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Manipulação social

Correia da Fonseca Publicado em 28.04.2012

Segunda-feira, nova semana, logo pela manhãzinha a televisão dá-nos notícias da Síria em todos os canais portugueses ditos de sinal aberto e também nos que, distribuídos por cabo, são especialmente vocacionados para que a informação plural e isenta nunca nos falte. Num deles, não parecendo que seja importante especificar qual pois é certo que pouco ou nada os diferencia entre si, a notícia é particularmente esclarecedora: informa-nos de que a União Europeia decidiu cancelar exportações suas para a Síria. Não, contudo, todas as exportações; apenas a dos artigos de luxo.

 

E a notícia prossegue com um precioso esclarecimento adicional: é que, na Síria, os tais artigos de luxo apenas são consumidos pela família do presidente do país. Logo se entende que o cancelamento daquelas exportações constituirá um castigo selectivo dirigido exclusivamente a Assad e seus parentes, o que é muito bem feito para eles não serem maus.

Quanto a todo o resto que se passa na Síria, desta vez não vem nada de novo, o que talvez signifique que a contestação armada ao governo terá amainado, que o projecto de derrube de Assad pela força das armas está em congelação, que as vozes da China e da Rússia travando uma democratização «made in USA» surtiram efeito. Não obstante, a noticiazinha terá conseguido o objectivo que visava: reforçar no espírito das gentes o convencimento de que Assad e parentela são uns nababos exploradores do povo.

E por isso merecem que, se tanto for preciso, se lancem contra eles os fabulosamente ricos senhores feudais agrupados na Liga Árabe, se injectem no território da Síria grupos armados que logo se mascaram de insurrectos sírios sedentos de liberdade, se alimente a fogueira da guerra mediante o fornecimento aos que recusam Assad de moderno e sofisticado material de guerra também naturalmente «made in USA».

Território cercado

É óbvio que o cancelamento da exportação de artigos de luxo, para mais em tão exígua quantidade que só serviam o consumo de uma única família ainda que provavelmente numerosa, é completamente insignificante no plano económico, sendo ridículo o seu tratamento noticioso como se de algum facto importante se tratasse. Mas é igualmente claro que não é inútil e que não é inocente: visa como que instalar uma pequena intriga nos minúsculos cérebros que acumulam a parolice com uma permanente inveja das vidas sumptuosas, e é de crer que essa aparentemente ingénua manobra de propaganda política obtenha algum êxito.

Para além disto, tem ainda o mérito, é certo que involuntário, de exemplificar perante quem não for tonto até que extremos e minúcias é capaz de descer a arte de manipular as gentes a partir dos chamados meios de comunicação social, verdadeira Mil Maneiras de Infectar a Opinião Pública. Trata-se, como se compreenderá, de uma operação em dois tempos: um primeiro tempo que é o do sequestro das informações capazes de conduzirem a um adequado entendimento das coisas, um segundo tempo em que a informação honesta é substituída pelas falsificações e demais imposturas ininterruptamente produzidas pelas centrais especializadas nessa tarefa.

Neste quadro, bem se pode dizer que a lucidez de cada consumidor de media é em cada momento como que um território cercado e exposto aos constantes assaltos das aldrabices de vários graus que peritos bem pagos vão produzindo. Ou, na alternativa, da ampliação de qualquer minúcia de facto irrelevante até à falsa dimensão de dado significativo. Se, como alguém disse, a guerra é a política continuada por outros meios, também a mentira é a guerra prosseguida por esse atalho. Pelo que convém a cada um de nós manter-se constantemente de prevenção, como se diria em linguagem militar. Precisamente porque se trata de uma forma específica de guerra. Em que, embora não o pareça, afinal estamos todos mais ou menos envolvidos.

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Fonte: Avante!