O PCdoB divulgou nesta terça-feira (24) nota da Comissão Executiva Nacional com seu posicionamento sobre o acordo Mercosul–União Europeia. No texto, o partido aponta desvantagens e riscos aos interesses nacionais – especialmente para a indústria brasileira –, ao mesmo tempo em que manifesta apoio crítico ao movimento tático do governo Lula. A legenda reconhece os esforços do governo para mitigar aspectos considerados desfavoráveis nas renegociações realizadas entre 2023 e 2024 e defende a adoção de salvaguardas econômicas, o fortalecimento da política industrial e reformas estruturais voltadas ao desenvolvimento soberano do país.
Leia a íntegra da nota do PCdoB:
PCdoB critica acordo Mercosul-União Europeia, mas apoia movimento tático do governo
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) analisa de modo multilateral o acordo Mercosul-União Europeia, assinado no Paraguai em 17 de janeiro de 2026 (1), que brevemente deve ser votado no Congresso Nacional, a partir da Câmara dos Deputados. Sublinha desvantagens e riscos aos interesses nacionais e o esforço do governo Lula para inserir medidas para atenuar o conteúdo nocivo ao desenvolvimento soberano do país que, em parte, se alcançou com o chamado “Pacote de Brasília”, negociado entre 2023 e 2024. O governo brasileiro batalhou para mitigar o conteúdo amplamente desfavorável à economia nacional, em especial à política industrial, conforme fora negociado pelo governo da extrema-direita, em 2019.
Para o PCdoB, o acordo é um movimento tático necessário diante da pesada ofensiva neocolonial do governo estadunidense de Donald Trump contra os países da América Latina e Caribe. O Brasil, por sua importância, é o alvo principal. Entre os ganhos relativos, ressalta a interlocução e aproximação do governo Lula com amplos setores do empresariado nacional, que, mesmo com ressalvas, são favoráveis ao acordo.
Não se trata de iniciativa isolada. Antes, o governo Lula elevou o status de parceria com a China e, agora, deu um impulso no intercâmbio com a Índia. O próprio Mercosul, debilitado pelo governo Bolsonaro, e agora sob ataque da Argentina de Javier Milei, recebe um impulso de preservação.
O PCdoB avalia que há a contradição de, por um lado, proporcionar margem de manobra diante da ofensiva imperialista e, de outro, ser danoso sobretudo à indústria. Em razão disso, propõe que o Brasil adote salvaguardas de incentivo e proteção ao parque industrial nacional. Destaca, com ênfase, a necessidade de se empreender um salto de qualidade no processo de reindustrialização em novas bases tecnológicas, bem como de mudanças na política macroeconômica e fiscal, de cunho neoliberal, altamente danosas a esse processo.
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Defende a rejeição à ideia de “livre comércio”, retórica ideológica que se contrapõe ao histórico de ascensão das grandes potências, que adotaram a proteção das economias nacionais, sobretudo do setor industrial. No período histórico mais recente, essa retórica foi posta de lado e medidas protecionistas têm sido adotadas em larga escala.
Diante do exposto e do estudo que se apresenta a seguir, o PCdoB manifesta apoio crítico ao acordo e destaca que lutará para que se adotem políticas e medidas que protejam a economia nacional.
Ressalta, ainda, que se impõe a luta por reformas estruturais democráticas, parte constituinte de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, que removam os obstáculos que travam o avanço do país e sem as quais não se avança na direção do desenvolvimento soberano e do progresso social. Missão inadiável a ser abraçada por um polo patriótico e popular, que, com alianças amplas, constitua uma maioria social, política, econômica e cultural em torno deste grande empreendimento.
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Atual estágio de pactuação do acordo
A aprovação do acordo no Conselho Europeu, em 9 de janeiro deste 2026, ocorreu após levantamento de restrições da Itália. Havia uma maioria para veto pela união da Itália com a França e a Polônia, dentre outros, por meio da introdução de “salvaguardas agrícolas”, inicialmente fora do escopo negociado em 2023-2024, que ameaça com barreiras não tarifárias as cotas de produtos agrícolas exportáveis pelos países do Mercosul à União Europeia.
