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    Comunicação

    Feminicídio: a violência contra as mulheres não é exceção, é estrutura

    Dados recentes e leituras feministas e marxistas sinalizam que mortes de mulheres integram dinâmicas sociais, econômicas e culturais reforçadas pelo ambiente digital

    POR: Sarah Cavalcante

    8 min de leitura

    Manifestante em ato do Dia Internacional da Mulher em Copacabana segura cartaz “Machismo mata”, durante mobilização contra a violência de gênero, Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2026. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    Manifestante em ato do Dia Internacional da Mulher em Copacabana segura cartaz “Machismo mata”, durante mobilização contra a violência de gênero, Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2026. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    O aumento dos casos de feminicídio no Brasil evidencia um problema que não pode ser tratado como exceção. A cada novo crime, a narrativa dominante insiste em individualizar a violência, seja como resultado de conflitos pessoais, seja como descontrole emocional. No entanto, essa leitura é insuficiente para explicar a recorrência e a regularidade desses casos.

    Os dados evidenciam essa dimensão estrutural. O Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentativas em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação a 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas, totalizando quase seis mulheres mortas por dia no país. As informações constam no Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL).

    Gráfico mostra feminicídios consumados e tentados no Brasil, por mês, em 2024 e 2025:

    Gráfico compara feminicídios consumados e tentados no Brasil em 2024 e 2025,

    Número mensal de feminicídios consumados e tentados no Brasil em 2024 e 2025. Imagem: reprodução do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 (Lesfem/UEL).

    Mais do que números, esses dados revelam a persistência de uma estrutura social que naturaliza a desigualdade de gênero e autoriza diferentes formas de violência contra as mulheres. O feminicídio não começa no momento do assassinato. Ele é o desfecho extremo de um processo contínuo de desvalorização, controle e violação dos corpos femininos.

    Como demonstra a socióloga brasileira Heleieth Saffioti, a violência contra a mulher não pode ser compreendida como desvio individual, mas como expressão de uma estrutura de poder que articula patriarcado e capitalismo, organizando as relações sociais de forma desigual (SAFFIOTI, 2015). Nesse sentido, o feminicídio não é um evento isolado, mas parte de uma lógica social mais ampla.

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    Essa perspectiva se aprofunda na leitura de Silvia Federici, para quem a violência contra as mulheres não é um fenômeno periférico, mas um elemento constitutivo da própria formação do capitalismo. Historicamente, essa violência operou como mecanismo de controle sobre os corpos femininos e sua capacidade reprodutiva (FEDERICI, 2017). O feminicídio, portanto, não representa uma ruptura, mas a continuidade de uma lógica que legitima a violência como forma de poder.

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    Quando a violência vira conteúdo digital

    A lógica patriarcal e misógina vem sendo reconfigurada a partir do ambiente digital. Um relatório do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou mais de 120 canais brasileiros no YouTube dedicados à produção de conteúdo misógino, que somam mais de 23 milhões de inscritos e apresentam crescimento acelerado desde a pandemia (NETLAB, 2024).

    Nesses espaços, o que se apresenta como “valorização masculina” frequentemente se traduz na construção de uma identidade baseada na desconfiança e no ódio em relação às mulheres. Relacionamentos são tratados como disputa de poder, e o feminismo é apresentado como ameaça. Trata-se da constituição de uma cultura que não apenas reproduz, mas atualiza padrões históricos de dominação.

    Gráfico mostra predominância de temas em títulos de vídeos misóginos analisados pelo NetLab da UFRJ:

    Gráfico mostra predominância de temas de desprezo às mulheres e insurgência masculina em títulos de vídeos misóginos analisados pelo NetLab da UFRJ.

    Gráfico apresenta a composição percentual dos temas identificados em títulos de vídeos de canais misóginos analisados pelo NetLab/UFRJ. Imagem: reprodução do relatório Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube.

    A antropóloga Rita Segato contribui para compreender esse fenômeno ao afirmar que a masculinidade não é um dado natural, mas um status que precisa ser constantemente reafirmado. Essa reafirmação exige um “tributo”, e historicamente o corpo feminino tem ocupado esse lugar simbólico (SEGATO, 2016). Nesse contexto, a violência não é um desvio, mas um mecanismo de validação dessa masculinidade.

