Casa-Grande e Senzala e as raízes da formação brasileira
A escravidão não pertence apenas ao passado: é presente e segue como elemento estruturante das desigualdades sociais. Sua herança, expressa na desvalorização do trabalho, na mentalidade autoritária das elites econômicas, no racismo e na miscigenação, marca profundamente a história do Brasil.
Em 25 de março de 2026, em resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovada por 123 países, a escravização de ao menos 12,5 milhões de africanos entre os séculos XV e XIX foi reconhecida como a mais duradoura e brutal forma de injustiça da história humana. É irônico que países europeus, que promoveram e lucraram com o tráfico de pessoas, tenham se abstido de assinar o documento — entre eles, Portugal, país que mais sequestrou, traficou e escravizou africanos.
Veja como foi a votação:
AGORA: Assembleia Geral da #ONU adota resolução para o reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como “o crime mais grave contra a humanidade”. Resultado da votação:
A favor – 123
Abstenções – 52
Contra 03 pic.twitter.com/s3Cq9blMPW— ONU News Português (@ONUNews) March 25, 2026
Também é importante registrar que todos os países que compõem o BRICS assinaram a resolução e que, por outro lado, Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra.
Essa incoerência revela muito sobre como relações de exploração, construídas ao longo de séculos — e que atravessam mais da metade da história do Brasil — permanecem abertas e mal resolvidas.
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Casa-Grande & Senzala
Para compreender as transformações sociais decorrentes da colonização e da escravidão, a obra Casa-Grande & Senzala1, publicada em 1933 por Gilberto Freyre, é uma das principais referências. Segundo o jornalista José Carlos Ruy2, o livro atualizou o pensamento oligárquico ao enfrentar o preconceito racial e propor novas interpretações das relações étnicas no Brasil.
Para Ruy, Freyre foi pioneiro ao valorizar a herança portuguesa e a mestiçagem, rompendo com visões racistas predominantes à época e oferecendo uma nova forma de compreender o país. Em seu livro Biografia da Nação, Ruy lembra que Darcy Ribeiro destacou a obra de Gilberto Freyre como a “primeira tentativa vigorosa de nos reconciliar com a origem portuguesa e de aceitar, sem vexame, a condição de povo mestiço”.
O sociólogo e crítico literário Antônio Candido, no prefácio de Raízes do Brasil3, de Sérgio Buarque de Holanda, também relaciona Casa-Grande & Senzala ao advento de novo tempo na década de 1930, afirmando que é um dos livros fundamentais que “parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 30”.
Casa-Grande & Senzala conduz o leitor à intimidade da vida colonial, com toda a brutalidade, estranhamentos, misturas e criações que essa intimidade produziu.
São 500 e poucas páginas que fluem muito bem, sem nada sobrando. De fato, o livro oferece uma nova visão sobre o Brasil, sobre o choque e a integração entre o colonizador europeu e os povos subjugados por ele, não só os africanos, como também os indígenas, que abordo aqui.
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Os indígenas
Segundo Freyre, o primeiríssimo contato europeu nessas terras não deixou vestígios de organização duradoura, mas abriu caminho para a dominação europeia ao gerar os primeiros vínculos sociais — inclusive por meio da miscigenação — e ao atenuar o estranhamento inicial entre os povos.
Descritos como um povo escasso, que precisava se multiplicar, os portugueses seriam, segundo o autor, mais suscetíveis à miscigenação, menos rígidos do ponto de vista cultural e religioso e mais propensos ao contato social e sexual com indígenas e africanos do que ingleses e espanhóis — características que influenciaram decisivamente a formação do povo brasileiro.
O autor aponta heranças importantes dos povos indígenas – na culinária, em objetos, na linguagem, e hábitos como o de tomar banhos frequentes.
Para enfatizar a harmonia com a natureza, descreve uma relação quase “paradisíaca” com os animais, apontando para uma intimidade “lírica” do primitivo habitante do Brasil com eles, “principalmente pássaros, amansados ou criados em casa, sem nenhum propósito de servir-se de sua carne ou dos seus ovos para alimento, nem de sua energia para o trabalho doméstico ou agrícola ou para a tração, nem do seu sangue para sacrifício religioso”, diz.
A mulher indígena, segundo a obra, foi “a base física da família brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se, a energia de reduzido número de povoadores europeus”.
No entanto, o processo de colonização teve efeitos devastadores. Não só desbravadores, mas também missionários que, ao interpretarem o indígena — desde sua organização política até a sexualidade — com base na própria cultura de pecado, perversão e repressão, contribuíram para desestruturá-los e para exterminá-los.
O europeu trouxe doenças, cultivou-as nessas terras e, ao forçar a imposição de seus costumes, distorceu o equilíbrio que as tribos estabeleceram com o ambiente.
As roupas trazidas pelos missionários, por exemplo, deturpavam a noção de “moral e de higiene”. Muitos dos indivíduos de tribos, acostumados à nudez, só se desfaziam da roupa europeia “quando esta só faltava largar de podre ou de suja”.
