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    Economia

    Invertendo o paradigma: salários altos como alavanca da complexidade econômica

    Crítica a artigo do economista Paulo Gala que inverte a lógica dominante e recoloca a distribuição de renda e o mercado interno no centro do debate sobre desenvolvimento

    POR: Miguel Manso

    18 min de leitura

    Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). Foto: Ana Volpe/Agência Senado
    Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). Foto: Ana Volpe/Agência Senado

    O artigo do economista Paulo Gala, O Verdadeiro Desafio do Brasil: Construir uma Economia Complexa para Pagar Salários Mais Altos, sintetiza com clareza um “consenso” entre economistas estruturalistas ou neo-estruturalistas do mercado e do pensamento da “economia da complexidade”.

    Por que a proposta de Paulo Gala coloca o carro na frente dos bois – não resiste à crítica dos pós-keynesianos – e como uma visão marxista aponta o caminho verdadeiramente inovador é o tema deste artigo.

    O diagnóstico é parcial, mas valioso: o Brasil está preso em uma teia de baixa complexidade, exportando commodities e produtos de baixo valor agregado, o que limita estruturalmente o potencial de renda da população.

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    Sua tese, nem tanto. Resumida de forma crua, é: aumente a sofisticação produtiva (complexidade) e os altos salários virão como resultado natural.

    No entanto, é precisamente no sequenciamento lógico e no mecanismo causal proposto que reside uma falha de perspectiva.

    Este artigo propõe uma inversão radical e fundamentada histórica e cientificamente: não é a complexidade que gera altos salários; são salários mais altos e uma massa assalariada robusta que criam as condições de demanda, pressão e investimento necessárias para germinar e sustentar uma economia complexa. Colocamos, assim, a luta social pela distribuição de renda e o poder de consumo no centro da estratégia de desenvolvimento.

    O erro do “supply-side” estruturalista: complexidade como fim, não como processo social

    A visão tradicional, da qual Gala é um dos expoentes, opera numa lógica essencialmente supply-side (do lado da oferta).

    A sequência é:

    1. Política industrial e inovação → 2. Aumento da complexidade e produtividade → 3. Ganhos de lucro e produtividade → 4. Derramamento (trickle-down) para salários.

    Este modelo não resiste às críticas dos economistas pós-keynesianos:

    A) A teoria da demanda efetiva (pós-keynesiana): economistas como Michal Kalecki e Joan Robinson demonstraram que, em economias monetárias, é a demanda agregada que impulsiona o investimento e o crescimento, não o contrário. Uma base salarial deprimida, como a brasileira, gera uma demanda crônica por produtos baratos e de baixa qualidade, perpetuando um ciclo de baixo investimento em inovação. Por que uma empresa investiria em P&D para produzir bens sofisticados se o mercado interno não tem poder de compra para adquiri-los? A complexidade não surge no vácuo; ela responde a uma realidade social e de mercado interno.

    B) Aprendizado e upgrading tecnológico induzido pela pressão de custo (economia evolucionária): o trabalho de economistas como Ha-Joon Chang mostra que saltos tecnológicos frequentemente são induzidos por pressões internas, incluindo a pressão salarial. Salários em ascensão forçam as empresas a buscarem ganhos de produtividade via inovação e automação para manter a rentabilidade. É a corrida para se manter competitivo diante de custos trabalhistas mais altos que acelera a adoção de tecnologias complexas. Países que congelaram salários em nome da competitividade (via desvalorização cambial, por exemplo) frequentemente ficam presos em segmentos de baixo valor agregado.

