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    Internacional

    BRICS sob a névoa da guerra no Oriente Médio

    Ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã expôs divergências entre os membros do bloco e levou a reunião ministerial do BRICS, na Índia, a terminar sem consenso para uma declaração conjunta

    POR: Javier Vadell

    10 min de leitura

    Representantes de países do BRICS ampliado durante reunião ministerial em Nova Délhi, na Índia, em 15 de maio de 2026. Divergências sobre os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã impediram consenso para a declaração final do encontro. Foto: Press Information Bureau/Governo da Índia
    Representantes de países do BRICS ampliado durante reunião ministerial em Nova Délhi, na Índia, em 15 de maio de 2026. Divergências sobre os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã impediram consenso para a declaração final do encontro. Foto: Press Information Bureau/Governo da Índia

    Alguns analistas apontam que o maior defeito do agrupamento BRICS é sua falta de institucionalização. Mas por que não pensar que essa característica talvez seja sua maior virtude, aquela que lhe confere certa flexibilidade em épocas turbulentas?

    Em meio às grandes desordens globais de 2026 e à investida do imperialismo estadunidense na Venezuela e, juntamente com Israel, contra o Irã, as contradições do atual caos sistêmico ficaram ainda mais expostas, assim como as alianças políticas na região da Ásia Ocidental, núcleo do conflito euroasiático envolvendo países do recém-criado BRICS Plus.

    Evolução dos BRICS: de uma mudança quantitativa a uma qualitativa

    Recapitulando, o BRICS nasceu originalmente em 2001 como uma ideia de Jim O’Neill, então executivo do Goldman Sachs, para designar quatro “mercados emergentes” promissores para o capital financeiro (Brasil, Rússia, Índia e China). No entanto, o colapso financeiro global de 2008 inverteu essa lógica mercadológica em uma articulação soberana e política, culminando na Cúpula de Ecaterimburgo (2009) e na rápida inclusão da África do Sul em 2010.

    A evolução institucional do BRICS pode ser dividida em quatro fases. Na primeira fase (2009–2010), momento inicial pós-crise, as potências do bloco focaram na denominada “diplomacia de nicho”. Tratava-se de um alinhamento cauteloso, voltado para demandas específicas por maior participação e cotas de voto dentro do FMI e do Banco Mundial, bem como reformas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, sem que houvesse ambição ou capacidade de propor uma arquitetura institucional paralela.

    A segunda fase (2011–2018) foi marcada pela consolidação do agrupamento e pela criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) — o Banco do BRICS — e do Arranjo Contingente de Reservas (ACR), em 2014. O bloco passou a oferecer alternativas reais de liquidez para balanços de pagamento. É nesse período, especificamente na Cúpula de Xiamen (2017), sob presidência chinesa, que o conceito de BRICS Plus é apresentado pela primeira vez ao mundo.

    A terceira fase (2019–2020) foi um período de forte abrandamento institucional, causado pela pandemia da COVID-19 e por severas tensões políticas internas. O acirramento da rivalidade entre Washington e Pequim, com a guerra comercial lançada pelo primeiro governo Donald Trump, os conflitos fronteiriços diretos entre China e Índia e a ascensão de narrativas anti-China capitaneadas pelo governo de Jair Bolsonaro no Brasil paralisaram as ações multilaterais do bloco, reduzindo o BRICS a interações predominantemente bilaterais.

    Finalmente, a quarta fase inicia-se em 2021, com a 13ª Cúpula Virtual realizada na Índia, intitulada “BRICS@15: Cooperação Intra-BRICS para Continuidade, Consolidação e Consenso”, na qual os membros se comprometeram com um novo reinício. A partir desse momento, o bloco superou a inércia pandêmica e consolidou o consenso definitivo para a expansão de seus membros. No ano seguinte, irrompe a guerra na Ucrânia, quando a Rússia passou a defender de maneira mais assertiva a ideia original chinesa de um BRICS Plus.

    O ápice desse movimento ocorreu na histórica Cúpula de Joanesburgo (2023) e consolidou-se nas reuniões subsequentes, como as cúpulas de Kazan (2024) e do Brasil (2025), oficializando a entrada de novos membros e desenhando a arquitetura atual do BRICS Plus. Além dos membros originais — Brasil, Federação Russa, Índia, China e África do Sul — outros seis membros somaram-se à lista de integrantes permanentes: Arábia Saudita (ainda em suspensão), Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntamente com eles, há ainda dez membros associados: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.

    Leia mais: Brasil, BRICS+ e as rotas que irritam Trump

    O advento do BRICS Plus representa uma mutação qualitativa crucial e apresenta-se como um desafio ao imperialismo estadunidense. O agrupamento deixou de ser um arranjo “minilateral” para se converter no principal pilar geopolítico e institucional multilateral de um tipo inteiramente novo de globalização alternativa ao modelo neoliberal ocidental: uma globalização inclusiva cujo epicentro econômico é a China.

    O BRICS Plus emergiu, portanto, como um bloco histórico contestatório da ordem liberal inserido no caos sistêmico, colocando em disputa um choque de globalizações. Esse acontecimento abre caminhos inéditos de cooperação e reconfiguração da geoeconomia das nações do Sul Global. Porém, os perigos das agressões unilaterais dos EUA e os interesses cruzados dos membros do BRICS Plus na geopolítica atual demandam atenção especial.

    A densa névoa da guerra, os BRICS e o futuro do agrupamento

    Após a cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro, em julho de 2025, o governo Trump 2.0 lançou um ataque tarifário generalizado contra vários países do BRICS. Em 2026, os Estados Unidos, juntamente com Israel, lançaram um ataque ao Irã, provocando uma guerra regional de grandes proporções que colocou o BRICS em uma encruzilhada. Segundo Georgy Toloraya, esse conflito inacabado na Ásia Ocidental expôs as instituições do BRICS como despreparadas para situações de conflito. A guerra provocada por Estados Unidos e Israel colocou membros do BRICS em lados opostos: Irã e Emirados Árabes Unidos, enquanto o agrupamento carece de uma posição unificada.

