Logo Grabois Logo Grabois

Leia a última edição Logo Grabois

Inscreva-se para receber nossa Newsletter

    Democracia

    Esquerda precisa combinar razão e sentimento na guerra cultural das eleições 2026

    Esquerda precisa se mobilizar contra trabalho sistemático e internacional da extema-direita nas redes sociais com plataforma conservadora, reacionária e negacionista

    POR: Aldo Arantes

    6 min de leitura

    Eleitor vota em seção eleitoral no Rio de Janeiro (RJ) durante o primeiro turno das eleições gerais de 2022. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
    Eleitor vota em seção eleitoral no Rio de Janeiro (RJ) durante o primeiro turno das eleições gerais de 2022. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

    A luta política atual ocorre sob novas condições. A introdução de uma plataforma conservadora, reacionária e negacionista, que utiliza as redes sociais apelando mais ao sentimento, ao ódio, à violência e à fé do que à razão, colocou o debate em um novo patamar. Essas ideias conservadoras vêm se consolidando há um tempo razoável, desde a Sociedade de Mont Pèlerin em 1947 na Suíça, com Friedrich Hayek, que visava defender o liberalismo, o livre mercado e combater a intervenção do Estado na economia. Ele já levantava a importância da luta de ideias, defendendo que a transformação da sociedade deveria ocorrer prioritariamente entre professores, intelectuais e estudantes, para só depois se voltar para os políticos.

    A câmara escura digital: Marx, Lênin e a consciência algoritmicamente modulada
    Nações Digitais: o projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais

    Isso teve consequências práticas significativas. Essa ofensiva ganhou corpo com o conservadorismo norte-americano na década de 1950, visando combater a social-democracia do New Deal e a ameaça do “comunismo internacional”. A CIA, por exemplo, identificou que o crescimento das esquerdas na América Latina ocorria nas universidades e criou programas específicos para conquistar a juventude e levar o pensamento conservador para esses ambientes. Com muito dinheiro, foram organizados pelas forças da extrema direita os chamados “think tanks” para elaborar e divulgar o pensamento de defesa do mercado e de negação das ideias progressistas.

    + Aldo Arantes: ‘Enfrentamos guerra cultural, precisamos disputar mente das pessoas’
    + Guerra tecnológica e a lição da China sobre soberania digital

    Trata-se de um trabalho sistemático e internacional de negação da verdade, da política, dos partidos e da democracia. Com a consolidação do neoliberalismo e a crise do socialismo, as esquerdas entraram em uma defensiva estratégica, agravada pelo surgimento das redes sociais e sua apropriação pela extrema-direita. A guerra cultural é um fenômeno mais recente, que incorpora essa plataforma conservadora de forte influência norte-americana, onde a religião desempenha um papel central. Um dos objetivos da extrema-direita é deslocar o eixo dos debates: enquanto os setores progressistas e democráticos focam na razão e na estrutura econômico-social, a extrema direita enfatiza questões morais com o discurso de “família, Deus e propriedade”.

    Para isso, contam com o apoio da extrema direita internacional, sobretudo do governo de Donald Trump nos EUA, além do apoio dos grandes empresários, da grande mídia e da maioria dos evangélicos e católicos pentecostais. Eles utilizam fake news, relativizam a verdade e defendem uma liberdade de expressão absoluta para espalhar mentiras. São negacionistas que negam a ciência e a história.

    No Brasil, essa corrente negacionista teve grande impulso no governo de Jair Bolsonaro e foi alimentada pela intensa atividade de Olavo de Carvalho, que subestimamos por muito tempo. Essa regressão se expressa na negação do pensamento crítico, no ataque ao marxismo, à universidade pública e ao legado de Paulo Freire. O governo Bolsonaro contribuiu com esse cenário ao extinguir o Ministério da Cultura e cortar recursos da área. Politicamente, essa regressão atingiu seu ápice com os ataques ao Supremo Tribunal Federal, o questionamento das urnas e o estímulo à tentativa golpista de 2022.

    + Fascismo contemporâneo cultua ignorância para se perpetuar
    + Musk e Zuckerberg: novos oligarcas na órbita de Trump

    Historicamente, o Brasil teve processos de politização importantes, como o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC – UNE), o Movimento de Cultura Popular (MCP) e o método Paulo Freire no governo de João Goulart. No entanto, houve uma subestimação da politização da sociedade durante os governos do PT, o que nos deixou vulneráveis.

    Recentemente, começamos a perceber que a luta ideológica hoje se dá mais pelo sentimento do que pela razão. Precisamos aprender a combinar ambos, encontrando palavras de ordem que toquem o povo, como fizemos ao reverter a narrativa da “PEC da Blindagem” a partir da mobilização popular contra essa tentativa de anistia aos envolvidos na tentativa de golpe em 2022 ou ao caracterizar os bolsonaristas como traidores da pátria, por defenderem a imposição de tarifas contra o Brasil pelo governo Trump.

    Precisamos de um plano de luta de ideias, adaptado a cada estado, que aborde temas centrais:

    • Combate à escala 6×1: mostrar que quem se opõe é contra o trabalhador.
    • Defesa do Estado e dos serviços públicos: defender o SUS e as universidades contra a privatização.
    • Combate aos juros altos: denunciar como isso favorece apenas os banqueiros.
    • Questão climática: expor o desmonte ambiental do governo anterior.
    • Enfrentamento ao feminicídio e ao machismo: Combater a violência da extrema-direita.
    • Desmonte da falsa narrativa de corrupção: Apontar a direita como a grande corruptora (caso das joias).
    • Segurança pública: Focar na garantia da população sem discriminar pobres e negros.
    • Defesa das instituições: Apoiar o STF contra as agressões golpistas.

    + Nota Técnica: Redução da Jornada de Trabalho e o Fim da Escala 6×1

    No processo eleitoral, devemos alertar a sociedade para analisar o perfil de cada candidato e sua posição sobre a tortura e o golpismo. Mas não basta reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, precisamos de um parlamento mais avançado para realizar reformas estruturais. Devemos defender a reforma política, a reforma tributária, a democratização da mídia e a regulamentação das redes sociais. Colocar essas reformas em pauta desmascara o falso discurso antissistema da direita. Precisamos politizar a campanha, unindo razão e sentimento, para eleger uma maioria que permita ao governo avançar e não ficar amarrado, evitando que a sociedade acabe culpando o próprio governo pela paralisia institucional.

    Assista à fala de Aldo Arantes no Seminário Guerra Cultural e Eleições 2026

    *Aldo Arantes é advogado, membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador da Associação de Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania (ADJC). É autor do livro Domínio das mentes – do golpe militar à guerra cultural. Militante histórico do PCdoB, foi deputado federal constituinte por Goiás, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o golpe de 1964, e um dos fundadores da Ação Popular (AP).

    **Análise realizada durante o Seminário Guerra Cultural e Eleições 2026 transmitido pela TV Grabois em 28/02/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo e anotações de Aldo Arantes para sua intervenção no seminário. 

    **Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.