A aprovação do acordo pelo lado europeu aguarda deliberação do Tribunal de Justiça da União Europeia quanto à validade imediata da entrada em vigor de sua parte estritamente comercial, sem a aprovação da íntegra pelos parlamentos dos países da União Europeia. A manobra foi aprovada por pequena margem no Parlamento Europeu em 21 de janeiro (2), na sequência da assinatura do acordo, e deve atrasar a sua entrada em vigor entre 18 e 24 meses.
O Parlamento Europeu também aprovou, unilateralmente, em 10 de fevereiro, “salvaguardas agrícolas” adicionais que bloqueiam as cotas de produtos agrícolas do Mercosul caso superem em 5% a média anual dos três anos precedentes de importações ou caso os preços desses produtos subam mais de 5% (3). Essa medida, somada à de 9 de janeiro, restringe os limitados ganhos obtidos pelo setor agrícola.
No Brasil, na primeira apreciação do texto no âmbito da representação brasileira no Parlamento do Mercosul (Parlasul), no último dia 10, foi pedido vista do relatório pelo deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) (4). A matéria voltou ao debate na mesma Comissão, em 24 de fevereiro, que aprovou o relatório proposto pelo deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).
O PCdoB, no pedido de vista, argumentou sobre a necessidade de acelerar e intensificar medidas de política industrial no âmbito nacional que mitiguem os aspectos negativos que permanecem no acordo.
O contexto geopolítico e geoeconômico na apreciação do acordo
O acordo é assinado em meio a um cenário de fortes disrupções no cenário global, no qual a transição em curso no sistema internacional entra numa nova fase, especialmente devido às medidas de Trump.
Nesse contexto, ocorre a ruptura – ou pelo menos um forte abalo – nas chamadas relações interatlânticas, no âmbito do bloco interimperialista composto pelos Estados Unidos e União Europeia. A União Europeia oscila entre a vassalagem completa – como se viu no acordo comercial com os Estados Unidos assinado no resort de Trump na Escócia, em julho de 2025 – e o discurso quanto à necessidade de obter “autonomia estratégica”.
Aos povos do chamado Sul Global interessa essa fissura no bloco interimperialista, que, representado pela OTAN, impôs guerras e ações de pilhagem ao mundo desde o fim da Guerra Fria. Além disso, o discurso europeu por “autonomia estratégica” fortalece tendências e objetivos similares a serem levados a cabo pelos países do Sul Global. Esses são aspectos centrais a serem considerados por ocasião da formulação de um posicionamento brasileiro, a partir de uma perspectiva de esquerda, patriótica e desenvolvimentista.
No âmbito das contradições entre o país imperialista dominante em declínio – os Estados Unidos – e os povos, e mais especificamente entre Estados Unidos e Brasil e seu entorno estratégico – a América Latina e o Caribe –, o momento de disrupção proposto pela presidência de Trump preconiza, como se lê na recente Estratégia de Segurança Nacional daquele país, a hegemonia “hemisférica” imperativa de Washington. Ou com outra linguagem: a região como um quintal da Casa Branca.
É nesse contexto que deve ser lida a ofensiva de Trump sobre o Brasil, que incluiu a mobilização de uma “quinta-coluna” interna, por ocasião da imposição das maiores tarifas do mundo contra o setor produtivo brasileiro em 2025. A viagem do presidente Lula a Washington, em março, representará um novo capítulo nessa decisiva questão estratégica ao Brasil (5).
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Do ponto de vista geoeconômico, o mundo assiste, desde a crise econômico-financeira de 2007-2008, e em especial após a pandemia, a um cenário de sucessivos recuos na globalização neoliberal, de reorganização das cadeias de valores e de suprimentos, de crescente irrelevância das instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), e, mais recentemente, do uso irrestrito do instrumento monetário e tarifário como arma geopolítica por parte dos Estados Unidos.
Com isso, a orientação dominante por parte das principais potências – sejam as imperialistas, sejam as que expressam novos polos de poder mundial – passa a ser a constituição de economias resilientes a choques externos, portanto mais autônomas e independentes, inclusive por meio da proteção da indústria e, em especial, de setores estratégicos.
Essa nova realidade não pode ser ignorada pelo Brasil, no curso da estruturação e reconstituição de um projeto nacional; ao contrário, ela permite passos novos e expressivos no sentido da ruptura com a agenda neoliberal imposta à macroeconomia no Brasil, por meio do rentismo, vigente desde o início do Plano Real, em 1994.