    Essa interpretação desloca o feminicídio do campo do crime individual para o campo da política. Para Rita Segato (2016), trata-se de um crime categorial. Não se dirige apenas a uma pessoa específica, mas a uma categoria social. A vítima é despersonalizada porque o que importa é o significado social do ato, isto é, a reafirmação de um poder que se exerce sobre as mulheres.

    Essa dimensão comunicativa da violência ajuda a compreender por que o feminicídio possui efeitos que ultrapassam o caso individual. Ele envia uma mensagem, produz medo e reafirma hierarquias.

    Ao mesmo tempo, como aponta a marxista Silvia Federici, a violência contra as mulheres desempenhou, ao longo da história do capitalismo, um papel central no controle de seus corpos e de sua força de trabalho (FEDERICI, 2017). No contexto contemporâneo, esse mecanismo assume novas formas, mediadas por plataformas digitais que ampliam o alcance desses discursos e, em muitos casos, os transformam em fonte de lucro.

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    De acordo com o levantamento do NetLab, cerca de 80% desses canais são monetizados. Isso indica que a misoginia não é apenas uma expressão ideológica, mas também um produto que gera engajamento e receita. Estamos, portanto, diante de uma engrenagem que articula cultura, mercado e poder.

    Esse dado é decisivo porque altera a escala do problema. A violência simbólica não circula apenas como opinião, mas é incentivada por modelos de negócio baseados na atenção e no engajamento, que frequentemente favorecem conteúdos extremos e polarizadores. Há, portanto, quem lucre com a violência contra as mulheres.

    Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o feminicídio não diminuiu, mesmo com maior visibilidade pública do tema. Quando a misoginia se torna linguagem cotidiana, em conteúdos e comunidades digitais, memes, discursos e práticas sociais, cria-se um ambiente em que a violência deixa de ser exceção e passa a ser parte de um continuum.

    Diante desse cenário, o enfrentamento ao feminicídio não pode se restringir à punição dos crimes após sua ocorrência. Como indicam as leituras de Heleieth Saffioti e Silvia Federici, trata-se de uma violência inscrita na própria organização social, articulada ao patriarcado e às dinâmicas do capitalismo. Isso significa que respostas pontuais ou exclusivamente punitivas são insuficientes, pois não alteram as condições que produzem e reproduzem essa violência.

    Ao mesmo tempo, como aponta Rita Segato, a violência contra as mulheres opera como linguagem de poder e mecanismo de reafirmação de hierarquias. Nesse sentido, o feminicídio não é apenas um problema de segurança pública, mas um fenômeno político que exige enfrentamento também no plano simbólico, cultural e comunicacional.

    No contexto contemporâneo, essa dinâmica é potencializada por plataformas digitais que não apenas amplificam discursos misóginos, mas os transformam em mercadoria. A monetização desse conteúdo revela que a violência contra as mulheres está integrada a modelos de negócio que lucram com a radicalização e o engajamento, o que impõe a necessidade de sua regulação e responsabilização.

    Dessa forma, enfrentar o feminicídio implica reconhecer que não se trata de um desvio, mas de um elemento estruturante das relações sociais. Qualquer política que não confronte essa base, seja no campo econômico ou comunicacional, tende a atuar apenas sobre os efeitos, preservando as condições que permitem que essa violência continue sendo produzida, legitimada e explorada.

    Nota

    A opção por utilizar o nome e sobrenome das autoras neste artigo constitui uma decisão política deliberada, que busca enfrentar o apagamento histórico de mulheres na produção do conhecimento e afirmar a centralidade de suas contribuições.

    Referências

    FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

    TV GRABOIS. Machosfera, red pill e violência: o que está por trás do aumento do feminicídio. 2026.

    LESFEM – LABORATÓRIO DE ESTUDOS DE FEMINICÍDIOS; MARIANO, Silvana (Coord.); BERTASSO, Daiane; DIAS, Gabriella Thais Amaral. Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2026.

    NETLAB/UFRJ. Relatório “Aprenda A Evitar ‘Esse Tipo’ De Mulher”: Estratégias Discursivas E Monetização Da Misoginia No Youtube. Rio de Janeiro: UFRJ, 2024.

    SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

    SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.


    Sarah Cavalcante é jornalista, especialista em comunicação digital, mestranda no Prolam/USP e diretora de comunicação da Fundação Maurício Grabois.