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A modernidade e a trajetória das lutas políticas e ideológicas nas Olimpíadas

Alexandre Machado Rosa Publicado em 11.07.2011

Charles Freddye Pierre era o nome do Barão de Coubertin, considerado o “pai da Olimpíada Moderna”. Guiado pelo ideal da educação através do esporte, conceito idealizado na Inglaterra Vitoriana pelo pedagogo Thomas Arnold, Coubertin queria propagar o uso do esporte como um instrumento de aproximação entre os povos e em benefício da paz entre as nações. A célebre frase "o importante é competir" é atribuída ao barão francês.

Em junho de 1894, apoiado pelo norte-americano William Sloane e pelo inglês Charles Herbert, e na presença de representantes de 15 países, Coubertin fundou em Sorbonne, na França, o órgão precursor do Comitê Olímpico Internacional. Até hoje, é esse organismo que controla todo o movimento olímpico internacional.

Coubertin pensava em realizar a primeira edição dos Jogos em 1900, em Paris, durante a Exposição Mundial. Mas o príncipe Constantino da Grécia ficou tão empolgado com a ideia de recomeçar a competição no mesmo país onde ela havia terminado 16 séculos antes, que conseguiu organizá-los em dois anos. Em 6 de abril de 1896, então, foram retomados os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna.

Os Jogos e sua importância para os povos

A importância de sediar uma Olimpíada pode ser resumida no número de cidades que já se candidataram na história dos Jogos Modernos: 87 em 37 países aos jogos de verão (22 cidades foram escolhidas) e 66 em 24 países aos jogos de inverno (19 agraciadas). Além de ser o maior evento esportivo mundial – “um festival atlético multicultural que atrai milhões de fãs ao redor do mundo” –, tem sido o palco de discussões sociais e propaganda política e, nas últimas décadas, o maior fenômeno de marketing, capaz de alavancar esporte, economia e turismo de uma nação.

Desde a reedição do movimento olímpico liderado pelo Barão e Cobertin, em 1896, com os I Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Atenas, os jogos têm sido realizados preferencialmente nos países do hemisfério Norte.

Até a realização dos jogos no Rio 2016, os Jogos Olímpicos terão sido disputados em 44 cidades de 23 países, mas em cidades fora da Europa e América do Norte foram apenas oito ocasiões. Desde os Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul, os jogos foram realizados na Ásia ou na Oceania quatro vezes. Os Jogos de 2016 no Rio de Janeiro serão os primeiros em um país sul-americano, restará a escolha de uma candidatura da África para tornar os jogos presentes em todos os continentes.

Os Estados Unidos já sediaram quatro olimpíadas de verão e quatro de inverno, mais que qualquer outra nação. Entre as nações sede dos Jogos Olímpicos de Verão, a Inglaterra foi a anfitriã em dois jogos, e sediará a terceira Olimpíada, em 2012, em Londres o que a tornará a única cidade a sediar por três vezes. Alemanha, Austrália, França, Grécia sediaram os Jogos Olímpicos de Verão por duas vezes e Japão, México, Canadá, Espanha, Finlândia e Coreia sediaram uma única vez.

Desde os Jogos de Barcelona, em 1992, os organizadores e observadores perceberam que a sua realização pode deixar um legado para a cidade sede que vai além das instalações físicas, impactando na: 1) Infraestrutura; 2) saber e conhecimentos; 3) imagem do país; 4) economia; 5) comunicação; 6) cultura.

Nos documentos elaborados pelo Comitê responsável pela candidatura do Rio de Janeiro aos jogos, os principais legados apontados se referem à: 1) Transformação da cidade; 2) Inserção social: com a construção de habitações, de treinamento profissional e emprego; 3) com foco na Juventude e na educação e 4) o desenvolvimento do Esporte.

Em relação à Copa do Mundo em 2014, o legado assemelha-se aos Jogos Olímpicos, com um diferencial que é o número de sedes (12 no total) e subsedes, ou cidades base, que não abrigarão os jogos, mas servirão de centro de treinamento e hospedagem durante a preparação das seleções que disputarão os jogos da fase final da Copa do Mundo 2014. O Estado de São Paulo, por exemplo, lançou o guia Cidade Base: o potencial dos municípios de São Paulo para receber as delegações da Copa do Mundo Fifa Brasil 2014. O guia inicialmente continha o cadastro de 70 cidades da região Metropolitana de São Paulo e do interior que possuem infra-estrutura esportiva adequada para ser centro de treinamento para a Copa do Mundo e também para os Jogos Olímpicos.

Tais constatações mostram que os megaeventos já impactam o país como um todo, não se restringindo às cidades que serão sede da Copa 2014 e o Rio de Janeiro no caso específico das Olimpíadas.
É neste cenário que é possível ao Brasil, a exemplo de Barcelona (1992), Sydney (2000), Atenas (2004), Pequin (2008) e Londres (2012) e África do Sul (2010) aproveitar a mobilização das três esferas do poder público, das entidades de gestão do esporte, da iniciativa privada e do interesse da sociedade para alavancar o desenvolvimento social, especialmente para a juventude, potencializando as metas de desenvolvimento social.

Um século de lutas políticas nos Jogos

Nos Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, no Canadá, o Brasil terminou sua participação em 36º lugar, com duas medalhas de bronze. Mas não foi este o acontecimento mais importante dos jogos.
O grande fato desta edição dos Jogos Olímpicos de verão foram os Países africanos, tanto os da África-subsaariana como os do Norte se juntaram ao boicote que fez parte do movimento anti-apartheid. 28 países somando Iraque e Guiana, boicotaram os Jogos Olímpicos de 1976 devido à participação da Nova Zelândia. A seleção de rúgbi da Nova Zelândia, os hoje famosos All Blacks, haviam realizado uma excursão à África do Sul, país banido das competições internacionais pela política racialista do apartheid.

Mas este não foi o único movimento político que marcou as edições dos jogos olímpicos de verão da era moderna. Os jogos de 1916 também não ocorreram em função da 1ª Guerra Mundial. Em 1936, o nazismo usou os Jogos de Berlim como meio e mensagem para a ideologia nazi-fascista. Na sequência, não puderam ocorrer as edições de 1940 e 1944 em virtude da 2ª Guerra Mundial. Os jogos só voltaram a se realizar em 1948, em Londres, que utilizou os jogos para reconstruir a cidade que havia sido bombardeada pelo exército alemão, sendo esta a primeira experiência significativa de “legado social” de um megaevento esportivo.

A partir de então, o mundo bipolarizado pelo Ocidente X Oriente, pode acompanhar outros episódios envolvendo as edições dos jogos. Em 1968, os Jogos Olímpicos ocorreram na Cidade do México. Nele, os atletas americanos e negros, Tommie Smith e John Carlos, medalhistas de ouro e bronze, usaram a saudação alusiva aos panteras negras, corrente do movimento pelos direitos civis, durante a execução do hino norte-americano. A ação foi considerada contrária aos princípios dos Jogos Olímpicos e os dois atletas foram expulsos dos Jogos Olímpicos.

No mesmo ano, o movimento estudantil na Cidade do México tentou fazer uso da mídia para ganhar a atenção da comunidade internacional para protestar contra o caráter autoritário do governo mexicano. O governo reagiu com violência, culminando com o Massacre Tlatelolco, ocorrido em de 2 de outubro de 1968, com mais de duzentos manifestantes sendo mortos pelas forças governamentais. Até hoje ninguém foi punido.

Os Jogos Olímpicos de 1972, realizados em Munique, na Alemanha, serviram de palco para uma das maiores tragédias já ocorridas em eventos esportivos.

O evento, a princípio, serviria de exemplo ao mundo, pois unia cerca de cento e vinte e uma nações e mais de sete mil atletas. No dia 5 de setembro, cinco palestinos integrantes do grupo Setembro Negro renderam 11 atletas israelenses. A escolha da data do ataque foi para prejudicar a maior movimentação das Olimpíadas, onde aconteceria o jogo de vôlei entre Japão e Alemanha, que já havia vendido mais de 35 mil ingressos.

Porém, a polícia alemã não estava preparada para enfrentar esse tipo de problema e, na tentativa de libertar os reféns, os 11 atletas foram mortos pelo grupo, além de um agente policial e cinco integrantes do grupo palestino.

Foi armada uma emboscada para pegar os palestinos no aeroporto de Munique, onde um avião os levariam para fora da Alemanha. O confronto com a polícia durou cerca de quarenta minutos, com tiroteios intensos, até que um árabe atacou o helicóptero que transportava os reféns com uma granada, fazendo-o explodir.

Os Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, foi marcado pelo maior boicote olímpico na história. Este boicote incluiu os EUA e mais 61 países. O boicote foi explicado como sendo uma resposta à invasão soviética no Afeganistão.

Nos jogos seguintes, em 1984, em resposta ao boicote de 1980, a União Soviética mais 14 aliados boicotaram as Olímpiadas de Los Angeles, nos Estados Unidos. A alegação foi a falta de segurança para seus atletas. O Bloco do Leste realizou seu próprio evento, os Jogos da Amizade.

Em 1988, a Coréia do Norte boicotou as Olimpíadas de Seul, pois ainda estava tecnicamente em guerra contra a Coréia do Sul. Albânia, Cuba, Etiópia, Madagascar, Nicarágua, e Seychelles também se juntaram ao boicote.

Em 2008, nos Jogos Olímpicos de Pequim, a ameaça de boicote voltou a ameaçar “o espírito olímpico”. Diante das disputas pelo controle político do Tibete na qual a Europa e os EUA tentam confrontar ideologicamente a China e ameçaram, sem sucesso, promover um novo movimento de boicote aos Jogos. Entre 1911 e 1950, o Tibete conseguiu manter o status de país independente -- durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o Tibete permaneceu neutro, apesar das pressões de EUA, Reino Unido e China para permitir a passagem de matérias-primas pela região. O conflito, no entanto, serviu apenas como propaganda contra a China, sem, no entanto, efetivar o boicote.