Ainda que – cabe ressaltar – a exposição brasileira às relações comerciais com os Estados Unidos venham diminuindo substancialmente. Mais exatamente, caíram pela metade nas últimas duas décadas, com a fatia estadunidense nas exportações brasileiras recuando de 24,4% em 2001, para 12,2% em 2024, segundo dados do Icomex/FGV.
Essa redução é fruto da diversificação de parceiros comerciais, com o aumento expressivo da China, que se tornou o principal parceiro do Brasil. No mesmo período, a China aumentou sua participação nas exportações brasileiras de 3,3% para 28%.
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Nessa nova realidade global, importantes polos de poder no mundo, como a Índia, a África do Sul e o Brasil, proclamam objetivos de “pendular” sua política exterior, isto é, manter relações com todos os polos de poder mundial, no cenário de multipolarização do mundo, ao mesmo tempo em que mantêm articulação estratégica prioritária tanto entre eles quanto com os demais países BRICS, como expressão representativa do Sul Global.
Essa deve ser a direção estratégica do Brasil no atual cenário mundial, ao mesmo tempo em que extrai lições e acelera e intensifica medidas de política industrial e de proteção da economia nacional.
Ao Brasil, no contexto da recomposição de seu projeto nacional, não cabe defender o “livre comércio” como caminho principal para seu desenvolvimento.
Primeiro, pela natureza do capitalismo, que, necessariamente, nas relações comerciais entre desiguais tende, por definição, a aprofundar essas assimetrias nas relações de troca, que tendem a se deteriorar e não a corrigir seus termos. Segundo, porque, sendo o Brasil um grande país, com enorme mercado interno e que busca uma diversificação produtiva, deve ancorar seu desenvolvimento em capacidades endógenas.
Por fim, como dito, sendo o “livre comércio” essencialmente uma retórica ideológica da corrente liberal e não uma prática efetiva entre desiguais, torna-se ainda mais uma quimera. Afinal, vale reafirmar, o mundo assiste a uma reversão da globalização neoliberal e a adoção, por parte dos principais países, de práticas de defesa e proteção das economias nacionais.
De fato, a fórmula que permitiu a ascensão das grandes potências, desde Alexander Hamilton e Friedrich List (teóricos do protecionismo e do desenvolvimento industrial), foi a proteção das economias nacionais, sobretudo do setor industrial, para além da retórica liberal.
Nas últimas cinco décadas, após um período de intenso deslocamento produtivo, que inclusive resultou em desindustrialização em parte das economias desenvolvidas e na industrialização da China e outros países asiáticos, essa retórica é posta de lado e medidas protecionistas são adotadas em larga escala mundo afora. De um modo geral, sai de moda a retórica neoliberal que embalou o discurso norte-americano e europeu – e das instituições multilaterais como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial – desde o fim da Guerra Fria.
Igualmente é falso o argumento que justifica a assinatura do acordo por uma suposta “identidade de valores” em temas como democracia e direitos humanos (6), seja historicamente, seja na presente conjuntura.
Os países europeus, historicamente, constituíram sua pujança por meio de relações coloniais e abertamente imperialista para com a maioria dos povos do mundo, pelas quais nem democracia nem direitos humanos eram questões relevantes.
Tampouco no mundo de hoje há uma percepção, comum do Brasil – e dos demais países dos BRICS – e da União Europeia, quanto à evolução da transição em curso no cenário global. Enquanto a Europa trabalha no sentido de reverter sua decadência histórica e sua crescente perda de influência geopolítica, o Brasil, como parte dos BRICS, trabalha pela desconcentração de poder mundial e pela conformação do mundo num formato multipolar.
Contudo, o acordo é de interesse comum a ambos os blocos no sentido de possibilitar a diversificação de relações comerciais e criar alternativas que diminuam dependências relativas existentes em relação a terceiros.
Esse é o sentido pelo qual devem ser lidos o acordo e inúmeras outras iniciativas da agenda de acordos em negociação pelo Mercosul, assim como o recente acordo União Europeia – Índia – que se seguiu ao acordo com o Mercosul –, bem como iniciativas individuais de países europeus, inclusive França, Reino Unido e Alemanha, de buscarem, por meio de visitas de seus líderes a Pequim, aprofundar relações com a China.
