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    Economia

    Marília Mazon analisa regressão econômica e de-civilização no Brasil recente

    Em entrevista ao Portal Grabois, pesquisadora examina transformações econômicas, concentração de riqueza, hegemonia do agronegócio e erosão cultural nas últimas décadas

    POR: Leandro Melito

    18 min de leitura

    Marília Tunes Mazon, doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-UNICAMP). Foto: Acervo pessoal
    Marília Tunes Mazon, doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-UNICAMP). Foto: Acervo pessoal

    Para recuperar a tradição do intelectual público comprometido com o destino nacional no Brasil, é preciso conectar investigação científica e ação política. Essa é a perspectiva adotada por Marília Tunes Mazon, doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-UNICAMP) e docente das Faculdades de Campinas (FACAMP), cuja tese de doutorado Brasil: um país sem destino? serve como espinha dorsal do Seminário Brasil 40 anosEstudos sobre a Formação Econômico-Social Brasileira.  Promovida pela Fundação Maurício Grabois, a atividade de formação dá início à atualização do Programa Socialista do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

    “Conectar investigação científica e ação política não é instrumentalizar a universidade. É devolver densidade histórica ao debate público. É ter coragem de dizer que o Brasil precisa voltar a pensar grande, especialmente quando o país está sendo chamado às urnas para decidir seus rumos”, disse a pesquisadora em entrevista exclusiva ao Portal Grabois.

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    A partir de uma visão histórico-estrutural, a tese de Mazon defende que os últimos 40 anos corresponderam a um período de forte regressão econômica, social, cultural e política se comparado ao período nacional-desenvolvimentista e aponta que o Brasil caminhou neste período para um processo de de-civilização, marcado pelo aumento da violência, acirramento dos conflitos sociais e rebaixamento da cultura e das artes. Em razão do diagnóstico apresentado, a pesquisadora chegou a ser acusada de pessimista, ideia que ela refuta a partir da interrogação que encerra o título da tese.

    “Essa interrogação é central. Ela indica que não acredito em determinismos. Se já fomos capazes de construir um projeto nacional – com industrialização acelerada, mobilidade social ascendente e construção de uma cultura nacional – então não estamos condenados à regressão permanente. A história brasileira mostra que já tivemos rumo. E se tivemos rumo uma vez, podemos ter novamente”, destaca.

    Na entrevista, Marília Tunes Mazon comenta os principais pontos do processo de de-civilização atingido pelo Brasil, que passa pela concentração da riqueza nas mãos de um pequeno grupo de super-ricos, o protagonismo do agronegócio e seu papel político e a regressão cultural, impulsionada pela concentração dos meios de comunicação nas mãos de empresas privadas, tendo como principal expoente a Rede Globo, e agravada sob a influência das Big Techs.

    “Se a concentração das mídias tradicionais já tinha efeito deletério sobre a formação da opinião pública, as novas mídias agravaram o problema pelo seu alcance e poder de penetração, operando sobre uma massa de indivíduos cada vez mais isolados e vulneráveis à manipulação simbólica. O resultado é o que denomino processo de de-civilização: a regressão econômica, aprofundada por décadas de neoliberalismo, encontra seu correlato na dissolução das referências culturais comuns, na mercantilização da vida social e na subordinação da esfera pública à lógica do dinheiro”, conclui Mazon.

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    Leia a entrevista completa

    Portal Grabois: Sua tese é o eixo central de discussão do seminário Brasil 40 anos – Estudos sobre a Formação Econômico-Social Brasileira, promovido pela Fundação Maurício Grabois de forma a dar início à atualização do Programa Socialista do PCdoB. Como você avalia a importância de conectar a investigação científica com a ação política nesse contexto?

    Marília Tunes: A tese que eu defendo é que o Brasil passou, nos últimos 40 anos, por um grave processo de regressão econômica, social, cultural e política.

    A tese é, portanto, incômoda. Alguns já me acusaram de ser pessimista. Mas a tese se chama Brasil, país sem destino?, com uma interrogação. E essa interrogação é central. Ela indica que não acredito em determinismos. Se já fomos capazes de construir um projeto nacional – com industrialização acelerada, mobilidade social ascendente e construção de uma cultura nacional – então não estamos condenados à regressão permanente. A história brasileira mostra que já tivemos rumo. E se tivemos rumo uma vez, podemos ter novamente.

    Eu encerro a tese com uma fala de Ulysses Guimarães no dia de promulgação da Constituição Cidadã de 1988:

    “A coragem é a matéria-prima da civilização. Sem ela, o dever e as instituições perecem. Sem a coragem, as demais virtudes sucumbem na hora do perigo. Sem ela, não haveria a cruz, nem os evangelhos.”