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    A Crítica Fundamental: O Processo Ignorado

    A crítica a esta visão, apresentada no artigo de Paulo Gala, aponta que ela comete um erro de sequenciamento lógico e ignora o caráter dialético e social do desenvolvimento. Eis os pontos centrais da crítica:

    1. O fetichismo do índice: confundir o mapa com o território

    A abordagem trata a complexidade como um atributo técnico que pode ser implantado via políticas setoriais. Ignora que a complexidade é, na verdade, a expressão fenomênica de um ecossistema social e institucional maduro:

    • Demanda sofisticada: Consumidores exigentes que forçam a inovação.
    • Instituições de cooperação: Confiança, contratos, colaboração universidade-empresa.
    • Arranjos distributivos: Pactos sociais que garantem que os ganhos de produtividade se convertam em expansão da renda para a maioria e do mercado interno.

    Buscar o índice sem construir o ecossistema é como querer frutos sem plantar a árvore.

    2. A falácia da “oferta que cria sua própria demanda” (Say estruturalista)

    O modelo supõe, implicitamente, uma versão estrutural da Lei de Say: produtos complexos, uma vez produzidos, encontrarão mercados. A realidade é mais cruel:

    • Mercado Interno Subdesenvolvido: Sem poder de compra, a indústria complexa depende totalmente da volátil demanda externa.
    • Armadilha da Competitividade: Para exportar bens complexos contra concorrentes estabelecidos (Alemanha, Coreia, China), o país precisa manter custos (incluindo salários) baixos, perpetuando a renda média baixa e, portanto, o mercado interno frágil. É o paradoxo: busca-se complexidade para pagar altos salários, mas o caminho escolhido (competição via custo) impede o aumento dos salários.

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    3. O desprezo pela demanda como motor do aprendizado (a lição de Kaldor e Verdoorn)

    Economistas pós-keynesianos como Nicholas Kaldor demonstraram a existência de rendimentos crescentes de escala dinâmicos (Lei de Kaldor-Verdoorn): quanto mais você produz, mais aprende, e mais produtivo se torna. O crescimento da demanda (especialmente interna) é o combustível desse processo de aprendizado.

    • Mercado garantido permite experimentação, correção de erros e ganho de escala.
    • Pressão salarial ascendente força a busca por inovação poupadora de trabalho.

    O Supply-Side Estruturalista inverte esta lógica: quer primeiro implantar a capacidade produtiva sofisticada, esperando que depois a demanda apareça. É uma estratégia de alto risco, pois o investimento em complexidade é caro e só se paga com altos volumes de venda.

    4. A neutralidade política ilusória: quem paga a conta?

    A agenda é apresentada como um projeto técnico-nacional (“vamos tornar o Brasil complexo”). Ela escamoteia o conflito distributivo imediato:

    • Os recursos para subsidiar a complexidade vêm de impostos ou cortes em outras áreas (como programas sociais).
    • A prioridade ao investimento em setores de elite tecnológica pode significar postergação de aumentos generalizados de salários e consumo popular.
    • É uma estratégia que pede sacrifício presente (consumo contido, salários moderados) por uma promessa futura de prosperidade.

    Historicamente, estratégias assim só funcionaram sob regimes autoritários (Coreia do Sul nos anos 70) ou com um Estado extremamente planejador e poupador (China), capazes de forçar a poupança e PLANEJAR as demandas distributivas por décadas.

    5. O que realmente importa: relações sociais, não atributos técnicos

    Para Marx, o desenvolvimento não se mede pela sofisticação técnica dos produtos (complexidade), mas pelas relações sociais que regem a produção:

    • Quem controla os meios de produção? (propriedade privada vs. social)
    • Como se dá a extração do sobretrabalho? (mais-valia absoluta vs. relativa)
    • Qual a natureza da divisão social do trabalho? (alienação vs. emancipação)

    Uma economia pode ser tecnicamente “complexa” (produzir microchips, foguetes, medicamentos de ponta) e ainda ser profundamente exploradora, alienante e injusta. A Coreia do Sul nos anos 1980, com sua indústria pesada complexa sob ditadura militar e superexploração trabalhista, seria o exemplo perfeito dessa contradição.

