Numa só vida quanto fruto, quanta semente!

Por Adalberto Monteiro

No âmbito das comemorações do centenário de nascimento de Maurício Grabois, a Fundação Maurício Grabois homenageia seu patrono com um conjunto de iniciativas e, entre elas, o ponto alto é este “Uma vida de combates”, de autoria do jornalista e escritor Osvaldo Bertolino. Para além de uma 2ª edição, trata-se, na verdade, de um novo livro erguido do alicerce da edição primeira, de 2004. Vem à luz, pela obra de Bertolino, a vida de Grabois entrelaçada com a história das batalhas da Nação pela democracia e a soberania nacional, carne e unha com a luta dos trabalhadores, alimentada e orientada pelos ideais do socialismo, e dedicada inteiramente, com inaudita pertinácia, à construção do Partido Comunista do Brasil.

Acontece que a vida de Maurício Grabois, e de outros expoentes da geração de bravos a que ele pertenceu, se passou, grande parte, nos subterrâneos da liberdade. Dos 41 anos de militância de Grabois – de 1932 a 1973 –, apenas dois únicos se deram na legalidade. Salvo essa pequena e frágil ilha de liberdade do período de 1945 a 1947, nos demais a legenda comunista navegou sob a tormenta da ilegalidade. O Partido enfrentou perseguições sanguinárias empreendidas pelo Estado Novo, pelo governo do general Dutra e pela ditadura militar de 1964.

Clandestino, Grabois teve muitos nomes: Marinho, Joaquim, Amadeu, Celso, Abel, Mário, Chico, Velho…  Para atuar, ele e seu Partido, muitas das vezes, tinham que apagar qualquer vestígio. Na vida dos perseguidos políticos, como Grabois, há claros, lacunas quanto a itinerários e fatos que sequer os familiares mais próximos dominam. Para lutar e viver impunha-se destruir documentos e às vezes apagar trechos da própria memória. Por outro lado, os opressores, além da violência, das prisões, torturas e eliminação física dos seus oponentes, sempre se esforçaram para enterrar em túmulo de chumbo a memória da luta dos oprimidos. Essa ignomínia vai da destruição de documentos históricos até a prática macabra de ocultar e profanar os cadáveres dos oprimidos trucidados. Dessas circunstâncias derivam as dificuldades para se escrever a história do Partido Comunista do Brasil; e advêm as barreiras para escrever a biografia daqueles que compõem sua galeria de heróis, na qual se eleva o nome de Maurício Grabois.

Há, ainda, outro obstáculo, de origem benévola, mas que não deixa de ser uma pedra a mais no meio do caminho dos pesquisadores. Maurício Grabois, a exemplo de outros históricos dirigentes do Partido Comunista do Brasil, como seu camarada e amigo de toda vida, João Amazonas, pertence a uma estirpe de lideranças avessas à ribalta. Quando aplaudidas sempre transferiam as palmas ao coletivo militante do Partido, segundo eles, razão primeira das vitórias. Com essa conduta, eles não se ocuparam em escrever na primeira pessoa.

Osvaldo Bertolino com a obstinação dos autênticos pesquisadores vasculhou as mais diferentes fontes e quando a escassez de elementos o impelia a desistir ele respondia com mais investigação. Por exemplo, para retratar como era o ambiente da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, à qual Grabois se ligou na condição de estudante em 1930, Bertolino se valeu das memórias de Apolônio de Carvalho e Nelson Werneck Sodré que discorrem sobre detalhes daquela instituição. O texto se apoia numa bibliografia de uma centena de livros; num garimpo paciente em vários jornais e revistas; em acervos dos principais arquivos do país; no depoimento de camaradas e familiares; no estudo minucioso dos artigos, discursos, ensaios, correspondências, de toda a produção escrita de Grabois, além de entrevistas, notícias, telegramas, qualquer fonte contendo ao menos uma linha dele ou sobre ele.