    Estamos em ano eleitoral. E eleição é, em última instância, uma disputa de projetos de país, ou deveria ser. O problema é que muitas vezes o debate público se limita à conjuntura imediata: crescimento de um trimestre, programa A ou B… A investigação científica, quando feita com perspectiva histórica, ajuda a recolocar a pergunta estrutural: qual é o nosso projeto de nação?

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    Conectar ciência e política, nesse contexto, é recuperar uma tradição que praticamente desapareceu no Brasil: a do intelectual público comprometido com o destino nacional. Tivemos uma geração que pensava o país em grande escala: discutia soberania, industrialização, cultura. Hoje, infelizmente, boa parte dos acadêmicos se tornou burocrata da educação superior, especialista em preencher planilhas e atender métricas institucionais. Outros preferem a performance midiática: querem ser influencers com currículo Lattes. Conectar investigação científica e ação política não é instrumentalizar a universidade. É devolver densidade histórica ao debate público. É ter coragem de dizer que o Brasil precisa voltar a pensar grande, especialmente quando o país está sendo chamado às urnas para decidir seus rumos.

    A partir de uma visão histórico-estrutural, sua tese defende que os últimos 40 anos corresponderam a um período de forte regressão quando comparado ao período nacional-desenvolvimentista da Era Vargas. Quais são os marcos políticos e econômicos desse processo em que o Brasil passa por uma estagnação para então entrar em processo de regressão?

    O primeiro grande marco é 1964. O golpe não significou apenas uma ruptura institucional. Ele interrompeu a possibilidade de aprofundamento da Revolução Nacional iniciada em 1930. O que estava em disputa no início dos anos 1960 era justamente a ampliação do projeto nacional-desenvolvimentista: reformas estruturais, ampliação da soberania econômica, maior integração social. O regime instaurado a partir de 1964 preservou e até acelerou certos aspectos da industrialização pesada, mas sob outra lógica: concentração de renda, repressão política e cultural, e esvaziamento do debate público. A industrialização deixou de ser parte de um projeto de transformação social mais amplo e passou a ser conduzida de forma conservadora.

    Ainda assim, até o final dos anos 1970, o país mantinha dinamismo industrial e capacidade de investimento estatal. O verdadeiro ponto de inflexão estrutural ocorre nos anos 1980. E aqui está o dado decisivo: nós ficamos estagnados justamente quando o mundo mudava de patamar tecnológico. A chamada Terceira Revolução Industrial e Tecnológica (baseada na microeletrônica, informática, automação, novos materiais) avançava rapidamente. Ao mesmo tempo, ocorria uma profunda reestruturação das cadeias produtivas globais, com reorganização espacial da produção e ascensão do Leste Asiático.

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    Era um momento decisivo. Ou o Brasil avançava em complexidade produtiva e capacidade tecnológica, ou ficaria para trás. Mas o que aconteceu? Crise da dívida externa, ajuste permanente, compressão do investimento público e perda de capacidade de coordenação estatal. A década de 1980 não foi apenas uma “década perdida” em termos de crescimento. Foi uma década perdida em termos de posicionamento tecnológico internacional. Nos anos 1990, consolidou-se a segunda inflexão: a adesão explícita à agenda neoliberal. Privatizações de setores estratégicos, abertura comercial abrupta, juros elevados, valorização cambial e financeirização da economia. O Estado perdeu instrumentos de coordenação. Parte significativa do empresariado industrial preferiu vender ativos e migrar para atividades rentistas.

    A partir daí, deixamos de falar apenas em estagnação e passamos a falar em regressão: desarticulação do sistema industrial, reprimarização da pauta exportadora e crescente dominância financeira. É importante frisar: não se trata de nostalgia do passado. Trata-se de observar que interrompemos nosso processo de transformação estrutural justamente quando a economia mundial exigia um salto adiante. E nós, no final dos anos 1970, estávamos preparados e bem posicionados para tal. Perdemos o timing histórico. E em desenvolvimento econômico, timing é tudo.

    O que representa o processo de de-civilização que o país atingiu nesse período?

    Inspirada nos trabalhos de Norbert Elias, utilizo a noção de “de-civilização” para caracterizar um processo de erosão da vida social brasileira. Não se trata apenas de crescimento econômico baixo ou de uma fase ruim do ciclo econômico. Trata-se de uma deterioração mais ampla dos vínculos sociais e das instituições que organizam a vida coletiva. Estamos falando da precarização estrutural do trabalho, da expansão da informalidade como norma, do aumento persistente da violência, da deterioração urbana, do rebaixamento cultural, de casos escabrosos de corrupção, da banalização da desigualdade, da perda de prestígio da educação, da transformação da escola em espaço de contenção social e não de formação.

    Estamos falando, inclusive, da epidemia recente do vício em jogos e apostas, sintoma de uma sociedade que oferece poucas perspectivas produtivas e vende a ilusão do ganho rápido. A de-civilização, nesse sentido, é a substituição de um horizonte coletivo por estratégias individuais de sobrevivência. É quando a sociedade deixa de se perceber como construtora de uma vida comum e passa a funcionar como um mercado de oportunidades escassas, disputadas isoladamente.

    Sua pesquisa aborda a supremacia do agronegócio durante esse processo. Quais fatores contribuíram para isso, e o que esse setor representa no cenário político atual?

    O desenvolvimento do agronegócio brasileiro costuma ser apresentado como uma história de empreendedorismo e eficiência privada. Trata-se de um mito. O que houve foi uma estratégia estatal de modernização do campo a partir de 1964, sustentada sob três pilares: crédito rural subsidiado, investimento público em pesquisa e tecnologia e deslocamento da fronteira agrícola. Foi o Estado, portanto, quem organizou as condições dessa transformação.

    Esse modelo encontrou seu momento decisivo com a ascensão da China no início dos anos 2000. A explosão da demanda chinesa por commodities alterou a divisão internacional do trabalho e ofereceu ao Brasil uma nova especialização externa justamente quando sua indústria perdia densidade. O que se consolidou foi um processo de reprimarização da economia brasileira, sustentado por superávits comerciais e pela centralidade crescente das exportações de produtos primários.

    Parte importante do território nacional passou a se articular em torno do agro: no Centro-Oeste e em parte do Norte e do Nordeste, consolidaram-se os complexos de soja, algodão, milho e pecuária bovina de corte; no Sul, aves e suínos integrados a grandes agroindústrias; no interior de São Paulo, a laranja e a cana-de-açúcar; no Sul de Minas Gerais, o café. Não se trata apenas de produção rural, mas da reorganização de cadeias produtivas, fluxos logísticos, infraestrutura e redes urbanas inteiras subordinadas à dinâmica agroexportadora.

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    Essas transformações econômicas tiveram repercussões sociais da mesma magnitude. O velho fazendeiro foi substituído por grandes empresas articuladas ao sistema financeiro e a fundos de investimento. Ao lado dessa elite empresarial, formou-se uma pequena e média burguesia rural integrada às cadeias das grandes corporações. Surgiu também uma camada de técnicos, administradores, prestadores de serviços especializados e segmentos urbanos dependentes da renda do agro. Essa nova estruturação social criou uma base política ampla, formada não apenas por grandes proprietários, mas também por médios e pequenos produtores e por amplos segmentos urbanos das chamadas cidades do agro. Esse grande número de pessoas dependentes da renda de cidades “rurbanas” reforça a tese de que o agronegócio constitui uma “concepção de sociedade” não restrita ao meio rural. Eventos como agrishow, rodeios, festas do peão e o apoio da indústria cultural ajudaram a moldar a opinião pública a favor do setor.

    O peso eleitoral desse bloco ficou evidente nas últimas eleições presidenciais: Jair Bolsonaro obteve maioria em 7 dos 10 maiores estados do agronegócio, com exceção de Minas Gerais, Bahia e Pará. Mas a força política do setor não se limita ao plano federal. Nas eleições municipais e estaduais, onde se decidem regulações ambientais, licenciamentos e políticas de infraestrutura, a presença de representantes ligados ao agro é ainda mais determinante. Vale ressaltar: os representantes políticos de uma parte cada vez maior das cidades e estados brasileiros estão hoje mais ligados ao “mundo rural” do que ao urbano. Isso ajuda a compreender por que o agronegócio deixou de ser apenas um setor produtivo e passou a influenciar de forma decisiva os rumos políticos do país.

    Esse processo gerou uma massa de pessoas pobres nas cidades do país, ao mesmo tempo em que concentrou a riqueza nas mãos de um pequeno grupo de endinheirados. Na sua pesquisa você traz um retrato desse grupo de super-ricos. Quais são as principais características desse grupo e como você chegou a esse panorama?

    A regressão industrial, a financeirização e a centralidade do setor primário exportador reorganizaram o topo da pirâmide social brasileira. Quando observamos relatórios de riqueza, como a lista de bilionários divulgada pela Forbes, predominam entre os super-ricos brasileiros os controladores de instituições financeiras, gestores de fundos, grandes varejistas e magnatas do agronegócio verticalizado. Mesmo os industriais que aparecem, em geral, operam sob lógica rentista. A riqueza deixa de estar vinculada à expansão produtiva e passa a girar em torno da valorização de ativos, da exportação de commodities e da intermediação financeira. A própria mercantilização de bens públicos produziu bilionários nos setores de saúde e educação, o que diz muito sobre nosso padrão recente de acumulação.