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    6. A lei do valor e a complexidade como expressão da mais-valia relativa

    Marx distingue dois caminhos para a acumulação capitalista:

    • Mais-valia absoluta: Prolongar a jornada, intensificar o trabalho
    • Mais-valia relativa: Aumentar a produtividade via inovação tecnológica

    A “complexidade” moderna é, em grande parte, a expressão material da busca por mais-valia relativa. O desenvolvimento tecnológico não é um fim social, mas uma arma na concorrência intercapitalista e na luta de classes:

    • Para o capitalista individual: Inovar significa obter lucros extraordinários (até que a inovação se generalize)
    • Para a classe capitalista como um todo: Aumentar a produtividade permite produzir os meios de subsistência dos trabalhadores em menos tempo, reduzindo o valor da força de trabalho e aumentando a taxa de exploração

    Portanto, o impulso para a complexidade é inerente à lógica do capital, não uma escolha política benevolente. É um movimento contraditório que, ao mesmo tempo que desenvolve as forças produtivas, aprofunda a exploração e prepara crises de superprodução.

    7. A contradição fundamental: desenvolvimento das forças produtivas × relações de produção

    Esta é a contribuição central de Marx: o capitalismo desenvolve forças produtivas (tecnologia, conhecimento, organização do trabalho) a níveis sem precedentes, mas dentro de relações de produção (propriedade privada, produção para o lucro) que se tornam cada vez mais uma camisa de força.

    A “economia complexa” representa o ápice dessa contradição:

    • Forças produtivas altamente socializadas: Produção requer cooperação global, conhecimento acumulado da humanidade, infraestrutura coletiva
    • Apropriação radicalmente privada e monopolizada: Os frutos dessa produção social são apropriados por uma minúscula classe de proprietários

    A obsessão moderna com índices de complexidade mede apenas o primeiro aspecto (forças produtivas) enquanto ignora completamente o segundo (relações de produção).

    8. O caráter de classe do desenvolvimento capitalista

    Para Marx, o “desenvolvimento” capitalista tem um caráter antagônico e desigual:

    Desenvolvimento e subdesenvolvimento são dois lados da mesma moeda: A riqueza do centro industrializado se baseia na exploração da periferia (conceito que influenciaria depois os teóricos da dependência)

    Progresso técnico significa regressão social: A fábrica automatizada (alta complexidade) desemprega milhares, intensifica a vigilância sobre os trabalhadores restantes e concentra riqueza

    A riqueza abstrata (valor) domina a riqueza concreta (valor de uso): Produzimos cada vez mais coisas sofisticadas, mas não para satisfazer necessidades humanas, e sim para acumular capital

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    9. A verdadeira medida do progresso: emancipação humana, não complexidade técnica

    Para Marx, a única medida significativa do progresso é o grau de emancipação humana:

    • Redução da jornada de trabalho (tempo livre para desenvolvimento pessoal)
    • Superação da divisão alienante do trabalho (fim da separação entre trabalho manual e intelectual)
    • Controle democrático dos meios de produção pelos próprios produtores

    Satisfação das necessidades humanas genuínas, não da acumulação por acumulação

    Sob esta ótica, uma sociedade que produz bens “simples” mas garante essas condições é mais desenvolvida que uma sociedade tecnicamente complexa baseada na exploração.

    A crítica marxista ao debate brasileiro

    Aplicando esta perspectiva ao debate brasileiro sobre complexidade e salários:

    1. A “complexidade” como projeto de elite: O discurso da complexidade é frequentemente apropriado pelas elites tecnocráticas e empresariais como justificativa para postergar demandas distributivas (“primeiro vamos nos tornar complexos, depois pagamos bem”)
    2. O falso dilema: A oposição entre “primeiro complexidade” (Gala) e “primeiro salários” (crítica) é, para Marx, falsa no capitalismo. No capitalismo, aumentos salariais conjunturais são possíveis, mas sempre limitados pela necessidade de manter a taxa de lucro. A verdadeira solução requer mudar o sistema, não apenas ajustar sua política econômica.
    3. O caso brasileiro como expressão da periferia capitalista: O Brasil não é um país “atrasado” que precisa “se desenvolver” – ele é perfeitamente desenvolvido como economia capitalista periférica. Sua falta de complexidade em certos setores e sua desigualdade extrema são resultados necessários de sua inserção no sistema mundial capitalista.
    4. A armadilha da “modernização conservadora”: Buscar complexidade sem alterar relações de propriedade reproduz o modelo de modernização conservadora – desenvolvimento técnico acompanhado de concentração de renda, autoritarismo e superexploração

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    Conclusão: para além do fetichismo da complexidade

    Para Marx, a questão não é “como construir uma economia complexa” mas “complexidade para quê e para quem?”

    • Sob o capitalismo, a complexidade serve à acumulação de capital, gerando contradições cada vez mais agudas
    • Sob o socialismo (como Marx o entendia), o desenvolvimento técnico serviria à redução do trabalho necessário e ao florescimento humano

    A verdadeira lição marxista para o debate atual é: antes de discutirmos políticas para aumentar a complexidade, devemos discutir poder – quem decide o que produzir, como produzir e para quem produzir. A sofisticação produtiva, desvinculada de um projeto de emancipação social, é apenas uma forma mais avançada de escravidão assalariada.

    Portanto, a pergunta marxista fundamental seria: Uma economia complexa sob relações capitalistas de produção representa um avanço ou um aprofundamento das contradições que levarão à sua própria superação?

    A resposta de Marx seria dialética: ambas as coisas. O capitalismo desenvolve a complexidade como necessidade de sua acumulação, mas ao fazê-lo, cria as condições materiais (indústria avançada, trabalhadores qualificados, interdependência global) e as contradições sociais (exploração intensificada, crises, consciência de classe) que tornam possível e necessária sua transição para um modo de produção superior.

    A tarefa revolucionária não seria, portanto, “construir complexidade” dentro do capitalismo, mas apropriar-se democraticamente da complexidade já desenvolvida e colocá-la a serviço das necessidades humanas.

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    Complexidade como processo social

    A crítica ao “Supply-Side Estruturalista” não é uma defesa do atraso ou uma rejeição da complexidade. Pelo contrário, é uma defesa de uma rota mais realista e socialmente sustentável para alcançá-la.

    A complexidade econômica não é um fim a ser alcançado por decreto técnico. É um processo que emerge da interação dialética entre:

    • Capacidade produtiva crescente (oferta)
    • Mercado interno em expansão e sofisticado (demanda)
    • Instituições que mediam conflitos e promovem aprendizado
    • Distribuição de renda que alimenta o ciclo virtuoso

    A verdadeira lição do desenvolvimento bem-sucedido (EUA no pós-guerra, Alemanha, Coreia após a democratização) não é “primeiro complexificar, depois distribuir”. É distribuir para complexificar: usar o poder de compra dos trabalhadores, a demanda do Estado e os desafios sociais para induzir e financiar a inovação e a sofisticação produtiva.

    O “Supply-Side Estruturalista”, ao colocar a complexidade como um fim em si, desconectado do tecido social que a produz, corre o risco de construir ilhas de excelência tecnológica em um oceano de estagnação social – um diagnóstico que, infelizmente, já se aplica a partes significativas da economia brasileira. A alternativa é reconhecer que construir uma economia complexa é, antes de tudo, um processo político de construção de um pacto social que vincule, desde o início, produtividade e prosperidade compartilhada.