Na atual realidade, a recomposição de um projeto nacional é diretamente confrontada pela principal potência militar do mundo, os Estados Unidos, que proclamam objetivos estratégicos que se chocam com os interesses brasileiros de maior autonomia no desenvolvimento nacional e de projeção em seu entorno estratégico.
Fica explícito, portanto, que o antagonista principal da recomposição do projeto nacional é os Estados Unidos, o que evidencia a necessidade de diferenciar o inimigo principal do secundário.
Cabe observar, ainda, que a realização do acordo é fundamental para o Mercosul, sob a maior ameaça de ruptura desde a sua fundação, em 1991.
O principal parceiro do Brasil no bloco, a Argentina, busca, numa relação de vassalagem e subordinação explícita, um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, ameaçando implodir a Tarifa Externa Comum (TEC), pilar da união aduaneira.
Como passo preliminar, a Argentina assinou o Acordo de Comércio e Investimentos com os Estados Unidos, além de um segundo acordo, sobre minerais críticos, com numerosas concessões, inclusive de natureza estratégica, medidas que põem em risco a continuidade do Mercosul.
Portanto, o acordo Mercosul-União Europeia, em conjunto, também é relevante no sentido da defesa do bloco sul-americano, pilar da política externa brasileira há quase quatro décadas.
Contudo, a compreensão do acordo como manobra tática, para ser consequente, precisa ser complementada por uma análise apurada dos aspectos principais que impõem obstáculos ao curso do projeto nacional – em especial os relacionados à reindustrialização do país e à maior autonomia nacional. E, conjuntamente com sua aprovação, definir iniciativas que mitiguem as ameaças.
O acordo Mercosul–União Europeia: principais questões a considerar
O acordo, do ponto de vista estritamente econômico e produtivo, é preponderantemente desfavorável ao Brasil, pois, essencialmente, tende a reproduzir uma relação assimétrica nos termos de troca, na qual haverá forte pressão sobre o setor industrial brasileiro na competição com a indústria europeia e, por outro lado, limitado acesso ao ultraprotegido mercado agrícola europeu por meio de cotas de exportação, sendo estas reversíveis por meio das “salvaguardas agrícolas”.
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Essa relação desigual reflete a estrutura da economia brasileira, cuja regressão industrial é notória nas últimas quatro décadas vis-à-vis características de algumas das economias europeias. Por exemplo, a Alemanha é uma economia industrial voltada às exportações, e, apesar de uma relativa diminuição de sua competitividade nos anos recentes, segue pujante, sobretudo comparativamente à indústria brasileira, sufocada por fatores macroeconômicos e por outros fatores endógenos que diminuem a sua competitividade.
É certo que o acordo reconhece, em parte, essas assimetrias. Assim, enquanto as exportações do Mercosul à União Europeia terão as tarifas zeradas de imediato em 82,7%, considerando valores de 2024, o inverso representa 15,1%. Mais da metade das exportações europeias ao Mercosul só serão totalmente zeradas num prazo de 10 a 15 anos, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Diferentes análises apontam para riscos acentuados à indústria brasileira de máquinas e equipamentos, ao setor farmacêutico e ao de equipamentos elétricos. Já no setor automotivo, o acordo admite a proteção apenas em tecnologias nascentes, como carros elétricos. No todo, a exposição e a vulnerabilidade da indústria são substanciais, justamente num contexto em que o país busca se reindustrializar.
Observe-se que 98,4% das importações brasileiras provenientes do mercado europeu foram de produtos industriais.
Isso num contexto em que o déficit na balança comercial da indústria de transformação em 2025 bateu recorde na série histórica (desde 1997), indo a US$ 71,1 bilhões, contrastando com o superávit na balança comercial total, de US$ 68,3 bilhões.
No que diz respeito aos produtos agrícolas, onde a competitividade brasileira é acentuada, produtos considerados sensíveis terão acesso por meio de cotas que estabelecem limites de importação pela parte europeia. É o caso da carne bovina, de frango e suína, do etanol, e de produtos como açúcar, arroz e milho. Como exemplo, enquanto a carne bovina terá uma quota de 99 mil toneladas para todos os países do Mercosul, no acordo negociado pela Argentina com os Estados Unidos anuncia-se uma cota de 100 mil toneladas.
