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    América Latina

    Cuba sofre tentativa de genocídio e Brasil precisa prestar solidariedade

    O genocídio em Gaza está servindo como um laboratório do imperialismo para ser aplicado à Cuba: um bloqueio que asfixia o país até chegar ao limite da rendição

    POR: Elias Jabbour

    11 min de leitura

    Pessoas caminham em Havana, Cuba. Foto: JF Martin / Unsplash
    Pessoas caminham em Havana, Cuba. Foto: JF Martin / Unsplash

    O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, intensificou o isolamento de Cuba pelo governo de Donald Trump.  A partir da intervenção na Venezuela, principal fonte do petróleo de Cuba desde a eleição de Hugo Chávez, os EUA cortaram o envio de petróleo para a ilha e o México passou a ser seu principal fornecedor – mas esse auxílio foi interrompiado ao final de janeiro diante das ameaças de Trump de taxar os países que auxiliassem Cuba – o que está provocando um asfixiamento da economia cubana.

    A questão de Cuba é um assunto urgente que envolve princípios, simbolismo e gratidão.

    Em 1º de janeiro de 1959, a Revolução Cubana triunfou quando Fidel Castro entrou com suas tropas em Havana, declarando a falência do regime de Fulgêncio Batista, que era um fantoche dos Estados Unidos. Antes disso, Cuba era conhecida como o “bordel” dos Estados Unidos, um local de turismo sexual e exploração. A Revolução de 59 pôs fim a essa condição de extensão do território estadunidense. Houve uma tentativa de diálogo inicial, mas qualquer mudança estrutural na América Latina exigia mexer na propriedade de terras, e Fidel Castro começou a cumprir suas promessas com a reforma agrária. Isso feriu de morte os interesses estadunidenses na ilha e levou Cuba ao isolamento em relação ao restante do continente.

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    Em 1962, após vencer a tentativa de invasão mercenária na Baía dos Porcos, Cuba se declarou um Estado marxista-leninista. Sou muito ligado em fotografias e imagens; tenho o hábito de ficar de madrugada assistindo a desfiles militares da antiga União Soviética ou da China e discursos de Fidel. Uma cena arrebatadora para mim é a de Fidel Castro com Nikita Khrushchov em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU. Proibida de ficar no hotel reservado, a comitiva cubana foi para o Hotel Teresa, no Harlem — um bairro pobre e negro —, onde Fidel recebeu uma comitiva de chefes de Estado como Nehru e Nasser, além de se encontrar com Malcolm X e outras figuras do movimento negro e libertário dos EUA.

    A partir daí, Cuba estabeleceu uma relação íntima com a União Soviética e integrou o Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon), organização econômica criada em 1949 sob liderança da União Soviética que integrou os países do bloco socialista durante a Guerra Fria, fornecendo açúcar e fumo em troca de petróleo subsidiado, armas e tecnologia. Existe uma polêmica sobre a falta de industrialização na ilha; Che Guevara defendia essa necessidade em seus textos, mas o fato é que Cuba não se industrializou e tornou-se dependente dos subsídios soviéticos, que chegavam a 5 bilhões de dólares por ano. Comparo isso à Coreia Popular, que não quis entrar no Comecon se submeteu a essa divisão de trabalho e escolheu o caminho da industrialização, criando uma indústria de defesa poderosa com um programa nuclar que a protege de ataques estrangeiros. Hoje a Coreia Popular pode se concentrar única e exclusivamente no seu processo de desenvolvimento econômico.

    Cuba passou a ser bloqueada pelos EUA em 1962: qualquer país fora do bloco socialista que fizesse comércio com Cuba estaria sujeito às sanções dos Estados Unidos. O regime cubano conseguiu conviver muito bem com esse bloqueio estadunidens devido à forte relação que mantinha com os países socialistas.

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    Embora o bloqueio exista desde 1962, ele nunca foi levado tão a sério pelos Estados Unidos até a década de 1990: consistia mais em retórica contra as nações do que em ações comerciais concretas. Contudo, sempre houveram ações criminosas dos EUA contra Cuba, como o envenenamento de plantações de cana e qualquer tipo de gêneros alimentícios, boicotes diários à economia cubana e 600 tentativas de  tentativas de assassinato contra Fidel Castro.

    Com o fim da União Soviética, Cuba perdeu 70% de seus mercados e passou pelo chamado “Período Especial”, marcado por uma recessão profunda na década de 1990. Para sobreviver, Cuba busca ampliar seus mercados com a introdução do turismo, passa a explorar suas belezas naturais e abre uma rede de hotéis no país com investimentos principalmente da Espanha. A abertura de Cuba ao turismo também assa por uma tentativa de boicote, com explosões de hotéis cubanos.

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    É nesse período que o governo cubano coloca agentes de inteligência, infiltrados em grupos anticastristas em Miami para levantar informações sobre a contrarevolução e prevenir ataques terroristas contra o país. Eram 12 agentes, mas cinco deles acabaram presos  pelos EUA em 1998, condenados por espionagem: Gerardo Hernández, Antonio Guerrero, Ramón Labañino, Fernando González e René González. Após anos de detenção, os cinco heróis de Cuba foram libertados entre 2013 e 2014 após uma campanha internacional de solidariedade.

