Este artigo investiga a natureza ontológica da inteligência artificial (IA) e suas implicações no contexto educacional, destacando a necessidade de uma compreensão que transcenda a mera funcionalidade técnica para abordar aspectos éticos, epistemológicos e sociais. A metodologia adotada consiste em uma revisão literária multidisciplinar, que integra contribuições filosóficas, educacionais e computacionais para tecer uma análise abrangente da IA. Os principais resultados indicam que a IA, muitas vezes antropomorfizada, pode esconder sua verdadeira autonomia e influência, levando a uma dependência tecnológica potencialmente prejudicial na educação. Além disso, o texto evidencia a importância de analisar a IA a partir de sua natureza mercantilista, reconhecendo que sua criação, evolução e aplicação são moldadas por dinâmicas de mercado e interesses econômicos. Conclui-se que a IA deve ser vista através de uma tríade ontológica — híbrida, relacional e multidimensional —, cuja integração nas práticas educativas requer uma abordagem crítica e consciente, evitando a superficialização do ensino e promovendo a equidade e a inclusão cultural. Ademais, urge a criação de políticas públicas que garantam o acesso popular àquela tecnologia e a redução dos seus impactos negativos, promovendo equidade e justiça social. Para isso, a perspectiva decolonial é proposta como um caminho para analisar, reavaliar e ressignificar o papel da IA no tecido social.
Palavras-chave: Inteligência artificial. Ontologia. Educação.
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1. Prelúdio de Intenções
Inicialmente, pedimos licença para evocar a poesia que nos habita, essa força pulsante que nos guia no percurso de explorar as raízes que nos sustentam e as fundações do desejo que inflamam nossa motivação acadêmica e pedagógica. Empreendemos esforços para entrelaçar conceitos e elaborar reflexões, configurando uma construção teórica que, tal como uma colcha de retalhos, integra diferentes perspectivas e possibilidades de criação de novos saberes mediante a prática docente. O campo de trabalho que nos serve de alicerce, o solo de onde vislumbramos os sonhos com plenitude e esperança, tem se expandido para uma dimensão marcada por incertezas profundas. O medo, aquele que tradicionalmente acompanha os inícios, tem permeado nossas salas de aula. Embora compreendamos que toda novidade carrega consigo tanto o fascínio quanto o desconcerto, e que os ciclos nunca se encerram de forma completa, identificamos com preocupação os sinais de um novo momento, cujas implicações demandam atenção e reflexão cuidadosa. Decerto, torna-se inevitável reconhecer que o medo já nos visitou em outros tempos, como no alvorecer dos anos 2000, quando a ascensão da web 2.0 ressignificou os contornos da internet e desafiou-nos a reavaliar os impactos das tecnologias na tessitura da educação formal. Foi um período de inquietações e descobertas, no qual a promessa de interatividade e colaboração trouxe consigo tanto o assombro quanto a possibilidade de reinvenção. É em meio a esse turbilhão de incertezas que as tecnologias têm atravessado os portões de nossas escolas. Ainda caminhamos no terreno do desconhecido, sem experiência suficiente para decifrá-las por completo. Os celulares, outrora celebrados como heróis do aprendizado, assumem agora a face de górgonas, capazes de nos petrificar no tempo, alienando nossos jovens e moldando-os como marionetes dos desejos efêmeros. Perdemos, pouco a pouco, a clareza sobre sua potência criativa e seu poder devastador, beligerante dualidade. E, então, como um vento inesperado, uma artificial inteligência desponta, invadindo nossas instituições, trazendo consigo o prenúncio de transformações profundas e desafiando-nos a navegar por mares ainda não cartografados. Confessamos, mesmo imersos no temor que atravessa o coletivo docente, alimentar uma curiosidade inquietante diante desses “monstros” que nos desafiam.
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Confessamos também, ainda que navegando nas águas turvas da incerteza, enxergar uma luz de possibilidade. É nesse percurso que voltamos às origens, ao prelúdio, ao alvorecer do pensamento. E, ali, compreendemos que, para alcançar essa luz, é necessário mergulhar no âmago do ser, na essência que nos constitui e, ao constituir-nos, nos define. Assim, delineamos como propósito deste estudo explorar a inteligência artificial (IA) em sua essência, buscando compreender não apenas o que ela é, mas o que ela pode significar para a (re)construção do que somos.
Serviço
Revista: Princípios (Qualis A3)
ISSN: 1415-7888 | E-ISSN: 2675-6609
Editora: Anita Garibaldi
Número: 174
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Sobre os autores
Rogério Gusmão, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
Doutorando e Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professor efetivo da Educação Básica pela Rede Estadual Baiana. Pesquisador e integrante dos Grupos de Pesquisa: GELFORPE/CNPq/UESB (Grupo de estudos em Linguagem, Formação de Professores e Práticas Educativas) e GPLITE/CNPq/UESB (Linguagens, Tecnologias e Educação).
Denise Aparecida Brito Barreto, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora plena do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários – DELL e do Programa de Pós-graduação em Educação/PPGEd da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB (Vitória da Conquista/BA/Brasil). Coordenadora do Grupo de Estudos em Linguagem, Formação de Professores e Práticas Educativas – GELFORPE/CNPq/UESB.
Claudia Vivien Carvalho de Oliveira Soares, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB
Doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora Titular na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Coordenadora do Grupo de Pesquisa GPLITE/CNPq/UESB (Linguagens, Tecnologias e Educação).