    Há ainda um problema metodológico: medir os ricos no Brasil é sempre subestimar sua real dimensão. Pesquisas domiciliares capturam mal a renda do capital; dados tributários enfrentam evasão, elisão e blindagem patrimonial; e a maioria dos estudos mede renda (um fluxo) e não riqueza (o estoque de ativos que gera poder econômico). Parte expressiva do patrimônio está em holdings, offshores, trusts e estruturas geridas por family offices. Ainda assim, há consenso de que o número de super-ricos cresceu fortemente desde os anos 2000 e que a concentração no topo se aprofundou.

    Por isso, mais do que quantificá-los, procuro compreender o bilionário como tipo social. Nos anos 1980, três brasileiros na lista da Forbes pareciam excentricidade; hoje são centenas. Esse crescimento não é sinônimo de prosperidade, mas expressão de um modelo rentista. O bilionário contemporâneo não é, em geral, o industrial que constrói fábricas, mas o controlador de ativos que extrai dividendos. Seus interesses tendem a ser financeiros e cosmopolitas, pouco conectados a um projeto nacional de desenvolvimento. No fundo, o retrato dos super-ricos é a radiografia da própria regressão estrutural do país.

    Em relação à regressão cultural e política ocasionada por esse processo, você aponta o Golpe de 1964 e o neoliberalismo dos anos 1990 como marcos que mudaram os rumos da Revolução Cultural iniciada na Era Vargas. Qual o atual cenário da nossa indústria cultural e como ele se insere nesse processo de de-civilização?

    O ponto de partida é reconhecer nosso atraso cultural estrutural. O Brasil ingressa tardiamente na modernidade, com uma sociedade profundamente desigual, marcada pelo analfabetismo, pela fragilidade das instituições públicas e por uma elite cosmopolita que reproduzia padrões culturais externos, enquanto a maioria da população permanecia excluída do universo letrado. Esse atraso não era apenas cultural e educacional, mas também político.

    A partir de 1930, contudo, vivemos aquilo que Antonio Cândido chamou de uma verdadeira Revolução Cultural. A industrialização, a urbanização e a construção do Estado nacional criaram as bases materiais para a formação de um sistema cultural integrado. Música popular, literatura, cinema, artes plásticas e pensamento social passaram a dialogar com a realidade brasileira e a produzir formas próprias de expressão. O nacionalismo econômico tinha seu correlato cultural: tratava-se de afirmar o Brasil como nação, não apenas como território.

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    Esse processo foi interrompido pelo Golpe de 1964. A ditadura recorreu às formas objetivas de dominação (censura, perseguição, repressão), mas também promoveu uma inflexão cultural profunda. Como sempre distinguiram Marx, Weber e Gramsci, nenhuma dominação se sustenta apenas na força ou no mercado; ela exige a formação de subjetividades e a construção de hegemonia. A cultura nacional em estruturação foi progressivamente substituída por uma cultura de consumo fomentada pelos meios de comunicação privados e altamente concentrados, simbolizados pela Rede Globo.

    Em uma sociedade ainda marcada pelo analfabetismo e pela baixa escolarização, consolidou-se uma indústria cultural moderna que difundia entretenimento de massa ao mesmo tempo em que naturalizava o privatismo, o consumismo e a concorrência como expressão de liberdade individual.

    Minha crítica à indústria cultural brasileira parte exatamente desse ponto: sua altíssima concentração em um país socialmente desigual e que passa pela degradação do ensino. O establishment forjou uma hegemonia em que os interesses das elites passaram a se apresentar como interesses gerais da sociedade. A cultura de consumo substituiu a ideia de projeto nacional e a lógica da valorização do capital passou a organizar também a produção simbólica.

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    Essa estrutura de poder manteve-se após a redemocratização e se aprofundou com a financeirização, à medida que grupos econômicos hegemônicos, especialmente bancos e fundos de investimento, ampliaram sua influência direta ou indireta sobre os meios de comunicação. Muitos imaginaram que as redes sociais romperiam esse processo. O Brasil se tornou um dos países que mais utilizam essas plataformas no mundo. No entanto, incorporadas a uma sociedade já deteriorada pela regressão econômica e pelo esgarçamento dos laços sociais, elas não produziram uma esfera pública mais democrática. Ao contrário, intensificaram a fragmentação, a polarização e a circulação de fake news.

    Se a concentração das mídias tradicionais já tinha efeito deletério sobre a formação da opinião pública, as novas mídias agravaram o problema pelo seu alcance e poder de penetração, operando sobre uma massa de indivíduos cada vez mais isolados e vulneráveis à manipulação simbólica. O resultado é o que denomino processo de de-civilização: a regressão econômica, aprofundada por décadas de neoliberalismo, encontra seu correlato na dissolução das referências culturais comuns, na mercantilização da vida social e na subordinação da esfera pública à lógica do dinheiro.