A Fundação Maurício Grabois promove entre os dias 24 de fevereiro e 5 de março, o seminário Brasil 40 anos – Estudos sobre a Formação Econômico-Social Brasileira. A atividade de formação dá início à atualização do Programa Socialista do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
“A atualização do programa socialista do PCdoB tem que produzir uma nova agenda política para o país. O país está sob um ciclo progressista muito importante, mas que apresenta inúmeros obstáculos para seguir adiante e dar um salto de qualidade. O seminário, como o primeiro passo desse esforço, se destina a fazer um exame crítico e realista da atual situação do país, após 40 anos de redemocratização e 37 anos da nova Constituição democrática e cidadã, no que o país avançou e no que regrediu, seja do ponto de vista econômico, social, político, cultural e institucional”, destaca Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois.
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O seminário é voltado para cerca de 50 quadros selecionados pelo Comitê Central do PCdoB para um trabalho sistemático e persistente de formulações e tem como objetivo formular um quadro-referência de caracterização atualizada da condição estrutural do país e de suscitar questões essenciais sobre os impasses históricos e contemporâneos do desenvolvimento brasileiro.
O eixo o debate será a tese de doutorado Brasil: um país sem destino?, de Marília Tunes Mazon, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2021 sob a orientação de Denis Maracci Gimenez. A partir de uma visão histórico-estrutural, a tese de Mazon defende que os últimos 40 anos corresponderam a um período de forte regressão econômica, social, cultural e política, “se comparado ao período nacional-desenvolvimentista” e aponta que o Brasil caminhou neste período para um processo de de-civilização, marcado pelo aumento da violência, acirramento dos conflitos sociais e rebaixamento da cultura e das artes.
Os elementos da tese serão discutidos por quadros do PCdoB e nomes do pensamento socialista na academia em quatro encontros, que acontecerão às terças e quintas-feiras com transmissão online das 18h às 20h.
“Esse esforço é muito importante para que a gente tenha uma análise atualizada da formação econômico-social brasileira, por isso ele foi escolhido como o primeiro passo, e em seguida estudaremos diversos outros aspectos, como foi formulado no artigo recentemente publicado de minha autoria”, aponta Walter Sorrentino.
Iniciado com o Seminário Brasil 40 anos, o processo de atualização programática do partido seguirá até 2027 e está prevista ao menos sete etapas, explica Theofilo Rodrigues, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira. “Em seguida, discutiremos a evolução do pensamento programático do PCdoB. Em terceiro lugar, faremos uma apreciação sobre ‘A Revolução Brasileira’ (1966) de Caio Prado Jr. na história política do país. Faremos também uma análise comparativa entre os programas políticos da esquerda brasileira e uma investigação sobre o contexto latino-americano. Por fim, um estudo comparativo dos programas de PCs no mundo”, aponta.
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Brasil: um país sem destino?, por Marília Tunes Mazon
Resumo: a partir de uma visão histórico-estrutural, esta tese avalia o desenvolvimento econômico brasileiro no último século e discute os seus rumos. A tese defendida é a de que os últimos 40 anos corresponderam a um período de forte regressão econômica, social, cultural e política, se comparado ao período nacional-desenvolvimentista. O país regrediu à condição de primário exportador e se tornou dominado pelas finanças e sua lógica rentista de valorização de ativos existentes. O baixo dinamismo econômico e a concentração de renda e riqueza levaram à fratura da estrutura social brasileira, com impactos nefastos sobre as formas de sociabilidade. De um lado, há uma imensa massa empobrecida, com carências de todos os tipos e sem direitos garantidos; de outro, há um pequeno grupo de super-ricos, que adquiriram um mando inédito sobre o país e vivem apartados em seus enclaves. O fim do projeto nacional-desenvolvimentista também correspondeu ao fim da construção de uma cultura nacional viva e original, que dava coesão à sociedade por meio da construção de valores comuns. Em seu lugar, prevaleceram os valores da concorrência e do individualismo, estimulados pelo neoliberalismo e pela indústria cultural, altamente concentrada no Brasil. O país caminhou para um processo de-civilização, cujas expressões podem ser vistas no aumento da violência, no acirramento dos conflitos sociais, no rebaixamento da cultura e das artes, nos efeitos perversos da cultura de consumo sobre uma sociedade desigual, na deterioração da educação, na despolitização da sociedade.