A ditadura militar, num crime hediondo que Suprema Corte alguma tem prerrogativas para inocentar, deu sumiço nos restos mortais de Maurício Grabois. Tal ato macabro teve o intuito de ocultar os crimes daquela tirania e de tentar extirpar a trajetória desse herói da memória da Nação. Mas, eis que, pelas páginas do livro de Osvaldo Bertolino, a vida de Maurício Grabois nos é apresentada por inteiro, numa narrativa envolvente e empolgante que nos arremessa a épocas e episódios decisivos da história brasileira no século XX.  Este é daqueles livros que você, ao adquiri-lo, ganha de brinde um ingresso para assistir a um filme, no caso uma película épica. Maurício Grabois, seus camaradas, seu Partido, o povo, os trabalhadores são os protagonistas.

Nas primeiras páginas, podemos ver uma família de imigrantes judeus, atravessando os oceanos para fugir do bestial antissemitismo que assolava a Ucrânia, terra natal do pai e da mãe de Grabois: Augustin e Dora. Primeiro, o casal se instalou na Argentina e depois se transferiu, em definitivo, para o Brasil. O nascimento de Grabois em Campinas, São Paulo, sua infância e adolescência em Salvador, Bahia. Conhecemos então sua família, seus irmãos, irmãs. Ao longo da narrativa, o livro vai apresentar um pouco do pouco de vida pessoal, a que Grabois teve direito, por conta da perseguição ininterrupta das ditaduras que combateu e da dedicação sem limites com que se doou à causa do socialismo.

Mais adiante, seremos apresentados à sua companheira, Alzira, e conheceremos seus filhos: Victória e André. E outros membros da sua família, seus camaradas, seus amigos. Lança, pois, luzes sobre este lado opaco, pouco conhecido, mas que é importante revelar, pois ajuda a apresentá-lo sem aureolas, sem canonização, mas tal qual era: humano, terrestre, de carne e osso, de alegrias e lágrimas. Alegrias, como a que sentiu quando lhe chegou a boa nova de que as tropas do Exército Vermelho haviam entrado em Berlim, representando o triunfo da humanidade contra a peste nazista. Lágrimas, como as que escorreram no seu rosto quando em outubro de 1973 recebeu o comunicado de que seu filho, André Grabois, fora mortalmente alvejado num dos combates da resistência armada do Araguaia da qual Maurício era o comandante.

Capítulo a capítulo, se verá uma vida de coerência e compromisso com os ideais da revolução e do socialismo que abraçou aos vinte anos. A “infância” de sua militância entre os tenentes revolucionários, entremeio aos tiroteios da Insurreição de 1935 e nos comícios massivos da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Ele, aos 31 anos de idade, já envolto em grandes responsabilidades. Um dos principais organizadores da Conferência da Mantiqueira, realizada em agosto de 1943, que coroou os esforços para reestruturar o PCB que fora destroçado pelo terror do Estado Novo. Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, nos cárceres daquela ditadura, e Grabois ao lado de João Amazonas, Pedro Pomar, Diógenes Arruda Câmara, Amarílio Vasconcelos, Dalcídio Jurandir, entre outros, peça a peça, colocaram novamente o Partido de pé. Um pouco adiante, naquele magnífico ano de 1945, desaba o Estado Novo. Prestes é libertado, sopram os ventos da democracia, se realiza a poesia de Castro Alves, a praça passa a ser do povo que enxerga na legenda comunista aquela que pagou com vidas a conquista da liberdade. A complexa marcha e contramarcha do golpe que derruba Getúlio Vargas e a eleição do general Dutra como um estratagema do imperialismo e das classes dominantes locais para conter o avanço da democracia e o crescimento do Partido Comunista do Brasil.

Osvaldo Bertolino, com a meticulosidade de um ourives, nos presenteia reconstituindo os principais debates da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. O leitor e a leitora irão ter a sensação de que foram transportados, no túnel do tempo, para as galerias do Palácio Tiradentes, antigo prédio da Câmara dos Deputados. Bertolino, alicerçado nos diários do Congresso Nacional, da Constituinte, e nos jornais e revistas do período, consegue recompor o clima contraditório daquele período no qual os agradáveis ares da democracia se chocavam com a borrasca do autoritarismo. Como diz Grabois, o espírito ou o fantasma de 1937 e seus verdugos infestavam o ambiente. Maurício Grabois, um dos 15 eleitos da bancada comunista – da qual entre outros faziam parte Luiz Carlos Prestes, João Amazonas, Carlos Marighella, Gregório Bezerra –, foi escolhido pelos seus camaradas para ser o líder. De modo vivo, na reprodução do calor daquelas refregas, o livro revela a acuidade crítica, a cultura política de Maurício e a marca da combatividade dos mandatos comunistas.

