Nesta terça-feira (7) os Estados Unidos e Israel chegaram a um acordo de trégua e cessar-fogo com o Irã para o início de uma mesa de negociações. Embora o processo ainda esteja em fase embrionária, a mesa deve se concretizar em Islamabad, graças ao papel fundamental desempenhado pelo Paquistão e pela China para alcançarmos este desfecho.
O aspecto mais importante deste cenário é identificar como a promessa de força de Trump resultou em isolamento. Ele cometeu o absurdo de ameaçar a população iraniana de extermínio, dando um ultimato de destruição total caso o Estreito de Ormuz não fosse aberto. No entanto, o dia 7 de abril estabeleceu os limites do poder imperial. Não foi apenas um recuo tático, mas uma derrota política e moral perante o mundo. Nesta coluna, abordo a humilhação sofrida pelos Estados Unidos no Oriente Médio desde o início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro, junto com Israel. É fundamental lembrar que este é um conflito dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Embora não haja dúvida sobre a supremacia militar dos Estados Unidos e de Israel, nem sobre sua capacidade de bombardear e subjugar o povo iraniano em um conflito longo, o revés político foi significativo. Ainda que não se possa declarar uma vitória definitiva, pois a guerra está apenas em período de cessar-fogo, o Irã obteve sucessivas vitórias até aqui.
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A capacidade de resistência iraniana surpreendeu ao permitir que o país impusesse condições para a negociação. O Irã demonstrou força tanto no controle estratégico da região quanto nos ataques a setores logísticos e de energia de aliados dos Estados Unidos no Golfo. Além disso, o país demonstrou uma expressiva capacidade de união nacional em uma verdadeira guerra patriótica, como evidenciado pelas manifestações de apoio ao governo no enfrentamento deste conflito.
Ao observarmos as manifestações de apoio ao governo iraniano no enfrentamento desta guerra, percebemos que o que está em jogo é uma disputa energética global. Há uma crise evidente na capacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade a qualquer custo. Sob a condução de Trump, os EUA exerceram pressão e realizaram ataques militares diretos contra a infraestrutura energética do Irã, mas falharam na tentativa de desfazer o controle iraniano sobre o fluxo de energia no Estreito de Ormuz.
Este controle tem sido um dos grandes trunfos do Irã, que não recuou e manteve uma capacidade firme e constante de resposta com drones e mísseis. Em contrapartida, Trump enfrentou uma Europa dividida e a pressão de países árabes e do Golfo, resultando no isolamento dos Estados Unidos e de seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A economia global sentiu o impacto através de choques no preço do petróleo e nas cadeias de comércio, gerando a ameaça de uma crise sistêmica.
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Essa conjuntura provocou uma mobilização inédita de atores internacionais e do Conselho de Segurança da ONU em busca de uma solução, algo que não ocorreu em outros momentos, como no genocídio contra o povo palestino, onde o impacto econômico não foi tão grande. As últimas semanas serviram como uma aula global de geopolítica, evidenciando a importância estratégica do Estreito de Ormuz para a economia mundial. Esse cenário permitiu que o Paquistão e a China, por meio de um plano de cinco pontos, viabilizassem uma mesa de negociações, levando os Estados Unidos e o Irã a aceitarem silenciar as armas.
Resta observar se Israel realmente cumprirá o acordo, visto que seu histórico recente é de descumprimento de cessar-fogos. Nos próximos dias, descobriremos se a mesa de negociações em Islamabad de fato se concretizará, se os governos enviarão seus representantes e se a interrupção das hostilidades por parte dos Estados Unidos e de Israel será efetiva.
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Observaremos também o comportamento do bloco europeu, da OTAN e dos países do Sul Global diante desta conjuntura. Este é um momento crucial para a política internacional; o cessar-fogo pode redesenhar a influência de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio. Estamos presenciando a transição para uma ordem multipolar, embora ainda não saibamos exatamente como ela se organizará no sistema mundial.
Deixo aqui um apelo de solidariedade aos povos iraniano, palestino e libanês, que são as principais vítimas dessas armas mortíferas. Eles resistem em uma guerra patriótica que marca um momento histórico de declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos. Este cenário representa uma grave humilhação para o governo Trump, que enfrenta isolamento político e social, tanto externa quanto internamente. As recentes e expressivas manifestações no Kings demonstraram esse isolamento social.
Nossa expectativa é que esta máquina de guerra e a espiral belicista do imperialismo estadunidense possam ser contidas, pois o sofrimento causado atinge tanto o Oriente Médio quanto o nosso povo na América Latina.
Assista a íntegra do programa Conexão Sul Global como Ana Prestes
Ana Prestes é pesquisadora do Observatório Internacional, Grupo de Pesquisa da Fundação Maurício Grabois, e Secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Comanda o programa Conexão Sul Global, exibido pela TV Grabois.
*Análise publicada originalmente no programa Conexão Sul Global (TV Grabois), em 08/04/2026. O texto é uma adaptação feita pela Redação com suporte de IA, a partir do conteúdo do vídeo.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.