    A tese da inversão: salários como propulsor da complexidade

    A sequência causal alternativa, baseada em evidências reais históricas e nas correntes teóricas citadas, é:

    1. Elevação coordenada de salários e da renda interna (via políticas de valorização do salário mínimo, fortalecimento de sindicatos, distribuição de dividendos, e programas de transferência de renda que criem um “piso” de consumo).
    2. Expansão e sofisticação do mercado interno: Uma massa de renda maior e mais estável demanda não apenas mais bens, mas bens melhores, duráveis e diferenciados (eletrodomésticos eficientes, eletrônicos, serviços de saúde e educação de qualidade, alimentos processados sofisticados). Esta demanda previsível e em ascensão reduz o risco do investimento privado.
    3. Investimento induzido em inovação e complexidade: Para atender a essa demanda mais exigente e garantir margens de lucro, as empresas são forçadas a investir em: melhor design, engenharia, logística eficiente, qualificação da força de trabalho e, finalmente, em P&D. A complexidade emerge como uma resposta estratégica à dinâmica do mercado interno.
    4. Consolidação de um círculo virtuoso: Maior produtividade sustenta os salários mais altos, que por sua vez renovam e aprofundam a demanda por sofisticação, alimentando um ciclo contínuo de upgrading. A competitividade internacional deixa de se basear no “preço baixo” para se basear na “qualidade e inovação”.

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    Evidências e casos: a história invertida

    • Alemanha e países nórdicos: Suas indústrias de alto valor agregado se desenvolveram em paralelo com fortes instituições de regulação do trabalho, sindicatos poderosos e pactos sociais que garantiram a participação dos trabalhadores nos ganhos de produtividade. A complexidade e os altos salários co-evoluíram, com a demanda interna robusta sendo um laboratório essencial.
    • Coreia do Sul (na fase de aceleração): O “milagre” coreano foi acompanhado por uma repressão inicial a sindicatos, mas também por uma reforma agrária massiva nos anos 1950 que aumentou brutalmente o poder de compra rural, criando um mercado inicial para indústrias leves. Posteriormente, a pressão por democracia e melhores condições trabalhistas forçou a transição para indústrias de maior tecnologia.
    • Experiência Brasileira Recente: O período de 2004-2014, com a valorização real do salário mínimo e a expansão do crédito ao consumo, demonstrou este mecanismo na prática. O mercado interno explodiu, e setores como construção civil, automóveis, eletrodomésticos e alimentos processados investiram pesado em capacidade e, em certa medida, em inovação para atender a milhões de novos consumidores. O erro não foi a lógica da demanda, mas a falta de políticas complementares para canalizar esse investimento para ganhos de produtividade de longo prazo e diversificação exportadora.

    Conclusão e implicações de política: um novo paradigma para o Brasil

    A proposta de Paulo Gala, embora bem-intencionada, corre o risco de propor uma jornada sem mapa e sem motor. A “construção de uma economia complexa” soa como um projeto de elite tecnocrática, desconectado da dinâmica social.

    A inversão que propomos coloca o povo brasileiro – seu poder de consumo e suas aspirações – no comando do processo. As políticas derivadas são distintas:

    • Foco em distribuição de renda: Valorização agressiva do salário mínimo, tributação progressiva, fortalecimento da negociação coletiva.
    • Demanda estruturada pelo Estado: Compras governamentais (licitações) que exijam conteúdo tecnológico local e padrões de qualidade elevados, atrelando o poder de compra do estado à missão de sofisticar a produção.
    • Financiamento dirigido com contrapartida social: Crédito subsidiado e investimento público em setores estratégicos condicionados a acordos de partilha de ganhos de produtividade com trabalhadores e a metas de inovação.
    • Educação e capacitação como resposta à demanda: Política educacional e de qualificação profissional antecipatória e sintonizada com os setores que estão sob pressão para se modernizar devido ao aumento da renda interna.

    O verdadeiro desafio do Brasil não é primeiro construir uma economia complexa para depois pagar bem. É ousar pagar melhor agora, criando as tensões e os incentivos certos no tecido empresarial, para que a complexidade surja como a única saída competitiva viável.

    O motor do desenvolvimento é a demanda de uma população que pode consumir mais e melhor. É hora de ligá-lo.

     


    Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.

    *Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.