Este artigo discute a forma como a inteligência artificial (IA) tem sido apro-priada pela discursividade dos sistemas hegemônicos de representação, tomando representações cinematográficas da IA como ponto de partida, desde o filme Metrópolis (1927) até A.I.: inteligência artificial (2001), evidenciando como o cinema constrói significados e reforça ideologias conservadoras sobre o papel das máquinas na sociedade. A base materialista e dialética nos permitiu problematizar o tecnocentrismo, que, na perspectiva instrumental, apresenta a IA como uma ferramenta neutra e os usuários como sujeitos inteiramente autônomos, e, na abordagem determinista, atribui total autonomia à IA, a qual se imporia a sujeitos capturados pela sua magia e poder. O artigo destaca, ainda, os desafios impostos pela hegemonia dos grandes conglomerados de produção de tecnologia do planeta, que monopolizam o desenvolvimento das IAs e promovem um modelo de controle digital. Como alternativa para compreender a IA, recorremos à unidade entre instrumentos e signos, conforme Vigotski, no sentido de superar a visão tecnocentrada e nos apropriar da IA em sua materialidade histórica, social e cultural.
Palavras-chave: Instrumentos e signos. IA. Instrumentalismo. Determinismo. Cinema
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1. Introdução
A inteligência artificial (IA) tem sido objeto de discussão e fonte de polêmicas, especialmente após o lançamento do ChatGPT — sistema desenvolvido pela OpenAI, organização estadunidense —, no final de 2022. Verifica-se o desenvolvimento e a disseminação em versões pagas e gratuitas dessa categoria de IA generativa, compreendida como aquela que pode criar conteúdos no formato de imagens, música, texto e vídeos, sendo utilizada para aplicações diversas, como o reconhecimento facial ou a criação de roteiros de filme, letras de música, desenhos e textos em geral. Tem-se falado e pesquisado sobre esse tema, além do fato de muitos trabalhos acadêmicos estarem sendo escritos e publicados acerca dos impactos e implicações da IA nas mais diversas esferas da vida social, abordando questões sociais, éticas e filosóficas.
Uma questão importante é como a IA pode afetar o trabalho pedagógico-didático de docentes e a aprendizagem de estudantes ou o processo criativo de artistas. Observa-se um grande volume de informações (ou desinformações) sobre IA, além da crescente oferta de sistemas e serviços disponibilizados na forma de aplicativos com as mais diversas funcionalidades e objetivos em distintos campos de atividade profissional, incluindo educação e arte1 .
Do mesmo modo, podem ser encontrados cursos de capacitação nessa tecnologia, acrescidos de material instrucional na forma de manuais, vídeos e e-books. Longe de responder totalmente às dúvidas emergentes, tais usos lançam à tona outras questões relacionadas, como a propriedade intelectual e autoral das informações e a ética na captura, armazenamento e disseminação de dados. Ao destacarem, fundamentalmente, os usos dos dispositivos, tais questões são abordadas numa perspectiva tecnocentrada, negligenciando a base material da sua produção, o processo histórico que os constitui e a atribuição social e cultural de seus significados.
Essa forma de abordar tais questões toma a IA pelos seus efeitos imediatos e aparentes, ora como uma tecnologia neutra, ora como uma tecnologia cujas funcionalidades se transmitem automaticamente para os usos. Ou seja, a discussão sobre IA tem corroborado o estado da arte no campo da educação e tecnologia, no qual prevalece uma oscilação entre as perspectivas instrumental e determinista (Echalar, 2025; Peixoto, 2022). Entre discursos desenvolvimentistas maravilhados e outros céticos ou apocalipticamente pessimistas, a presença das IAs nos mais diversos âmbitos evidencia a necessidade de uma análise que permita ultrapassar a aparência.
