O embate militar iniciado por Estados Unidos e Israel contra o Irã está com o foco voltado para o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 30% do petróleo mundial.
Enquanto seres políticos e militantes, a conjuntura muitas vezes nos atropela e nos obriga a entregar respostas e opiniões sobre o que está acontecendo no mundo. Este é o caso do que ocorre no Irã, das origens desse conflito e de suas consequências para os envolvidos e para a economia internacional. Nesta coluna, explico porque a tentativa de derrubada do governo do Irã tem relação com o dólar, com a geopolítica e com o controle do Estreito de Hormuz.
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Política externa e religião
Como diz Karl Marx, o concreto é feito de múltiplas determinações, e a questão iraniana também obedece a essa lógica. A política externa dos Estados Unidos e de Israel obedece a um critério específico, pois são dois países que se comportam como teocracias no pior sentido possível.
Eles se acreditam um povo eleito. Os Estados Unidos se veem como uma “Nova Canaã”, a nação que levará a civilização ao mundo e que já nasceu como democracia, segundo o estatuto de seus presidentes. Nos discursos de posse, o que há de mais reacionário no pensamento do Velho Testamento ganha força e se transforma em uma política externa baseada no “olho por olho, dente por dente”.
Uma das características de EUA e Israel é ter sua política externa pautada por princípios de vingança, e não de mediação. Se o Hezbollah lança um foguete Katyusha em Israel, a resposta é a destruição de parte de Beirute, sem o menor esforço de mediação de conflitos quando o Estado de Israel está envolvido. Isso ocorre porque uma lógica religiosa rege a política externa desses países. No caso dos Estados Unidos, fica evidente outra lógica relacionada diretamente à vingança: eles não toleram ser derrotados. Foram derrotados na Guerra da Coreia em 1953, quando o exército mais poderoso do mundo foi contido por um exército de camponeses pobres da China e da Coreia.
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Foi uma derrota humilhante e, até hoje, a Coreia Popular paga um preço altíssimo por não ter dobrado sua espinha para os Estados Unidos naquele momento. As sanções econômicas, o cancelamento do governo e a expulsão do sistema financeiro internacional representam essa política de vingança. Estive lá em 2009 e notei que um dos objetivos da política externa da Coreia Popular era o reconhecimento diplomático pelos Estados Unidos e Japão. Eles buscam canais de diálogo da maneira deles, inclusive através de um arsenal nuclear, pois é assim que as coisas funcionam no mundo.
Outro caso é o do Vietnã, onde a derrota dos Estados Unidos foi fragorosa e humilhante. Até hoje eles sentem o peso daquela derrota, onde um exército preparado para lutar contra a União Soviética se deparou com camponeses muito bem treinados e com um estado de espírito fortalecido. Embora a relação atual entre Estados Unidos e Vietnã seja boa, isso se deve ao fato de o Vietnã ser um país asiático capaz de observar o curto, médio e longo prazo, vivendo sob a pressão de ter a China em sua fronteira. Apesar das ótimas relações atuais entre China e Vietnã, existem tensões centenárias entre os dois países.
O Vietnã utiliza a relação com os Estados Unidos como uma base de manobra, e para os americanos é interessante ter boas relações até que o Vietnã se torne um país rico e capaz de tomar mercados de empresas norte-americanas mundo afora: nesse ponto, a amizade acaba.
No caso do Irã, houve em 1953 a eleição de um primeiro-ministro nacionalista, Mohammed Mossadegh (1882-1967), que nacionalizou os campos de petróleo com o apoio do que havia de mais progressista no país. O serviços de inteligência de EUA e Reino Unido, CIA e MI6 respectivamente, derrubaram Mossadegh em um golpe de Estado que estabeleceu a governança de Xá Reza Pahlavi (1878-1944), um regime ditatorial impopular e violento que transformou o Irã em uma colônia dos Estados Unidos e da Inglaterra.
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Nas manifestações atuais contra o governo iraniano, é comum ver a bandeira antiga do Irã junto às bandeiras dos Estados Unidos e de Israel. O filho do Xá Reza Pahlavi, que por vezes se comporta de forma questionável, visita Israel proclamando futuras ótimas relações. O regime anterior era fantoche, e é isso que os Estados Unidos querem restabelecer no Irã. A Revolução Islâmica de 1979 é, antes de tudo, uma revolução que possui grande aceitação popular, independentemente do que achemos de uma teocracia. Costumamos observar o Irã a partir de uma ótica ocidental, que omite as manifestações favoráveis ao governo.
Não estou aqui para defender o governo do Irã, mas para analisar a realidade como ela se apresenta. O ideal para o Irã seria uma governança como a de Mossadegh, mas a vida é implacável e não fazemos a história nas circunstâncias que escolhemos. Contraditoriamente, é essa teocracia que está hoje na linha de frente da luta anti-imperialista. Em 1979, sob a inspiração do Aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989), eles derrubaram o governo ultra-reacionário de Reza Pahlavi, nacionalizaram os campos de petróleo e expulsaram os americanos.
A embaixada americana foi fechada e houve uma tentativa de resgate de reféns que terminou em tragédia e vergonha para os americanos no deserto. Logo em seguida, os Estados Unidos incentivaram a guerra do Iraque para desgastar o Irã, um conflito que terminou em 1988 sem vencedores claros. Desde a instalação da República Islâmica, os Estados Unidos operam diariamente para derrubar o governo, o que é um objetivo estratégico e um fato incontestável da história.
A questão central é vingança e petróleo: os EUA não estão preocupados com a opressão feminina no Irã. Desafio alguém a me mostrar onde a intervenção americana trouxe libertação feminina, seja no Afeganistão ou no Iraque. Pelo contrário, no Iraque eles saquearam o Museu Histórico de Bagdá, ato de um exército que se comporta como bárbaro.
