Viveu-se um clima de Copa do Mundo no último domingo (15). No histórico cinema São Luiz no Recife (PE), nas ladeiras de Olinda, em festas e eventos pelo país afora, nas redes ou pela tela da TV, a Cerimônia do Oscar de 2026 ganhou ares de jogo decisivo, confronto final, vale tudo. O Brasil concorrendo a cinco categorias na premiação da Academia Norte-Americana de Cinema, sendo quatro para O Agente Secreto (melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor direção de elenco), e o brasileiro Adolpho Velloso concorrendo à melhor direção de fotografia pelo filme Sonhos de Trem. O Brasil parou para ver o Oscar. A torcida, no entanto, se dividiu refletindo as contradições e a polarização social e política do país.
Veja o registro da mobilização no Recife durante a transmissão do Oscar de 2026:
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A celebração da cultura brasileira, de uma imagem positiva do Brasil no mundo com nossas referências estéticas e artísticas, nossas histórias sendo contadas e premiadas nos grandes cenários da indústria cultural, davam o tom da cobertura na grande imprensa, nas redes institucionais e nos perfis do campo progressista. A carreira do longa de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura, justificava a euforia: premiado em Cannes e no Globo de Ouro, arrebatou indicações ao BAFTA, o “Oscar Britânico”, e é sucesso de público e crítica no Brasil e em várias praças importantes do mundo, com salas lotadas por sucessivas semanas. A campanha de O Agente Secreto levou os seus artistas e realizadores a pisarem o red carpet de Los Angeles já consagrados e vitoriosos, independente de qual seria o destino das estatuetas. A imagem do elenco do filme dançando ao som de uma orquestra de frevo pelas ruas de Cannes entrou para a história dos grandes momentos de nossa afirmação cultural perante o mundo.
Na deep web do zap, nos grupos e perfis da extrema-direita, a conversa era outra. Ataques aos mecanismos de financiamento público à cultura no Brasil, a obsessiva cantilena contra a Lei Rouanet (que, diga-se de passagem, não é uma lei de fomento ao audiovisual), comentários irônicos sobre os artistas e críticas ao financiamento público à cultura no Brasil. Nesses ambientes, O Agente Secreto funciona como um disparador de gatilhos, expondo recalques, ressentimentos e preconceitos reiterados ad nauseam que buscam posicionar a cultura e os artistas como inimigos públicos. No universo paralelo da extrema-direita, adjetivos como petralhas, extremistas, bajuladores e parasitas de verbas públicas organizam a narrativa reacionária que elege a cultura como alvo e espantalho de uma arquitetura de destruição, desconstrução e desinformação.
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Há outros elementos que colocam O Agente Secreto no epicentro da guerra cultural que atravessa a sociedade brasileira. O filme é ambientado no período da ditadura militar no Brasil, e as referências aos diferentes aspectos do autoritarismo daqueles tempos ecoam as erosões democráticas dos dias de hoje, presentes no comportamento social das forças de segurança, das corporações e da mídia. Uma diversidade complexa de personagens, sustentada pela atuação de um grande elenco, oferece um rico panorama de perfis e características que revelam o grotesco e o sublime das contradições de nossa formação social: violência e solidariedade, repressão e acolhimento, miséria e criatividade.

Equipe do filme O Agente Secreto na cerimônia do Oscar 2026, em Los Angeles (EUA). Crédito: Karina Chancey / Vitrine Filmes / Divulgação
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A memória histórica da ditadura vem se tornado cada vez mais um elemento importante no repertório de temas do cinema brasileiro. O Agente Secreto reverbera o êxito recente de Ainda Estou Aqui e sua sensível e vigorosa abordagem das lutas pela democracia a partir da trajetória de Rubens Paiva. Outros filmes recentes, como Marighella, de Wagner Moura (2021), A Batalha da Maria Antônia, de Vera Egito (2023), Malu, de Pedro Freire (2024) e Honestino, de Aurélio Michiles (2025), abordam, sob diferentes perspectivas, este período da história do Brasil. Esta onda de uma cinematografia comprometida em retratar, refletir e acertar contas com o passado autoritário aproxima o Brasil de uma tradição já consolidada em outros países latino-americanos. O cinema argentino, chileno e uruguaio, para ficar nestes exemplos, são referências no tratamento das temáticas de memória histórica, verdade e justiça, com refinamento estético e narrativo. Inevitável evocar, como referência recente, o excelente Argentina, 1985, de Santiago Mitre (2022), estrelado por Ricardo Darín.
Elemento fundamental das disputas simbólicas e da batalha no campo das ideias e dos afetos, o cinema também carrega uma forte dimensão econômica e é um elemento fundamental da inserção soberana do Brasil no mundo. A presença constante e sustentável do Brasil entre os grandes da indústria do audiovisual global se tornou uma realidade objetiva graças a esforços de décadas na estruturação de um robusto sistema público de fomento ao audiovisual no Brasil, com a Ancine, o Fundo Setorial do Audiovisual, o desenvolvimento regional de políticas públicas e a constituição de marcos legais estruturantes para o setor. A reconstrução do Ministério da Cultura e das políticas culturais no Brasil a partir do governo Lula e da gestão da Ministra Margareth Menezes, somados aos embates travados pelo aprimoramento dos mecanismos de regulamentação das políticas para o setor audiovisual no Congresso Nacional e na sociedade, demonstram que o momento de visibilidade e destaque do audiovisual brasileiro no mundo é consequência de uma trajetória de longa duração de luta política, organização, incidência e fortalecimento institucional.
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O que está em jogo, nas polêmicas em torno de O Agente Secreto como elemento disparador da guerra cultural travada nas redes e na sociedade brasileira, é a disputa de um projeto de país e de que imagem do Brasil queremos apresentar perante o mundo. O cinema brasileiro tem buscado, e conseguido, refletir sobre a história do país, e ao mesmo tempo dialogar com o grande público, aliando visibilidade, retorno comercial e projeção internacional a uma abordagem crítica e situada dos desafios do passado que ainda estão aqui. Chegar à cerimônia do Oscar de 2026 é, portanto, apenas mais um capítulo desta trajetória em que o cinema, essa caixa mágica que conta histórias, nos oferece um espelho à realidade, com suas alegrias, frustrações, contradições e esperanças.
Alexandre Santini é presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa (MinC), gestor, produtor cultural e escritor. Mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF e doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV, integra o Grupo de Pesquisa Cultura & Sociedade, da Fundação Maurício Grabois. Foi secretário das Culturas de Niterói, diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer. É autor do livro Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.