Espantados com a frequência dos banhos frios atribuíram à prática a culpa por doenças respiratórias “quando pelos estudos modernos de higiene o que se apura é exatamente o contrário: que essas moléstias do sistema respiratório desenvolvem-se entre populações selvagens pela imposição de vestuário e de resguardos europeus”, registra o livro.
E esta falta de higiene alimentou “doenças, transmissíveis e repugnantes” como a sífilis, que teve papel tão expressivo no processo de colonização, que o autor fala em “sifilização”.
Freyre argumenta que na colonização a sífilis foi mais que uma doença, foi um fenômeno estrutural, símbolo da violência e desestruturação social.
Ele deixa claro que o povo brasileiro que se formava nas primeiras décadas dos anos de 1500 se beneficiou da cultura indígena; o povo que vivia com liberdade na floresta, por outro lado, foi levado à mortandade — por doenças ou violência — ou assolado pela vontade de morrer.
Os africanos
A frase que abre o capítulo 4, chamado “O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro”, resume a ideia de mestiçagem defendida por Gilberto Freyre. Ela diz:
“Todo o brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano.”
Com isso ele afirma que todo brasileiro, mesmo os considerados brancos, são miscigenados. Mas, nas páginas posteriores, ressalta a importância de diferenciar o africano de sua condição de escravizado. Isso porque a escravidão, explica, desestruturou famílias, rompeu vínculos e impôs um regime de exploração que distorceu completamente a avaliação de suas capacidades.
Os africanos, muitos vindos “da área mais penetrada pelo Islamismo, negros maometanos de cultura” possuíam, em muitos casos, uma cultura superior “não só à dos indígenas, como à da grande maioria dos colonos brancos — portugueses e filhos de portugueses, quase sem instrução nenhuma, analfabetos uns, semi-analfabetos”, registra.
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Sobre o movimento malê, da Bahia, em 1835, afirma que muito da revolta dos escravos expressava um “desabafo ou erupção de cultura adiantada, oprimida por outra, menos nobre”:
“O relatório do chefe de polícia da Província da Bahia, por ocasião da revolta, o Dr. Francisco Gonçalves Martins, salienta o fato de quase todos os revoltosos saberem ler e escrever em caracteres desconhecidos. Caracteres que ‘se assemelham ao árabe’, acrescenta o bacharel, pasmado, naturalmente, de tanto manuscrito redigido por escravo. ‘Não se pode negar que havia um fim político nesses levantes; pois não cometiam roubos, nem matavam seus senhores ocultamente’. É que nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes”, diz.
O autor entra em detalhes estarrecedores sobre a vida íntima colonial e sobre o papel da mulher negra. Fala sobre como foi chocante a exploração de seus corpos pelo trabalho, pelo castigo, pela inveja das brancas e pelo abuso sexual. Sobre como era prática comum elas criarem os filhos das famílias brancas. E sobre como todas as relações extrapolavam o interesse econômico (em si cruel e deformador) tornando-se puro sadismo.
Ele desmonta mitos – ainda vigentes – sobre a suposta superioridade da cultura “civilizadora” do europeu com relação à do indígena e do africano e deixa claro como o racismo criou raízes na nossa formação social:
“Exprimiram-se nessas relações o espírito do sistema econômico que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos. Dele se deriva toda a exagerada tendência para o sadismo característico do brasileiro, nascido e criado em casa-grande”.
Ao falar sobre o extermínio dos indígenas, Gilberto Freyre apresenta pontos que, segundo ele, “caberiam em um ajuste das responsabilidades europeias na degradação da raça e da cultura indígena no Brasil, ao sistema civilizador dos jesuítas”.
Mas em mais de 500 anos nunca houve esse ajuste – nem com o indígena, nem com o africano. E, a qualquer sinal de reconhecimento oficial, como o da Assembleia Geral da ONU de março de 2026, os principais responsáveis esquivam-se com justificativas generalistas e sem sentido.
Ao contrário, a persistência de relações desiguais revela uma mentalidade ainda escravista que se expressa na pobreza, no acesso precário (ou inexistente) à educação e serviços básicos, na violência, em humilhações etc. E que se expressa também no “costume” da elite econômica à oferta de trabalho barato e sua constante pressão pela desvalorização do trabalho e do trabalhador.
A história do povo brasileiro precisa ser conhecida e assumida em sua complexidade. Nela estão as raízes da formação social, cultural e econômica do país, marcadas pela contribuição decisiva de indígenas e africanos, cujas heranças devem ser valorizadas como parte constitutiva da identidade nacional. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que as injustiças do passado seguem produzindo efeitos e exigem não só reconhecimento, mas uma repactuação social e econômica baseada na reparação histórica.
Notas
1 Freyre, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 12. ed. brasileira; 13. ed. em língua portuguesa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963.
2 Ruy, José Carlos, Biografia da Nação, editora Anita Garibaldi, 2018.
3 Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois e coordena o Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira.