preparasse todo jovem para ser, simultaneamente, dirigente e produtor. Que não separasse os que pensam dos que fazem.
Mas Gramsci foi além. Percebeu que a escola não é o único aparelho de formação. Que a família, a Igreja, os jornais, os partidos também educam. Que toda relação de hegemonia é, fundamentalmente, uma relação pedagógica.
Quem ensina forma consciências. Quem forma consciências disputa o poder.
A pergunta gramsciana para o nosso tempo: quem são os educadores hegemônicos do século XXI?
O algoritmo como pedagogo
Um jovem brasileiro passa, em média, mais de sete horas por dia diante de telas. Mais tempo que na escola. Mais tempo que com a família. Mais tempo que em qualquer outra atividade, exceto dormir.
O que ele aprende nessas sete horas?
Aprende que o sucesso é individual. Que a precariedade é empreendedorismo. Que a exploração é oportunidade. Que ele não é trabalhador, é marca pessoal. Que não precisa de sindicato, precisa de coach. Que não precisa de partido, precisa de influenciador.
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O TikTok “ensina” mais que o MEC. O YouTube “forma” mais que a universidade. O Instagram “educa” mais que qualquer professor.
Gramsci chamaria isso de hegemonia. Eu chamo de colonialismo digital.
Em meu livro Direito à Realidade, desenvolvo o conceito de câmara escura digital. Na Ideologia Alemã, Marx usou a metáfora da câmara escura para explicar como a ideologia inverte a realidade, fazendo as relações sociais parecerem naturais, eternas, inevitáveis. O algoritmo faz o mesmo, só que em escala industrial e velocidade instantânea.
O jovem que passa sete horas no feed não está apenas consumindo conteúdo. Está sendo formado. Está internalizando uma visão de mundo. Está aprendendo, no sentido mais profundo que Lenin dava à palavra.
Só que aprendendo o quê?
Intelectuais orgânicos do capital
Gramsci distinguia dois tipos de intelectuais. Os tradicionais, que se apresentam como independentes, acima das classes, guardiães de uma cultura universal. E os orgânicos, que nascem junto com uma classe social e trabalham para dar-lhe consciência e coesão.
Os influenciadores digitais são intelectuais orgânicos do capital financeiro globalizado.
Não parecem. Parecem espontâneos, autênticos, próximos. Parecem gente como a gente que deu certo. Mas são, objetivamente, aparelhos de produção ideológica. Vendem um modo de vida. Naturalizam a precariedade. Glamourizam a exploração.
O jovem entregador que pedala doze horas por dia não se reconhece como trabalhador explorado. Reconhece-se como empreendedor em ascensão. Não sonha com direitos trabalhistas. Sonha em virar influenciador. Não quer carteira assinada. Quer monetizar.
Isso não é falsa consciência no sentido clássico. É consciência algoritmicamente produzida. Consciência cultivada por sistemas que conhecem os desejos do jovem melhor que ele próprio, que sabem exatamente qual conteúdo servir para mantê-lo engajado, conformado, esperançoso de um sucesso individual que estatisticamente jamais virá.
Lenin alertou contra quem substitui o estudo sério pela agitação superficial. O que diria dos jovens que substituem a formação política pelo consumo de reels?
A disputa que importa
Não se trata de demonizar a tecnologia. Trata-se de disputá-la.
Lenin falava aos jovens de 1920 sobre dominar a técnica para colocá-la a serviço da revolução. A eletricidade não era burguesa nem proletária. Era instrumento que poderia servir a qualquer classe, dependendo de quem a controlasse.
O mesmo vale para o algoritmo.
A tarefa da juventude comunista no século XXI é, primeiro, decifrar o código. Entender como funcionam os sistemas que a governam. Compreender por que vê o que vê, por que deseja o que deseja, por que sonha os sonhos que sonha. Alfabetização algorítmica como condição de autonomia.
Segundo, produzir contra-hegemonia. Usar as mesmas plataformas para disseminar outra visão de mundo. Não com a ingenuidade de quem acha que basta estar presente, mas com a astúcia gramsciana de quem sabe que a guerra de posição se trava em todos os terrenos.
Terceiro, construir alternativas. Redes próprias. Plataformas cooperativas. Infraestruturas digitais sob controle social. Soberania tecnológica como dimensão da soberania nacional.
Lenin disse aos jovens de 1920 que sua tarefa era construir a sociedade comunista. Nós diríamos: sua tarefa é hackear a matriz.
Os clássicos não escreveram para serem citados em congressos. Escreveram para serem usados como armas.
Lenin ensinou que aprender é a tarefa fundamental. Gramsci mostrou que toda hegemonia é pedagógica. Juntos, nos dão as ferramentas para entender a disputa pela consciência juvenil na era algorítmica.
O jovem de 1920 enfrentava a escola burguesa, a Igreja, a imprensa capitalista. O jovem de 2026 enfrenta tudo isso mais o algoritmo. Mais a câmara escura digital. Mais um sistema de modulação comportamental que opera em escala planetária, velocidade instantânea e precisão cirúrgica.
A tarefa é maior.
A urgência também.
Lenin perguntou aos jovens de seu tempo: vocês estão dispostos a aprender? A pergunta permanece. Só que agora aprender inclui decifrar algoritmos, desmontar narrativas hegemônicas, construir soberania tecnológica.
Quem controla a formação da juventude controla o futuro.
Hoje, quem controla é o algoritmo.
Amanhã, pode ser diferente.
Depende de quem aprender primeiro.
Percival Henriques de Souza Neto é físico, jurista, conselheiro do CGI.br há 14 anos, presidente da ANID e membro do Comitê Nacional de Cibersegurança. Autor de Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil (Editora Publius, 2025).
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.