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Brics e nota rota do seda
Além do petróleo, há uma questão puramente geopolítica. O Irã está localizado em uma área hiperestratégica, sendo um aliado vital para o projeto chinês da iniciativa “Cinturão e Rota”, popularmente conhecida como a Nova Rota da Seda. Se o governo iraniano cair, será um golpe duro contra essa iniciativa e contra o BRICS, grupo do qual o Irã faz parte.
A relação entre China, Rússia e Irã é de alta intimidade. A China possui um acordo de 25 anos com o Irã, trocando obras de infraestrutura e defesa por petróleo. A Rússia mantém relação semelhante. Em um mundo onde o Irã sofre embargos, a China é fundamental para sua sustentação econômica, negociando petróleo em moedas que não o dólar, o que representa um golpe significativo no sistema financeiro internacional.
A tentativa de derrubada do governo iraniano tem relação com o dólar, com a geopolítica e com o controle do Estreito de Hormuz. Quem controla esse estreito controla a inflação e a macroeconomia global. Ter um governo hostil nessa região é intolerável para os Estados Unidos. As questões de direitos humanos e das mulheres são secundárias e servem como propaganda para convencer parte da esquerda de que o Irã não deve ser defendido. Não entrarei no mérito de como o povo iraniano deve viver; acredito que nenhum país ocidental, especialmente os Estados Unidos, possui autoridade moral para isso, dado que seu próprio regime enfrenta escândalos graves, como o caso Epstein. Da mesma forma, no Brasil enfrentamos casos diários de feminicídio. A questão do lugar das mulheres em uma sociedade islâmica é um problema que cabe ao Irã resolver.
‘Grande Israel’
Outro ponto fundamental é o projeto da “Grande Israel”. Considero Benjamin Netanyahu um estrategista político, apesar de ser chefe de um regime sionista que representa o fascismo do século XXI. Ele implodiu o poder de fogo do Hamas em Gaza através de um genocídio e tenta impor uma nova governança pela força, enquanto amplia a presença na Cisjordânia.
Existe também uma relação nebulosa entre o Estado Islâmico, o Mossad e a CIA; o Estado Islâmico nunca atacou Israel militarmente, e na política não há coincidências. Bashar al-Assad, que liderava o único governo laico da região na Síria, foi alvo de ataques, enquanto figuras que antes cometiam atrocidades tornaram-se aliadas dos interesses americanos e israelenses. Israel agora tenta ocupar o Líbano e sua fronteira com a Síria. A grande “pedra no sapato” é o Irã. Netanyahu afirma há 20 anos que o Irã terá uma bomba nuclear em breve, uma propaganda semelhante à das armas de destruição em massa no Iraque.
Há um poder muito grande da comunidade judaica nos Estados Unidos que financia eleições; negar a força desses magnatas seria ignorância. Embora a corrente política de Trump tenha uma visão de não intervenção para reconstruir os Estados Unidos, é impossível não prender qualquer presidente americano aos interesses diretos de Israel. A política externa dos Estados Unidos é, em grande parte, pautada pelos interesses israelenses.
Sob a ótica chinesa e russa, é interessante que os americanos se afundem em uma guerra no Oriente Médio, pois isso consome recursos que seriam destinados à competição tecnológica e militar. Entrar em uma guerra que custaria um trilhão de dólares não é estratégico para os Estados Unidos no longo prazo.
No seio do movimento de Trump, há contradições: o jornalista Tucker Carlson, por exemplo, considera essa ideia de guerra com o Irã uma loucura. Além disso, existem relatos de uma possível chantagem de Israel contra a elite política americana, incluindo Trump e Bill Clinton, devido às relações com Jeffrey Epstein. Israel possui meios de pressionar a governança dos EUA, arrastando o país para um conflito em que podem ser derrotados no longo prazo.
Os norte-americanos esperavam que o assassinato de líderes ou ataques a Teerã levassem a uma queda imediata do governo e a uma revolta popular pró-Ocidente, mas isso não aconteceu. O Irã resistirá ao máximo e tentará atrair os Estados Unidos para uma armadilha: tem demonstrado capacidade de atingir alvos estratégicos e bases americanas no Oriente Médio. Logisticamente, os Estados Unidos enfrentam dificuldades para manter uma guerra prolongada, pois seus navios precisam de reabastecimento constante e as bases próximas podem estar comprometidas.
Embora a superioridade aérea e militar combinada de Israel e Estados Unidos seja maior, em uma guerra contra o Irã, que possui lançadores de mísseis móveis e cidades subterrâneas, isso não garante vitória. Em um caso de agressão estrangeira, o povo de uma civilização milenar como a do Irã tende a se unir contra o agressor, independentemente do governo. É um erro da grande imprensa acreditar que problemas econômicos internos, como inflação e crise cambial, resultariam em apoio a um ataque estrangeiro.
Por já ter sentado na mesa de negociações e visto os Estados Unidos abandonarem acordos e bombardearem, o Irã não aceita cessar-fogo e considera esse conflito como uma luta existencial. Diferente da Venezuela, onde os EUA conseguem pautar a política interna, o Irã possui um sentimento nacional muito profundo e arraigado. Certamente não será uma vitória fácil para os agressores e um empate em uma guerra dessas já seria uma vitória razoável para o Irã.
Assista à íntegra do programa Meia Noite em Pequim com Elias Jabbour:
Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.
*Análise publicada originalmente no programa Meia Noite em Pequim (TV Grabois) em 11/03/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundaçãa Maurício Grabois.