Outros capítulos analisam o período de 1956 a 1962, quando se deu no interior do PCB um acirrado confronto teórico, político e ideológico no qual estava em jogo a própria essência revolucionária do histórico Partido fundado em 1922. Esse conflito se tornou mais agudo com os impactos de uma crise no âmbito do movimento comunista mundial advinda do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Formaram-se, no Partido, duas correntes antagônicas: uma alinhada em teses que revisavam o marxismo e comprometiam seu gume revolucionário; e outra que se opunha a tal revisão e defendia os princípios e a essência transformadora do marxismo. Maurício Grabois, ao lado de João Amazonas e Pedro Pomar, dentre outros, se destacava na liderança desta última corrente que, em fevereiro de 1962, teve a ousadia e a sagacidade de protagonizar um episódio de alcance histórico: a reorganização do Partido Comunista do Brasil. Essa tomada de posição é que assegurou ao PCdoB, na contemporaneidade, uma trajetória de crescente força. Nesses embates de natureza teórica, ideológica e política, se agigantou o papel de Grabois em decorrência de sua densa cultura política e marxista.

Com o golpe militar de 1964, novamente o cinza-chumbo lança seu manto de opressão sobre o país. Maurício Grabois uma vez mais seria convocado pela história para enfrentar um regime tirano. E quando – sobretudo a partir do final de 1968 – a ditadura militar assumiu uma feição terrorista, uma parcela do campo patriótico e da esquerda concluiu que se impunha a resistência armada pela conquista da liberdade. O PCdoB então organiza nas selvas da Amazônia, no sul do Pará, a Guerrilha do Araguaia (1972-1974). Maurício Grabois que fundara editoras e dirigira uma rede de jornais, que sempre tinha nas mãos uma caneta, passa a empunhar um fuzil, na condição de Comandante da resistência armada à ditadura que se deu nas terras banhadas pelo rio Araguaia. No Natal de 1973, tombou, como um bravo. As tropas da ditadura tiraram-lhe a vida, mas as sementes da causa da liberdade e do progresso social que lá os guerrilheiros e guerrilheiras por ele comandados plantaram até hoje geram árvores frondosas.

Pois nos resta, convidá-lo(a) a, de pronto, desfrutar da leitura de “Uma vida de combates”. Além de um rico e detalhado mural de 40 anos da história brasileira, dos anos 1930 aos 1970, além de resgatar, revelar e ressaltar a vida e o legado de um grande brasileiro, os leitores e leitoras irão se deparar com o enaltecimento de valores, lastimavelmente combatidos na atualidade, mas que sem eles não há como a Nação e o povo prosperarem. São os valores e os princípios éticos da solidariedade que nos dizem que a felicidade só pode ser alcançada em plenitude à medida que seja cada vez mais para todos. Valores que alimentam uma militância libertadora e transformadora, comprometida com a construção de um mundo novo de paz, solidariedade e prosperidade. Esse mundo só virá com o despertar de milhares de Maurícios adormecidos nos nossos milhões de Antonios e Marias.

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Ergamos ao alto as taças cheias de vinho e de alegria! Salve, salve o centenário de Maurício Grabois! A atual grave crise mundial do capitalismo do qual Grabois foi um ferrenho e erudito crítico e a alternativa do socialismo que se revigora no curso de uma nova luta demonstram a força e a justeza de suas ideias e de suas escolhas. O ciclo de conquistas e realizações que o Brasil atravessa desde 2003, o fortalecimento da luta do povo e dos trabalhadores e a força crescente do Partido Comunista do Brasil – sua grande obra – têm, neste início da segunda década do século XXI, na geração de bravos da qual Grabois era destacada liderança, os semeadores dessa época fecunda e promissora que, hoje, o país vive.

São Paulo, novembro de 2012

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*Adalberto Monteiro, jornalista e poeta, é o presidente da Fundação Maurício Grabois e o editor da revista Princípios.