Introdução
Esta tese, realizada em longos sete anos, se inscreve na tradição do pensamento social brasileiro de análise histórico-estrutural do nosso capitalismo. Vai ao encontro da preocupação de buscar uma visão global, fugindo dos micro-temas e da especialização. Não pretende esgotar o assunto, mas despertar interesses. Este trabalho nasceu não da corrida pela carreira, mas da angústia em relação ao ponto que chegamos. E não esconde uma tomada de posição crítica diante da realidade brasileira, que expressa valores sociais e uma visão clara do que deve ser uma sociedade civilizada. Meu intento é olhar para os últimos noventa anos do desenvolvimento brasileiro. Mais rapidamente, para os primeiros 50 anos da nossa industrialização (1930-1980) e, mais detidamente, para os últimos 40 anos de declínio (1980-2020), para não dizer de decadência econômica, social, cultural e política.
Para tanto, este trabalho está dividido em três partes. A primeira delas diz respeito à nossa regressão econômica. Nosso processo de industrialização será apresentado em suas linhas gerais para entendermos como foi possível vencer nosso enorme atraso, com a construção do Estado desenvolvimentista, com planejamento e um grande esforço nacional. Em seguida, veremos como o desmonte da “Era Vargas” colocou o país rumo a uma estagnação secular, ao destruir a capacidade de comando do Estado, a articulação da estrutura produtiva e o sistema industrial.
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Os capítulos subsequentes apresentam um retrato da economia brasileira atual, passando pela supremacia do agronegócio, pela regressão do sistema industrial, pelo crescimento dos grandes varejistas, pela mercantilização dos bens públicos, pelas novas formas de gestão do capital e pela sua principal marca, a dominância do sistema financeiro e a emergência do rentismo.
A segunda parte desta tese apresenta a regressão social que acompanhou nossa decadência econômica. O Brasil se tornou um país mergulhado na pobreza, que se espalhou
de Norte a Sul, ao longo das cidades grandes, médias e pequenas, ganhando novos contornos. Essa massa de pobres, que sobrevive nas rebarbas da estagnação econômica, será caracterizada em seus aspectos fundamentais e nas condições em que vive. Ao mesmo tempo, a riqueza e a renda se concentraram nas mãos de um pequeno grupo de endinheirados, que vive apartado do resto do país, melhor do que nunca. Serão apresentados, nos capítulos seguintes, quem são os endinheirados brasileiros e como vivem. Mais do que um país desigual, o Brasil se tornou uma sociedade fraturada.
Na terceira parte desta tese, será apresentada a nossa regressão cultural e política. O Brasil, depois da Revolução de 1930, construía também o que Antonio Candido
chamou de “Nossa Revolução Cultural”. Deixando para trás um passado marcado pelo analfabetismo e pelo atraso cultural, o país assistiu ao surgimento de um vigoroso movimento cultural que abrangia tanto as artes eruditas como as populares, que levaram o Brasil a dar uma grande contribuição à civilização do século XX, especialmente na música e no futebol.
O primeiro capítulo dessa parte apresenta um panorama desse extraordinário movimento. Esse processo foi interrompido pelo Golpe de 1964. O fechamento dos espaços
públicos, a censura, a perseguição política, num momento em que se estabelecia uma das mais potentes indústrias culturais do mundo, marcaram a virada rumo à massificação do entretenimento, ao consumismo, à despolitização da sociedade, ao rebaixamento da educação e da cultura.
Mas a adesão incondicional ao neoliberalismo nos anos 1990 destruiu não só o Estado desenvolvimentista, o sistema industrial e disseminou a pobreza pelo país. Marcou também a aceleração do nosso processo de descivilização. Num país mergulhado na concorrência selvagem entre indivíduos associais, a cultura de consumo se tornou dominante. Numa sociedade em que tudo foi mercantilizado, a privatização do Estado tornou a Política um negócio alheio aos problemas do país.
Programação:
24/02 – Terça-feira – A Regressão Econômica
Abertura: Walter Sorrentino
Mediação: Iago Montalvão
Capítulo 3: Diogo Santos
Capítulo 3: Flávia Calé
Intervenções: Marcelo Fernandes, Rubens Diniz, Jandira Feghali e Sérgio Cruz
26/02 – Quinta-feira – A Regressão Social
Mediação: Carolina Maria Ruy
Capítulo 4: Daniele Costa
Capítulo 5: Theófilo Rodrigues
Intervenções: Nivaldo Santana, Gustavo Petta, Paulo Gracino, Jorge Venâncio e Julieta Palmeira
03/03 – Terça-feira – A Regressão Cultural e Política
Mediação: Manoel Rangel
Capítulos 6, 7 e 8: André Tokarski
Capítulos 9 e 10: Cristiano Capovilla
Intervenções: Aldo Arantes, Madalena Guasco, Carlos Lopes, Renata Mielli, Fábio Palácio e Luana Bonone
05/03 – Quinta-feira – Painel: A Sociedade Fraturada
Coordenação: Sérgio Barroso
Mediação: Walter Sorrentino
Luiz Gonzaga Belluzzo
Marília Tunes
Sempre Online, das 18h às 20h.