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A superação da aparência não significa negá-la, visto que esta pode ocultar, mas também revelar a essência. A apreensão do objeto em sua totalidade implica articular a aparência e a essência de maneira a expor o momento do real em seu conjunto, de forma que a realidade material se reflita na sua reprodução ideal (Kosik, 1976; Marx, 1974; 2011; 2017; Marx; Engels, 2007; Paulo Netto, 2011). O pensamento não se reduz, assim, a uma vida interior privada. O pensamento é sensível, no sentido de que invoca, de forma fundamental, nossos sentidos na apreensão dos objetos. Desse ponto de vista, instrumentos e signos (Vigotski, 2012) são partes constitutivas do pensamento, mas ele vai além dos sentidos porque é social e histórico. De forma sintética, “o psiquismo pode ser entendido como a imagem subjetiva da realidade objetiva” (Abreu; Duarte, 2019).
A cultura é também constituída por múltiplos instrumentos e signos que medeiam as relações dos sujeitos com o meio natural e com a realidade social. A arte faz parte desse processo por meio do qual os sujeitos extrapolam os sentidos de sua existência material. A arte é, assim, reflexo e refração da realidade objetiva (Bakhtin, 1995). Assim sendo, é expressão da realidade, abarcando significados socialmente construídos e permitindo apreender as contradições da realidade objetiva. Podemos observar isso no trabalho de Vigotski sobre Hamlet, de Shakespeare (Vigotski, 1999), no qual o teórico russo faz uma análise da personalidade como uma categoria psicológica descrita pelo método dialético a partir da expressão de um meio simbólico. O autor adota a personagem Hamlet como solucionadora de uma situação social, o que significa dizer que isso se dá porque o escritor considera a arte como uma maneira de refletir sobre a realidade e compreendê-la.
Nesse trabalho, as ideias vigotskianas se correlacionam com o pensamento humanitário do primeiro terço do século XX, cujo objeto era o problema da autorrealização individual na interação com o mundo. Considera-se que a personalidade se constrói por diferentes estratégias relacionadas às normas culturais, que determinam a existência ou não existência pessoal (o “ser ou não ser” de Hamlet). A personagem Hamlet é, então, entendida como a criadora de uma nova norma social.
Entende-se que o cinema, compreendido como uma particularidade artística da prática social humana, também se constitui em instrumento e signo que traz consigo símbolos e significados. Assim, entende-se que tanto arte quanto tecnologia não são neutras, mas sim produtoras e, também, produtos sociais, históricos e culturais. Elas representam interesses contraditórios que estão na base material da sociedade.Temos como objetivo analisar a forma como a IA tem sido apropriada pela discursividade dos sistemas hegemônicos de representação. Esse exercício será realizado pela exploração de obras cinematográficas. Adotamos como proposta teórico-metodológica o materialismo orientado pelos estudos culturais, que considera as manifestações culturais em suas relações com a economia, a política e a sociedade em geral (Williams, 1992; 2007).A partir desse objetivo, delineamos uma espécie de metodologia que articula possibilidades explicativas para as relações entre tecnologia, sociedade e educação a aspectos fílmicos e problematizações contemporâneas quanto à inteligência artificial.
Serviço
Revista: Princípios (Qualis A3)
ISSN: 1415-7888 | E-ISSN: 2675-6609
Editora: Anita Garibaldi
Número: 174
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Júlio César dos Santos é doutor em Arte e Cultura Visual pela Universidade Federal de Goiás (UFG, 2014). Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto Federal de Goiás (IFG). Membro do Kadjót — Grupo Interinstitucional de Estudos e Pesquisas sobre as Relações entre Tecnologia e Educação.
Joana Peixoto é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e colabora-dora do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática do IFG. Líder do Kadjót.
Tamara Ferreira Dantas é mestranda em Educação pelo IFG. Licenciada em Física pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Professora de Física da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc-GO). Integrante do Kadjót.u Texto recebido em 7 de fevereiro de 2025; aprovado em 1º de julho de 2025.uDOI: https://doi.org/10.14295/principios.2675-6609.2026.174.002
Notas
1 Exemplos de “plataformas” ou “sistemas” de IA, além do já citado ChatGPT: Gemini, DeepSeek, SciSpace, Dall-E e Midjourney, todos disponíveis na internet.