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    China

    Exemplo da China coloca para o Brasil a necessidade de formar maioria política

    Desenvolvimento econômico depende da capacidade de desenhar um ambiente sociopolítico propício aos nossos interesses estratégicos

    POR: Elias Jabbour

    10 min de leitura

    Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva durante visita do presidente brasileiro a Pequim em abril de 2023. Foto: Ricardo Stuckert / PR
    Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva durante visita do presidente brasileiro a Pequim em abril de 2023. Foto: Ricardo Stuckert / PR

    É possível importar o modelo de planejamento da China para o Brasil? Esta é uma pergunta que me fazem há 30 anos, e que procuro responder nesta coluna.

    Quando questionamos se podemos trazer as formas de atuação do Estado chinês e replicá-las no Brasil, é importante lembrar que tivemos um Estado desenvolvimentista no Brasil que internalizou todos os mecanismos e instituições típicas desse modelo. Como exemplos, posso citar o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Petrobras, uma grande estatal que passou a gerar efeitos de encadeamento para o restante da economia. O Brasil planejou ciclos de substituição de importações, como ocorreu com a implementação da indústria automobilística no governo de Juscelino Kubitschek.

    Trouxemos as montadoras para o país e, a partir delas, conseguimos fomentar entre duas e três mil empresas brasileiras no setor de autopeças. Assim, em vez de apenas importar peças para carros, passamos a concebê-las e produzi-las aqui. Com o tempo, essas empresas foram se fundindo, de modo que, na década de 80, o Brasil chegou a ser considerado a “oficina mecânica do mundo”.

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    Nesse período, o país planejou a construção da ponte Rio-Niterói, que era a maior ponte do mundo na época e um verdadeiro fenômeno de engenharia. Em 1975, inauguramos o metrô de São Paulo com trens, trilhos, escadas rolantes e engenharia integralmente brasileiros. O final do regime militar foi caracterizado pela construção do que chamo de “Departamento Novo” da economia: a indústria mecânica pesada, voltada para a produção de bens de capital, como turbinas para usinas, trens de metrô e escadas rolantes.

    Dessa forma, o Brasil alcançou todos os estágios da Segunda Revolução Industrial entre as décadas de 70 e 80. Entre 1930 e 1980, o país percorreu uma trajetória que nos levou da “Idade Média” à “Idade Contemporânea”. Enquanto a Europa levou 600 anos para evoluir nesse sentido, o Brasil realizou essa transição em apenas 50 anos, construindo um aparelho que denomino capitalismo de Estado. Instituições presentes em Brasília, como o banco BRB, o BNDES e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), são protótipos desse capitalismo de Estado brasileiro, consolidado durante o nosso período desenvolvimentista.

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    Experiência chinesa

    Em 2004, estive na China pela primeira vez  para concluir a parte prática da minha dissertação de mestrado, quando conheci o interior profundo do país e as grandes obras que estavam sendo desenvolvidas: hidrovias, hidrelétricas e gasodutos. Nesse ínterim, questionei engenheiros e burocratas em Pequim e em diversas instituições ligadas ao transporte de energia como estavam conseguindo, a partir de um grande pacote fiscal, conceber uma “marcha para o oeste” com características chinesas.

    A China lançou esse programa de desenvolvimento do oeste em 1989, como uma resposta à crise financeira de 1997. Como decidiram não desvalorizar o câmbio para não prejudicar os vizinhos, eles focaram na utilização do potencial do mercado interno por meio de investimentos em infraestrutura, integrando o litoral próspero ao oeste rico em recursos naturais.

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    Minha tese de mestrado defendia que a China estava construindo uma política para o oeste baseada nas instituições e políticas criadas pelos Estados Unidos no último quarto do século XIX. A China inclusive escolheu a cidade de Chongqing para replicar o papel que Chicago teve na expansão para o oeste americano. Eles copiaram as instituições estadunidenses que foram fundamentais para unificar seu território e transformar os Estados Unidos em uma economia continental entre dois oceanos. Minha hipótese em 2005 era de que a China iria consolidar esse processo e unificar seu território econômico – em 30 anos se tornaria uma economia continental unificada, gerando impactos globais comparáveis, mas de sentido oposto, aos da unificação do território estadunidense. Esse processo de unificação econômica e de integração Oeste-Leste é fundamental para o futuro do socialismo, e é evidente que eu errei –  ele ocorreu de forma muito mais rápida do que o esperado.

    Desde 2009, a China construiu 45 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade, com a meta de atingir 70 mil quilômetros até 2035. Mais do que conectar seu próprio território, o país promove hoje a unificação do mercado econômico da Ásia e da Eurásia, em parceria com a Rússia, o que está abalando os alicerces do mundo.

    Esse sucesso se deve a um elevado grau de intervenção do Estado na economia. A China atual representa uma mistura fascinante de planejamento soviético com o planejamento indicativo das experiências desenvolvimentistas clássicas, como as observadas no Brasil, México, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. Ao absorver essas diversas lições, a China inaugurou o que chamo de desenvolvimento liderado pelo Partido Comunista, uma forma superior de Estado desenvolvimentista.

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    Modelo brasileiro de desenvolvimento

    Quando questionado se é possível aplicar esse modelo de desenvolvimento e intervenção em nosso país, reforço que a China aprendeu com o Brasil. No entanto, enfrentamos uma desinformação que nos leva a acreditar que não temos direito ao futuro por termos um passado supostamente horrível.Existe hoje um revisionismo histórico, tanto de direita quanto de esquerda, que tenta nos convencer de que o Brasil possui um passado indigno e que não temos futuro. Essa narrativa, compartilhada pela esquerda liberal e pela extrema direita, sugere que a única solução para o país seria entregar nosso destino a interesses estrangeiros. O que argumento é que, apesar de nossas contradições, carregamos uma herança que é uma chaga no corpo da nação: o desenvolvimento realizado sem reforma agrária. Essa “via prussiana” não se concretizou plenamente porque o Brasil parou de crescer nos anos 1980, e essa estagnação, somada à falta de uma reforma agrária prévia, nos lançou na crise urbana profunda que vivemos hoje.

    Tudo isso moldou a percepção de que somos um país sem passado, presente ou futuro, mas é essencial que as pessoas saibam que o Brasil já foi um exemplo de desenvolvimento para os próprios chineses. Sobre a possibilidade de internalizarmos novamente um Estado desenvolvimentista e seus mecanismos de planejamento, precisamos considerar que a China realizou uma revolução em 1949. Um processo revolucionário dessa magnitude confere autonomia para o país escolher sua própria dinâmica de desenvolvimento, permitindo a estatização de meios estratégicos e dando ao Estado um poder absoluto sobre a economia. O Brasil já teve esse tipo de capacidade no passado, mas a perdeu, e sua recuperação é um desafio complexo.

    A China importou e adaptou, com muito sucesso, os esquemas de planejamento soviético. Mais do que isso, à medida que lança mão de inovações tecnológicas disruptivas — como o 5G, Big Data, inteligência artificial e computação quântica — o governo chinês transforma essas tecnologias em ferramentas reais de planejamento econômico. O Brasil ainda está longe de alcançar esse patamar. A raiz dessa diferença reside na Revolução de 1949, que, em essência, foi a construção de uma grande maioria política em torno de um projeto estratégico e um ato político de afirmação do direito ao desenvolvimento e ao planejamento.

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    O Brasil não passou por uma revolução como a chinesa. Nós nos aproveitamos de um Estado desenvolvimentista que se consolidou em meio à Guerra Fria, período em que a existência da União Soviética ajudou países como o Brasil a ampliarem sua margem de manobra global para se desenvolverem. Hoje, porém, a União Soviética não existe mais e os Estados Unidos já não exportam capitais produtivos como antes.

    Dessa forma, o que podemos aprender com os chineses atualmente é a busca incessante pela formação de uma maioria política no Brasil. Precisamos de uma base que tenha condições de internalizar esquemas de Estado desenvolvimentista e de planejamento econômico, semelhantes aos observados não apenas na China, mas também na Coreia do Sul, no Japão e em Taiwan.

    Mesmo antes de alcançarmos o socialismo, se criarmos as condições necessárias, podemos construir um capitalismo com alto nível de planificação. Se conseguirmos introduzir mecanismos de ativismo estatal e de planejamento, como os percebidos nas economias asiáticas ou mesmo na Alemanha, o Brasil dará um salto de qualidade absurdo. No entanto, não chegaremos a esse ponto de recuperar o nosso Estado desenvolvimentista sem formarmos uma autonomia política sólida.

    É com esse objetivo que estamos organizando um grande movimento em torno de um Projeto Nacional de Desenvolvimento para o Brasil. Esse movimento tem como prerrogativa a construção de uma maioria política que nos capacite a escolher nossos próprios esquemas de desenvolvimento. Afinal, o desenvolvimento econômico não é fruto de uma simples vontade de quem chega ao poder; ele depende da capacidade de desenhar um ambiente sociopolítico propício aos nossos interesses estratégicos.

    O papel dessa nova maioria política é conceber esquemas próprios que nos permitam recriar o Estado desenvolvimentista em termos modernos, abrindo novos caminhos sociais para o país. Podemos, sim, trazer experiências externas para o Brasil, desde que construamos uma força política coesa, da mesma forma que os chineses fizeram em 1949, renovando seus objetivos estratégicos ao longo do tempo.

    Assista à íntegra do Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour

    Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

    *Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 04/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo. 

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.