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    China

    Combate à pobreza na China socialista e o papel do Estado

    Experiência chinesa mostra como planejamento estatal, coordenação política e ação territorial estruturada permitiram enfrentar a pobreza extrema de forma sistêmica e duradoura

    POR: Isis Paris Maia

    5 min de leitura

    Moradoras da vila de Yuhu, na província de Yunnan, participam de atividade produtiva comunitária voltada à geração de renda local, como parte do processo de superação da pobreza nas áreas rurais da China. Foto: Xinhua/Wang Guansen
    Moradoras da vila de Yuhu, na província de Yunnan, participam de atividade produtiva comunitária voltada à geração de renda local, como parte do processo de superação da pobreza nas áreas rurais da China. Foto: Xinhua/Wang Guansen

    Combate à pobreza e projeto de sociedade: lições da experiência chinesa

    A erradicação da pobreza extrema na China, anunciada oficialmente em 2020 após a retirada de cerca de 850 milhões de pessoas dessa condição ao longo de quatro décadas, constitui um dos fenômenos sociais mais relevantes do nosso tempo. Trata-se da maior experiência contemporânea de mobilidade social já registrada, com impactos profundos sobre a estrutura social, territorial e produtiva do país. Ainda assim, esse processo permanece sistematicamente invisibilizado, relativizado ou distorcido no debate público ocidental.

    + Inscreva-se: Webinar debate políticas de combate à pobreza na China socialista

    Ao contrário da narrativa dominante, a experiência chinesa demonstra que o enfrentamento estrutural da pobreza não é resultado automático do crescimento econômico, nem da liberalização dos mercados. Ele foi conduzido como um projeto político consciente, sustentado por planejamento estatal, mobilização institucional e forte coordenação entre diferentes níveis de governo. O combate à pobreza foi tratado como tarefa política central, com metas definidas, sistema de responsabilidades e presença ativa do Estado nos territórios mais vulneráveis.

    Nesse contexto, a erradicação da pobreza extrema foi incorporada como objetivo prioritário do 13º Plano Quinquenal (2016–2020), convertendo-se em diretriz nacional obrigatória. Esse processo foi coordenado diretamente pelo Partido Comunista Chinês, o Conselho de Estado e os governos subnacionais, articulando centralização estratégica com ampla descentralização administrativa. A implementação das políticas combinou redistribuição de renda, desenvolvimento produtivo, investimentos em infraestrutura, habitação, educação e saúde, além de políticas de reordenamento territorial e desenvolvimento regional, operando por meio de arranjos intersetoriais e intergovernamentais que alcançaram o nível das aldeias, famílias e indivíduos.

    + Resenha: Mais perto do céu: a jornada de um nômade internacional acompanhando a campanha de redução da pobreza na China, Erik Nilsson

    Um elemento decisivo dessa estratégia foi o uso de Big Data e plataformas digitais como instrumentos de política pública. Bases de dados integradas permitiram mapear famílias, identificar causas específicas da pobreza, monitorar resultados em tempo real e ajustar continuamente as políticas. Esse sistema viabilizou a implementação das Políticas Públicas Direcionadas (PPD), orientadas pelo princípio da “precisão”, voltadas a responder ao “quem, onde, por que e como” da pobreza, superando abordagens genéricas e permitindo intervenções calibradas segundo as condições locais.

    É justamente esse conjunto de escolhas políticas e institucionais que entra em choque com o pensamento neoliberal. Diferentemente das abordagens compensatórias e focalizadas difundidas por organismos internacionais desde os anos 1990, a experiência chinesa não naturalizou a pobreza nem a reduziu a um problema individual. Ao contrário, tratou-a como fenômeno social e territorial, a ser enfrentado coletivamente por meio do fortalecimento das capacidades estatais. Admitir o sucesso desse processo implica reconhecer os limites históricos do neoliberalismo, cujas promessas de eficiência, prosperidade e inclusão fracassaram inclusive nos países centrais, aprofundando desigualdades e precarizando a vida da classe trabalhadora.

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    Trata-se, portanto, de uma disputa ideológica e civilizatória sobre o papel do Estado, do planejamento e da política na organização da vida social.

    Nesse sentido, o seminário promovido pelo  Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach), intitulado “O Combate à Pobreza na China Socialista”, propõe um debate crítico e estratégico sobre pobreza, desenvolvimento e soberania. Partindo da experiência chinesa não como modelo a ser copiado mecanicamente, mas como referência concreta de que alternativas ao neoliberalismo são possíveis, viáveis e historicamente situadas, o seminário busca analisar os mecanismos institucionais, os arranjos verticais de implementação das políticas públicas e o papel dirigente do Partido Comunista Chinês. Em um contexto de crise do capitalismo global, recolocar a pobreza no centro da luta política exige recuperar a noção de projeto nacional, planejamento democrático e reconstrução das capacidades estatais, articulando esse debate à luta socialista no século XXI.

    Serviço

    Webinar: O combate à pobreza na China socialista
    Data: 10/02 às 19h na TV Grabois
    Expositores: Elias Jabbour, Isis Paris Maia e Ricardo Abreu Alemão
    Comentários: Humberto Matos e Euzébio Jorge
    Mediação: Rosanita Campos
    Como participar: faça sua inscrição gratuita neste link.


    Isis Paris Maia é historiadora, mestre e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professora colaboradora do GEChina-UnB e diretora de Políticas Públicas do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Se dedica a compreensão da governança chinesa e suas instituições.

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pela autora não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.