Certo promotor de justiça, sempre que não conseguia convencer os jurados, e o réu era absolvido, arrematava alertando o fulano: “Você escapou desta. Mas, não se alegre. Dizem que lá na comarca da eternidade, há outro julgamento, outros delegados, peritos, testemunhas e outros juízes.” Assim, ia transferindo as esperanças de justiça para o além. Como muitas vezes vamos adiando a vida. Mas, por cautela, é bom prevenir, para não dar de cara com a “indesejada das gentes”, sem aviso prévio. Recomenda-se aos menos afoitos, alguns desvios para demorar mais neste vale de lágrimas. Bom começo é nascer em país desenvolvido, salvando-se de esticar a canela ainda na infância, por desnutrição, lombriga, desidratação ou ataque de sanguessugas ou máfia de ambulâncias. Depois, afastar-se das situações de risco: álcool, drogas, fumo. Tomar cuidado com o trânsito. Evitar ser pedestre, motoqueiro, ou comprar carteira de motorista. Se não for emergência, é melhor ouvir o povo: “quem nada faz em sua casa está em paz”. Mesmo em domicílio, fechar portas e janelas, providenciar cerca elétrica, câmaras de vigilância, empresa de segurança. Usar arma, não. A lei só permite para bandidos. É bom se precatar fortalecendo sua prisão. Rua, parques, jardins, avenidas são reservados aos delinqüentes. Podendo, afaste-se das pendengas por política, mulher alheia e dinheiro. São coisas vizinhas da morte. Nestes casos, o vivente está procurando o que não guardou. E pode encontrar. Em tais situações, o meirinho da morte não precisa ser despachado com o respectivo mandado. O vivente mesmo apresenta-se espontaneamente ao cutelo. Em lugares remotos do planeta, as pessoas abusam, ultrapassam os cem anos. A longevidade está assegurada. Alimentação saudável e dificuldade de se localizar seus endereços. Não constam de guias telefônicos, sítios na internete, listas da previdência, folhas de pagamento de órgão público, ou de cadastros bancários. Tranqüilos em suas vidinhas remotas, não cultivam transtornos mentais, psicoses, depressões, pânicos, não padecem de desequilíbrios de glicose, colesterol ou de hormônios. Vão calmamente, de bubuia, a vida sem malquerença ou medo. Não são dos afoitos que batem, por qualquer me-dá-aquela-palha, às portas da morte. Mesmo lembrados, especam, empacam, e só vão devidamente intimados, com mandado formal e meirinho reconhecido. Assim mesmo, só o acompanham debaixo de vara, coercitivamente, arrastados, unhando os barrancos da vida. Porém os que moram na turbulência das grandes cidades, sempre lembrados para casamentos, baladas, furdunços, lançamentos de livros ou vernissage, a coisa é certa. Na primeira diligência é encontrado pelo meirinho fatal. Cumprida a ordem do juiz eterno, lá se vai o desprecatado. Os outros continuarão dando trabalho. Alguns acabam esquecidos. O meirinho tem muito trabalho. Só acabam pegos, caso vacilem e apareçam na coluna social, em missas solenes, cultos evangélicos televisivos ou se, incautos, cometem o descuido extremo de aparecer num telejornal global.
O mineirinho da morte
Certo promotor de justiça, sempre que não conseguia convencer os jurados, e o réu era absolvido, arrematava alertando o fulano: “Você escapou desta. Mas, não se alegre. Dizem que lá na comarca da eternidade, há outro julgamento, outros delegados, peritos, testemunhas e outros juízes.” Assim, ia transferindo as esperanças de justiça para o além. […]
POR: Aidenor Aires
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