    Nesse contexto ocorreu a reunião ministerial do BRICS na Índia, à luz de duas cúpulas históricas na República Popular da China: Donald Trump–Xi Jinping e, dias depois, Xi Jinping–Vladimir Putin, que oferecem elementos para compreender uma futura postura dos BRICS e da Organização para Cooperação de Xangai, embora seja necessário reconhecer que a equação de poder na Ásia Ocidental mudará completamente com um Irã fortalecido, consolidando o pivô triangular geopolítico China–Rússia–Irã.

    + Elias Jabbour: Como resistência do Irã diante dos EUA pode abrir espaço para a China

    Os membros do BRICS demonstraram fortes discordâncias durante a votação da Resolução 2817 da ONU, em março de 2026, cujo foco central era o Irã. O posicionamento dos países diante do tema revelou diferentes estratégias diplomáticas:

    • Rússia e China: optaram pela abstenção;
    • Índia e Emirados Árabes Unidos: posicionaram-se de forma mais incisiva, apoiando a resolução;
    • Brasil e África do Sul: adotaram postura moderada, embora tenham condenado os ataques ao Irã;
    • Egito: condenou os ataques direcionados às “nações árabes irmãs” que possuem bases militares estadunidenses de onde partiram os ataques contra o Irã;
    • Etiópia: demonstrou preocupação voltada principalmente para os impactos sobre sua própria segurança energética.

    Essa falta de consenso ficou evidente nos encontros seguintes do bloco. Durante as consultas do BRICS realizadas em Nova Délhi, em 24 de abril de 2026, as divergências internas impediram a formulação de uma declaração conjunta, resultando apenas na divulgação de um breve resumo por parte da presidência. O cenário de divisão persistiu em meados de maio, também na capital indiana, durante a reunião dos ministros das Relações Exteriores — considerada o evento mais relevante do ciclo anual que prepara a cúpula principal.

    Pela primeira vez na história do grupo, a declaração final foi publicada como um documento sem consenso, registrando formalmente as discordâncias de membros individuais em diversos pontos. A próxima cúpula do BRICS será a 18ª, cuja sede será Nova Délhi, Índia, em data ainda não definida do segundo semestre de 2026.

    A reunião ministerial em Nova Délhi ocorreu em 14 e 15 de maio de 2026 e reuniu ministros das Relações Exteriores e representantes dos países membros do BRICS ampliado, em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas no Oriente Médio e debates sobre a reforma da governança global.

    A presidência indiana conduziu os debates a partir dos pilares “Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, buscando reforçar a identidade política do grupo e ampliar sua atuação internacional. Entre os principais temas discutidos destacaram-se a reforma das instituições multilaterais, especialmente da ONU e do Conselho de Segurança, a defesa do multilateralismo, o fortalecimento da cooperação econômica e financeira, a ampliação do comércio em moedas locais e a redução da dependência do dólar nas transações internacionais.

    As maiores divergências ocorreram principalmente em torno das posições de Irã e Emirados Árabes Unidos diante da crise na Ásia Ocidental. As diferenças de posicionamento entre os membros impediram a construção de consenso para a divulgação de uma declaração conjunta final, levando a Índia a publicar apenas uma “Declaração da Presidência”. Esse episódio inédito evidenciou os desafios de coordenação política dentro de um BRICS mais amplo e heterogêneo após sua recente expansão.

    Conclusão

    A Reunião Ministerial do BRICS realizada na Índia em 2026 foi um marco importante para o futuro do agrupamento. O encontro consolidou o protagonismo indiano na condução das discussões sobre desenvolvimento, multipolaridade e reforma da governança global. Apesar das divisões internas relacionadas ao conflito na Ásia Ocidental, o BRICS demonstrou capacidade de manter o diálogo político e a cooperação econômica entre seus membros.

    O evento evidenciou tanto o potencial quanto os desafios do BRICS ampliado. O futuro do bloco dependerá da capacidade de equilibrar interesses geopolíticos distintos com objetivos comuns de desenvolvimento e cooperação internacional.

    No entanto, apesar desses pontos de atrito entre os membros do BRICS e o sucesso inicial de quem aposta na fragmentação do bloco, a guerra pode acelerar a desdolarização e promover a criação de sistemas independentes de pagamento e liquidação dentro do agrupamento — um dos principais objetivos do BRICS.

    Em termos mais amplos, a metamorfose do BRICS para o BRICS Plus funciona como o sintoma mais agudo e evidente do esgotamento da globalização neoliberal de matriz estadunidense. Longe de ser um arranjo passageiro ou meramente retórico, o BRICS Plus estruturou-se como uma realidade geopolítica indissociável da transição sistêmica contemporânea.

    Amparado materialmente pela pujança produtiva e pelo modelo de planejamento de longo prazo da China, o BRICS Plus oferece ao Sul Global as ferramentas institucionais e financeiras necessárias para navegar e sobreviver em um mundo marcado pela fragmentação econômica e pelo declínio hegemônico. Ao consolidar essa união sui generis de formações socioeconômicas diversas, o agrupamento está redesenhando os eixos da economia política internacional, pavimentando de forma irreversível os caminhos em direção a um sistema global genuinamente multicêntrico e multipolar.

    + Revista Princípios: China e nova economia do projetamento


    Javier Vadell é professor do departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica – PUC de Minas Gerais. 

    *Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da FMG.

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