É verdade que ações mitigadoras foram adotadas no acordo Mercosul-União Europeia, corrigindo flanco na versão negociada em 2019, no governo Bolsonaro. O “pacote de Brasília” negociado em 2023 e 2024 corrigiu restrições à adoção de medidas de política industrial relacionadas ao uso do poder de compra do Estado (compras governamentais), dentre elas as relacionadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Por iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) também foram revertidas restrições à exigência de offset (contrapartidas à aquisição de bens ou serviços estrangeiros) e na adoção de encomendas tecnológicas. Com isso, preservaram-se instrumentos fundamentais para a política industrial e de inovação do Brasil e demais países do Mercosul.
Por fim, por iniciativa do MCTI, também foi preservada a autonomia para implementar políticas de conteúdo local no financiamento público – como no caso da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) –, outro instrumento fundamental de política industrial.
Cabe ressaltar que o acordo também introduz, como instrumento original, o mecanismo de reequilíbrio de concessões, permitindo à parte que se considerar afetada a revisão de concessões tarifárias e a imposição de retaliação cruzada. Contudo, até para ter capacidade de utilizar esse mecanismo de reequilíbrio de concessões caberá ao Brasil constituir meios e instrumentos institucionais e legais para fazê-lo.
A aprovação do acordo exige – e abre espaço para isso – adoção de medidas mais amplas de adaptação brasileira à nova realidade do mundo, em especial, a exemplo do que fazem as principais potências no mundo, a associação entre política industrial e política de inovação.
Neste terceiro mandato de Lula, o Brasil perseguiu esse caminho, por meio da vinculação dos recursos de inovação ao setor produtivo, com base nos recursos descontingenciados do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), em seu Programa 2, o Mais inovação, e nas seis missões de política industrial consubstanciadas na Nova Indústria Brasil (NIB). Esses vultosos investimentos em Inovação na NIB somam R$ 36,4 bilhões no triênio 2023-2025, que por sua vez alavancaram R$ 7,9 bilhões do setor privado, totalizando R$ 44,3 bilhões em recursos mobilizados pelo MCTI por meio da Finep na NIB.
Contudo, aprofundar esse caminho exige abrir maior espaço fiscal para ampliar os recursos para inovação e política industrial, tendo em vista atingir patamares relativamente próximos aos dispêndios pelas principais potências na estruturação de novas forças produtivas. O próprio FNDCT deve ter novas fontes de recursos para aumentar a potência da política de inovação.
Esse caminho também exige o enfrentamento com a economia estruturalmente rentista, decorrente da dominância dos ditames da financeirização, reinante há mais de três décadas (7). E, assim, baixar o custo de capital, estimulando o setor privado a ampliar os dispêndios em inovação – absolutamente baixos relativamente ao mundo – e a ampliação dos recursos públicos indutores da inovação, robustecendo a política industrial. Uma NIB 2.0 é um grande desafio.
Neste mandato do presidente Lula, a retomada da política industrial, por meio da NIB, é confrontada por um arranjo macroeconômico hostil. O Brasil tampouco pode ser indiferente ao padrão que se estabelece na economia global no sentido de proteção ativa da economia nacional, sobretudo da indústria e dos setores estratégicos.
Não cabe, como ocorre em setores do governo, uma crítica, de viés liberal, ao protecionismo. Tampouco cabe aos brasileiros a celebração do “livre comércio”, uma agenda tipicamente neoliberal predominante no mundo sobretudo em seu auge nos anos 1990 do século passado.
O uso de tarifas de importação como instrumento de proteção da economia nacional, a exemplo do que faz o mundo, deve ser parte de nossa estratégia de desenvolvimento.
A propósito, a própria União Europeia discute atualmente um projeto de Buy Europe (ou Made in Europe, estímulo à compra de seus produtos), visando a proteção da economia nacional e a exigência de conteúdo nacional, como fazem os Estados Unidos, com o Buy America, e a China, com seus mecanismos de Estado.
Da mesma forma, o Brasil não pode ser indiferente, no contexto da atual estrutura da economia global, ao fluxo de investimentos estrangeiros. Investimentos predatórios, para adquirir empresas de base tecnológica ou setores produtivos novos ou estratégicos, são fortemente disciplinados nas principais economias globais, enquanto o Brasil mantém-se aberto, e até concede incentivos – a exemplo do Plano de Transição Ecológica do Ministério da Fazenda – a investimentos estrangeiros que desnacionalizam esses setores.
Também se apresenta como questão basilar para a recomposição da estratégia de desenvolvimento nacional, em adaptação à nova realidade geoeconômica do mundo, o uso de singulares fatores de força – como a capacidade em energia fóssil e renovável, minerais críticos e estratégicos; e enorme capacidade de produção de alimentos –, como instrumentos para alavancar novas forças produtivas, em especial as de base tecnológica. O acesso ao mercado interno brasileiro e a essas vantagens comparativas deve se dar com fortes contrapartidas, inclusive produtivas e tecnológicas.
O Brasil, preferencialmente como Mercosul, também precisará, no front externo, aprofundar sua estratégia de diversificação de relações com outros países e blocos comerciais, tendo em vista a diminuição da concentração da corrente de comércio, diversificando-a. Por exemplo, é indesejável ao Brasil a dependência da China na obtenção de seu superávit comercial, amplamente realizado por meio de três principais commodities: soja, petróleo e minério de ferro.
Por fim, o acordo exige constituir forte capacidade institucional, regulatória e de monitoramento dos fluxos comerciais.
A capacidade de adotar ações de defesa comercial, como tarifas e salvaguardas que gerem proporcionalidade e dissuasão econômica – inclusive para fins de utilização do mecanismo de reequilíbrio previsto no acordo – deve ser uma questão a ser emergencialmente enfrentada.
Diante da ameaça a setores industriais brasileiros pelas possibilidades de importações industriais da Europa, em especial o ultrassensível setor de bens de capital, cabe ao Brasil, no âmbito do aprimoramento de medidas de mitigação aos efeitos anti-industriais do acordo, instituir “salvaguardas industriais”. Trata-se da mesma linha adotada pelos europeus, que na sua área de maior sensibilidade instituíram, unilateralmente e à margem do negociado, as “salvaguardas agrícolas”.
Por exemplo, a Lei de Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/25), instrumento aprovado por unanimidade no Congresso Nacional em 2025 em reação às tarifas de Trump contra o setor produtivo brasileiro, deve ser ativamente utilizada pelo Brasil, bem como medidas adicionais de salvaguarda comercial.
Brasília, 24 de fevereiro de 2026
Comissão Executiva Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)
Notas
1 – Texto completo do Acordo de Parceria União Europeia-Mercosul.
2 – Comunicado de imprensa do Parlamento Europeu, em 21/01/2026. UE-Mercosul: Eurodeputados querem parecer jurídico sobre a conformidade com os Tratados da UE.
3 – Comunicado de imprensa do Parlamento Europeu, em 10/02/2026. Mercosul: Parlamento aprova cláusulas adicionais de salvaguarda para proteger a agricultura da UE.
4 – Agência Brasil, em 10/02/2026. Pedido de vista adia votação de relatório sobre acordo Mercosul–UE.
5 – Ainda que, cabe ressaltar, a exposição brasileira às relações comerciais com os Estados Unidos vem diminuindo substancialmente nas últimas duas décadas. Mais exatamente caiu pela metade nas últimas duas décadas, com a fatia americana nas exportações brasileiras recuando de 24,4% em 2001 para 12,2% em 2024, segundo dados do Icomex/FGV. Essa redução é fruto da diversificação de parceiros comerciais, com o aumento expressivo da China, que se tornou o principal parceiro do Brasil. No mesmo período, a China aumentou sua participação nas exportações brasileiras de 3,3% para 28%, o que igualmente acende alerta para indesejável dependência comercial.
6 – Neste sentido, ver o Discurso do Ministro Mauro Vieira por ocasião da assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia – Assunção, 17 de janeiro de 2026, assim como o parecer do relator, Dep. Arlindo Chinaglia (PT-SP), pela aprovação da Mensagem 93/2026, página 48.
7 – Com a Selic, a taxa básica de juros, em 15% ao ano, o governo brasileiro provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros. Ressalte-se que na Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas, divulgada em 18/02 pela Febraban, cerca de 60% dos participantes acreditam que os juros básicos devem estar abaixo de 12,25% ao ano em dezembro deste ano. Ou seja, mesmo com a expectativa de uma queda moderada na Selic, confirmada esta projeção da Febraban, o terceiro mandato de Lula se encerraria provavelmente com a maior taxa de juros real do planeta.