A edição nº 174 da Revista Princípios, publicada em 31 de março de 2026, apresenta a segunda parte do dossiê “Inteligência artificial e novas tecnologias disruptivas: um olhar crítico”, dedicada a Cultura e sociedade. O objetivo é analisar os dilemas e contradições do progresso tecnológico, destacando seus impactos sobre a sociabilidade, a cultura e as formas de consciência social.
Os textos exploram as relações entre tecnologia e dinâmicas “superestruturais”, abordando comunicação, produção cultural, trabalho imaterial e disputas por sentidos. Com uma perspectiva crítica, a edição problematiza desigualdades e reafirma a necessidade de compreender as tecnologias como construções sociais historicamente situadas.
As duas edições resultam de uma chamada que recebeu dezenas de artigos e marcam o início de uma cooperação com a revista chinesa Mundo Contemporâneo.
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Serviço
Revista: Princípios (Qualis A3)
ISSN: 1415-7888 | E-ISSN: 2675-6609
Editora: Anita Garibaldi
Número: 174
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Leia o editorial
Uma visão crítica sobre o “admirável mundo novo” da inteligência artificial
Parece existir um consenso: o futuro chegou! Vivemos em um admirável mundo novo! Das mais básicas necessidades humanas até as mais efêmeras – o que comemos, onde moramos, como prevenimos doenças, quais técnicas devem ser usadas no plantio de alimentos, como cuidamos daqueles que precisam de atenção especial, qual o meio de transporte mais eficiente, como nos antecipamos a desastres ditos naturais, onde nos comunicamos, como educamos as novas gerações, qual informação é compartilhada, como essa informação é produzida e armazenada, o que deve ser vigiado por questões de segurança, qual o novo vídeo viral, qual o novo filme recomendado pela plataforma, que podcast devemos ouvir e, mais importante, onde devemos ouvi-lo –, parece não existir nenhuma faceta da interação humana que escape ao impacto causado pelos últimos saltos tecnológicos.
A cada nova tecnologia disruptiva, vemos as noções de tempo e espaço, como também outros aspectos essenciais da experiência humana – a memória, as vontades, os impulsos e os afetos – sendo completamente reestruturados. As relações sociais são transformadas e chega-se mesmo a falar em fim do trabalho. Contudo, antes mesmo que a tecnologia transforme a sociedade, é preciso considerar que ela própria já é fruto dessa mesma sociedade.
Acostumamo-nos a enxergar os artefatos tecnológicos como autogeradores. Eles seriam determinados apenas por esforços internos de pesquisa e desenvolvimento, e então viriam à luz para criar um novo ser humano e novas sociedades. Nada mais falso. Essa forma de pensamento, que conforma o senso comum mais trivial, baseia-se no truque do isolamento da tecnologia, uma forma de fetichizar os meios e despolitizar a forma como são ativamente imaginados e construídos.
O aplicativo de transporte, o chatbot, a rede de alta velocidade e o algoritmo funcionam, assim, como um feitiço que hipnotiza. Porém, por trás da feitiçaria há um mundo de exploração e devastação no mais das vezes esquecido. O motorista de aplicativo já vai para sua décima hora trabalhada; a empresa que monta o chatbot se viu obrigada a instalar uma rede de proteção em suas janelas para evitar o suicídio de trabalhadores; os materiais da rede de alta velocidade contêm minérios arrancados do Chile ou do Brasil por uma mineradora do norte global; a forma como a arquitetura algorítmica é concebida incorpora interesses e visões de mundo.
Esta não é, portanto, uma simples história de tecnologias “disruptivas” que vieram da cabeça de cientistas e inventores “geniais” para, enfim, “mudar o nosso mundo”. Na verdade, são as necessidades do sistema econômico-produtivo que deram à luz suas tecnologias correspondentes. Essas tecnologias têm por trás de si o mundo do trabalho e embutem não apenas avanços, mas também os limites de um sistema social que se baseia na contínua elevação da exploração. Não será à toa que os registros de problemas psíquicos hoje cresçam na mesma proporção que os avanços técnicos.
Decifrar os dilemas e contradições do progresso tecnológico, discutindo seus impactos sobre a sociabilidade e a cultura, é o objetivo central desta edição de Princípios. Ela traz a segunda parte do dossiê “Inteligência artificial e novas tecnologias disruptivas: um olhar crítico”, com artigos e ensaios que avaliam as repercussões das novas tecnologias sobre os aspectos ditos “superestruturais” das dinâmicas humanas: a comunicação, a educação, o lazer, a segurança, os cuidados com a saúde e outras dimensões da cultura e dos modos de vida.
O deciframento dessas questões representa importante contribuição não apenas para o avanço do materialismo histórico e do pensamento crítico, mas também para a elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento que precisa contemplar, como questões cruciais, o avanço tecnológico, a inovação e a sustentabilidade. Nessa discussão, questões econômicas, políticas, sociais e culturais se acham imbricadas. Por isso o debate proposto por Princípios envolve as mais diversas óticas e perspectivas disciplinares. Elas se unificam na crítica ao tecnicismo e na defesa de uma ciência humanista, compromissada com a paz e o progresso do ser humano, vinculada à causa de uma sociedade mais justa e próspera, e concebida como componente central de uma autêntica estratégia de desenvolvimento econômico e social.
Evidentemente, na perspectiva de uma ciência voltada a esses propósitos, a cooperação internacional entre nações do Sul Global é tema da mais alta relevância. Ele é abordado, no âmbito do dossiê, em ensaio assinado por Lang Ping, pesquisador associado no Instituto de Economia e Políticas Mundiais da Academia Chinesa de Ciências Sociais. A publicação do texto é mais um fruto do acordo de cooperação recém-assinado entre Princípios e a revista chinesa Mundo Contemporâneo, cujo portfólio pode ser acessado no endereço: https://www.ddsjcn.com.
Princípios traz ainda, nesta edição, textos que analisam outros assuntos, nem sempre distantes do temário do dossiê. Um artigo discute as potencialidades e desafios do novo ciberfeminismo, que propõe um modelo de ativismo de gênero centrado no letramento digital e na produção de recursos tecnológicos por mulheres e minorias sociais. A temática da luta antirracista também se faz presente. Por ocasião dos 100 anos de Clóvis Moura, um artigo celebra a obra desse aclamado historiador e sociólogo, propondo uma reflexão atualizada sobre os conceitos de quilombagem e barragens de peneiramento, capazes de proporcionar uma leitura dos dispositivos de exclusão racial e social que estruturam o Estado e a própria sociedade brasileira. O mesmo tema comparece na resenha da edição, que faz uma síntese comentada do livro O pacto da branquitude, de Maria Aparecida Bento.
Os temas internacionais visitam, uma vez mais, as páginas de Princípios. Um artigo examina, à luz dos documentos e declarações do Foro de São Paulo, a visão econômica e a orientação programática dessa entidade, que reúne partidos e organizações de esquerda da América Latina e Caribe. Outro trabalho debruça-se sobre a Revolução Chinesa para, a partir de uma teorização sobre os impedimentos à libertação gerados pela combinação de estruturas arcaicas e penetração do capitalismo, analisar como ela foi obrigada a assumir a forma de um acontecimento, conceito extraído da obra do filósofo Alain Badiou.
A revista aborda, ainda, a forma como a ofensiva do capital sobre o trabalho tem gerado efeitos deletérios também no serviço público. Um artigo investiga de que maneira esse processo se manifesta no emprego e na saúde mental de assistentes sociais que atuam em Centros de Atenção Psicossocial (Caps). A edição se encerra com nossa tradicional seção dedicada a recomendações de obras recém-lançadas no mercado editorial que, acreditamos, enriqueceriam a dieta leitora do público de Princípios.
Desejamos uma boa leitura!
A Comissão Editorial