Um brinde aos novos sócios
Comecemos pelas boas notícias, que a cortesia manda servir primeiro. O mundo ganhou, no ano passado, dois milhões de novos milionários. O relatório da Capgemini, que mede anualmente a fortuna alheia com o zelo de um tabelião, informa que o clube chegou a 25,3 milhões de membros, quase a população da Austrália inteira, donos de 98,3 trilhões de dólares. Coube a um executivo da BlackRock, a maior gestora de ativos do planeta, o discurso de brinde. Achou a soma enorme, impressionante e, com a franqueza que só os muito ricos se permitem em público, “uma grande oportunidade”.
Aplaudamos.
Terminado o aplauso, façamos as contas. O Produto Interno Bruto (PIB) do mundo inteiro, tudo o que a humanidade produziu em um ano de lavoura, fábrica e engenho, somou 111 trilhões de dólares em 2024, segundo o Banco Mundial. Os 25,3 milhões de eleitos, três décimos de um por cento da espécie, acumulam o equivalente a quase nove décimos desse esforço universal.
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Agora a conta que interessa ao leitor brasileiro. Um milhão de dólares são uns cinco milhões e cem mil reais. Quem ganha o salário mínimo de R$ 1.621 precisaria trabalhar perto de dois séculos e meio, sem gastar um centavo com aluguel, feijão ou remédio, para bater à porta do clube. Quem tivesse começado a poupar no Sete de Setembro de 1822 ainda estaria a umas quatro décadas da entrada.
A oportunidade, como se vê, tem endereço. E não é o nosso.
O motor do prodígio
De onde brotou a safra? O próprio relatório responde sem cerimônia. Das altas das bolsas, embaladas pelo otimismo dos mercados com a inteligência artificial. Não foi de mais alimento colhido, nem de mais doença curada, nem de mais casa construída. Foi do otimismo. Dois milhões de fortunas brotaram de uma expectativa.
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A Nvidia, fabricante dos chips que treinam os modelos, ilustra o fenômeno. Tornou-se em outubro de 2025 a primeira empresa da história avaliada em cinco trilhões de dólares e já passeia pela casa dos cinco trilhões e meio. Vale, sozinha, duas vezes e meia tudo o que o Brasil, com os seus 213 milhões de habitantes, produz em um ano. Uma fábrica de placas pesa mais que uma das dez maiores economias do mundo.
O leitor dirá que é o futuro. Pode ser. Mas convém lembrar que Marx deu nome a essa mercadoria há século e meio. Chamou-a de capital fictício. São papéis que não representam riqueza produzida, e sim o direito de se apropriar de uma riqueza futura, ainda por sair do trabalho de alguém. O papel sobe, o dono se sente rico, consome como rico, manda como rico. A produção correspondente virá depois. Ou não virá, e o castelo desaba sobre quem nunca foi convidado ao banquete, como em 1929 e em 2008.
Lênin completou o retrato. Descreveu o capitalismo do seu tempo como o império do rentista, do homem que vive de cortar cupons, apartado de qualquer função produtiva, e viu nesse parasitismo o sinal de um sistema em decomposição. Trocaram-se os cupons por painéis de cotações. O parasitismo ficou, agora com interface amigável.
O latifúndio digital
O leitor nordestino reconhecerá a planta baixa. O velho senhor de terras não plantava. Cobrava pela licença de plantar. A renda fundiária, ensinou ainda Marx, é o tributo pago ao monopólio de um recurso que ninguém produziu. Pois bem. As grandes plataformas refizeram o latifúndio em silício. A prefeitura aluga a nuvem da Amazon. A startup aluga o modelo da OpenAI. O comerciante aluga do Instagram o acesso aos próprios fregueses. O jornal aluga do Google o caminho até o próprio leitor. Quem quiser existir economicamente paga o pedágio, e o pedágio sobe na medida da dependência.
Eis o rentismo de novo tipo. Já não cobra renda só da terra. Cobra renda da realidade.
O exemplo mora ao lado. Em Caucaia (CE), na região metropolitana de Fortaleza, dentro de uma Zona de Processamento de Exportação, ergue-se o maior data center do país, encomendado pela dona do TikTok por mais de duzentos bilhões de reais. Consumirá, em plena operação, energia equivalente à de uma cidade de 2,2 milhões de habitantes, soprada pelos ventos do Ceará e do Piauí. Empregará na operação algumas centenas de pessoas. E processará, por contrato, dados de usuários de fora do país.
Repare o leitor na ironia da geografia fiscal. Pelas zonas de exportação já saíram o açúcar e o algodão. Agora sai o processamento. O vento é nosso, a isenção é nossa, a água do Cauípe e o território do povo Anacé são nossos. A inteligência e a renda tomam outro rumo. E os dados dos brasileiros, esses continuam sendo processados em solo alheio e devolvidos sob a forma de serviço tarifado e de publicidade dirigida. Tenho chamado a isso de colonialismo digital, e não encontrei até hoje motivo para suavizar o termo.
A juventude paga a conta três vezes
Toda essa engenharia tem um alvo preferencial, e ele tem menos de trinta anos.
Primeira conta. O estudante que atravessa a madrugada no aplicativo alimenta de graça, com cada vídeo, cada conversa e cada clique, os modelos que valem trilhões em Nova York. É trabalho não pago com nome de entretenimento.
Segunda conta. Terminado o expediente gratuito, o mesmo jovem paga vinte dólares por mês, mais de cem reais, pela assinatura da inteligência que ajudou a treinar. Compra de volta, em prestações, o que entregou de graça.
Terceira conta, a mais silenciosa. Quando a riqueza social migra da produção para a renda financeira, o investimento que cria emprego de qualidade definha. Sobram ao jovem a bicicleta e a mochila térmica, a jornada sem direitos vigiada por algoritmo, a promessa de empreender consigo mesmo. E sobra ainda a redução de cada um a perfil estatístico, a sujeito da predição cujo amanhã é calculado, precificado e revendido antes que ele tenha a chance de vivê-lo. Uma geração inteira corre o risco de chegar à maturidade tendo trabalhado a vida toda para enriquecer balanços que jamais a empregarão.
Soberania ou vassalagem
Diante desse quadro, a soberania tecnológica deixa de ser tema de seminário e vira questão de sobrevivência nacional. Nenhum país se tornou soberano alugando o próprio cérebro. A China entendeu a lição e construiu, em uma geração, infraestrutura, indústria e ciência próprias, sob direção pública e planejamento de longo prazo. Não se trata de copiar o vizinho. Trata-se de aprender o essencial. Quem não possui computação, dados e modelos próprios não negocia. Obedece.
O Brasil reúne condições raras. Uma das maiores populações conectadas do mundo. Uma língua falada por mais de duzentos milhões de pessoas. Energia limpa de sobra, como o Pecém (CE) demonstra. Universidades públicas de pesquisa e uma tradição de governança da internet respeitada nos cinco continentes.
Falta transformar os ativos em projeto, e o projeto tem nome e endereço. Infraestrutura pública de computação. Modelos de linguagem treinados aqui, com a nossa língua e as nossas culturas. Proteção efetiva dos dados do povo brasileiro. Educação tecnológica massiva na escola pública. Compras governamentais que puxem a indústria nacional. Nada disso é devaneio. É o que fizeram, cada qual a seu modo, todas as nações que hoje nos cobram o pedágio.
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O que fazer com o futuro
O frenesi passará, como passam todos os frenesis. A fatura ficará.
A pergunta que importa não é se a inteligência artificial transformará o mundo, porque transformará. A pergunta é quem decidirá a direção da transformação, e em proveito de quem. Entregue ao mercado, a resposta já está dada nos 98,3 trilhões do relatório da Capgemini. A técnica seguirá concentrando renda, poder e futuro em três décimos de um por cento da humanidade, enquanto vende aos demais o espetáculo do próprio despojamento.
Mas a técnica não traz destino gravado no silício. É terreno de disputa, como foram a terra, a fábrica e o petróleo. Disputá-la exige Estado indutor, exige constituição que alcance o poder algorítmico, exige sobretudo juventude organizada que se recuse ao papel de matéria-prima. O direito à realidade, a um amanhã que não chegue previamente calculado e precificado por balanço alheio, será conquistado como foram conquistados todos os direitos. Com consciência, com organização e com luta.
Os dois milhões de novos milionários já escolheram o futuro deles.
Falta o resto do mundo escolher o seu.
Percival Henriques de Souza Neto é físico, jurista, conselheiro do CGI.br, presidente da ANID e autor de Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil (Editora Publius, 2025).
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelo autor não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.