    Cuba teve uma década de 1990 terrível e a situação mudou com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, que trouxe um novo ar de esperança. O país passou a exportar médicos para o mundo, mas principalmente para a Venezuela em troca de petróleo, o que garantiu a sobrevivência da revolução, com um crescimento econômico capaz de repor a base material que havia antes do fim da União Soviética.

    A Venezuela provia petróleo para Cuba, enquanto Cuba provia médicos e serviços de segurança. O programa Mais Médicos do Brasil também rendeu muitas divisas a Cuba, que exportou médicos para o mundo inteiro, muitas vezes de graça, por pura solidariedade internacional. Esse soft power necessário de enviar médicos para regiões de desastres e países pobres, como na África e no Paquistão, é uma marca da solidariedade internacional cubana. Além disso, o país se destacou na biotecnologia; se não fosse o bloqueio, seria um provedor mundial de alta tecnologia nesse setor. Mesmo bloqueada, com todos os problemas que tem passado, Cuba produziu quatro vacinas contra a Covid-19.

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    Cuba conseguiu sobreviver a esse período e a Venezuela foi um fator fundamental para a manutenção desse processo material, mas a partir de 2014, aprodução de petróleo da Venezuela cai abruptamente por conta da queda do preço do petróleo. A partir de 2017, com as sanções dos EUA , estatal de petróleo venezuelana PDVSA perde 97% do seu valor de face o que prejudica o envio de combustível à ilha. Além disso, a pandemia também colapsou o setor de turismo. Percebendo que o bloqueio fortalecia o governo cubano e que o debacle do socialismo em Cuba poderia se dar a partir da incorporação de Cuba ao espaço econômico dos EUA, Barack Obama quebra muitas das restrições e inicia um processo de normalização das relações com Cuba.

    Esse movimento dura até a chegada de Donald Trump ao poder em 2017, que acaba com todos os acordos estabelecidos entre a gestão Obama e o governo cubano e eleva à décima potência o bloqueio econômico contra a ilha, com mais de 600 medidas para sufocar a economia cubana, o que provocou um grande baque diante da incapacidade do país enfrentar o bloqueio, que resultou em um êxodo de 500 mil pessoas nos últimos anos. O bloqueio é incontornável para Cuba. A relativização do bloqueio para explicar a situação do país é uma forma politicamente incorreta, porque o bloqueio é uma questão objetiva. Os EUA fizeram o possível para não chegar vacinas e insumos médicos ao país durante a pandemia de Covid-19. Os EUA são uma potência assasina.

    O bloqueio é um ponto fundamental para compreender a atual situação de Cuba, uma situação de muita dificuldade econômica, aprofundada desde o governo Trump e que não voltou atrás e o país  tem que por situações piores do que durante o “Período Especial”. Uma das teses que eu corroboro é de que o genocídio em Gaza, com 75 mil pessoas assassinadas e outras duas milhões condenadas à fome e expulsão de seu território, está servindo como um laboratório do imperialismo para ser aplicado à Cuba. Os EUA não vão deixar barato sua decadência, eles querem levar o mundo junto. Então eles partem para a chantagem aberta aos países, por meio de chantagem, sanções econômicas, bloqueio, expulsão do sistema financeiro internacional, etc. Gaza é o limite, ou seja, o bloqueio que não permite entrar comida, água, combustível, provocando a morte de fome daquela população, até chegar ao limite da rendição e do regime change. O Irã é um exemplo, houve uma tentativa disso agora com a desvalorização da moeda iraniana a partir de outubro, com sanções que a ONU assinou embaixo, que levou a protesto que se converteram rapidamente em uma contestação aberta ao governo, mas documentos provam a participação dos serviços secretos dos EUA e Isral, CIA e Mossad, naquele processo.

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    Acredito que Cuba será o segundo passo dsse laboratório chamado Gaza. Trump ordenou o bloqueio naval à ilha e qualquer país que mandar petróleo para Cuba vai ser sancionado, assim como qualquer país que mantenha relação comercial. Desde dezembro nenhuma gota de petróleo chega à Cuba, condenando o país à inanição e à fome. Universidades estão suspensas e não há combustível para o trabalho básico. Condenar um povo à fome por puro sadismo é inaceitável. Esse povo não tem arma nuclear, não tem arma de destruição em massa, não tem petróleo. A única coisa que Cuba tem e os Estados Unidos não toleram é a dignidade. Cuba não é uma ameaça para os Estados Unidos, como uma ameaça à segurança de ninguém. Cuba é um país cuja força armadas ela só tem capacidade de se auto defender. O que acontece em Cuba hoje é uma tentativa de genocídio contra o povo cubano. Não existe outra palavra.

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    Como militante do PCdoB, acredito que a maioria dos comunistas brasileiros foi formada pelo exemplo da Revolução Cubana. Cuba é um símbolo vivo de tudo o que acreditamos e sua resistência demonstra a superioridade do socialismo sobre o capitalismo. Nosso papel como brasileiros é pressionar o governo para que envie auxílio emergencial, remédios e petróleo. Tenho um amor incondicional e uma veneração pela Revolução Cubana.

    Não podemos esquecer o papel de Cuba na história mundial. Nelson Mandela afirmou que o regime racista do apartheid foi derrotado militarmente pelo exército cubano na batalha de Cuito Cuanavale. Cuba ajudou a libertar a Namíbia e Angola; exportou médicos onde outros exportavam bombas. Faço este apelo pela sobrevivência dessa experiência que significa tanto para a humanidade.

    Assista à íntegra do Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 11/02/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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