A alimentação responde por uma parte cada vez mais importante do orçamento de uma família à medida em que sua renda diminui e, por isso, a inflação dos alimentos afeta em especial os pobres. Ao longo do século passado, o avanço tecnológico e a expansão da fronteira agrícola permitiram o aumento da produtividade e do excedente agrícola de forma considerável a ponto de, ao seu final, pretender-se acabar com a fome no mundo nos primeiros trinta anos do novo milênio. Longe disso, depois de 2019, o número daqueles afetados pela fome cresceu e os preços dos alimentos conheceram aumentos recordes. 

Em princípio a questão não é a escassez, mas a distribuição, já que existem estoques, que servem exatamente para enfrentar o imponderável, seja do clima, ou da política internacional. Secas, guerras e cataclismas foram vencidos pelas grandes civilizações passadas. Hoje, o alimento desperdiçado, mais de um bilhão de toneladas por ano, bastaria para acabar com a fome. Porém, o problema atual é o preço, que conhece uma elevação recorde e, para entender por que ele está nas alturas, uma perspectiva de mais longo prazo é de grande valia. 

O comportamento do preço dos alimentos comercializados no mundo pode ser acompanhado por um índice publicado pela Organização para Agricultura e Alimentação, a FAO, da ONU. Carnes, lacticínios, cereais, óleos vegetais e açúcar são considerados de forma ponderada e sistemática, o que permite ter uma indicação da evolução da principal despesa no orçamento das famílias mais pobres. 

Nos últimos sessenta anos, entre 1961 e 2021, o índice de preço dos alimentos da FAO pode ser visto pelo gráfico a seguir. Ele variou bastante e observe que o valor foi deflacionado; ou seja, corrigido pela inflação de forma a retirar a ilusão monetária, a perda da capacidade de compra da moeda durante o período. Por isso, esses preços são ditos “reais” e, mais importante, são preços “relativos”, porque eles indicam a mudança nos termos de troca entre todas as mercadorias. Assim, o movimento da curva retrata como eles se comportaram diante da média dos todos os demais preços. 

Em 1974 e 1975, os preços dos alimentos atingiram patamares recordes, um primeiro pico que perdurará até pouco tempo. À época, a inflação dos alimentos acompanhava de perto a elevação dos preços da energia e dos insumos agrícolas em razão da primeira crise do petróleo. A combinação dos movimentos, em mercadorias-chaves como alimentos e energia, deflagrou o choque de oferta que marcou o fim dos trinta anos de prosperidade após a II Guerra Mundial. Portanto, o evento teve impacto estrutural. Nos anos seguintes, surgiu a estagflação. Uma novidade, que somava a estagnação e a inflação; o pior dos dois mundos. 

Gráfico: Índice preço dos alimentos (FAO), de 1961 a 2021 (2014-2016 = 100)

A partir de meados da década de 1970 e até meados da década seguinte, o preço dos alimentos caiu de forma acentuada, como se depreende da leitura do gráfico. Em apenas dois momentos a queda foi interrompida, entre 1978 e 1980 e em 1984; na primeira ocasião, novamente em sincronia com um choque do petróleo (o segundo). Ao final, o preço real dos alimentos fora cortado pela metade; entre 1974 e 1987, caiu exatamente 51%. 

De fato, o índice de 1987 é o menor de toda a série, menos um terço do que no início, em 1961. A queda expressiva, depois de meados da década de 1970, indicava uma mudança importante nos termos de troca no comércio internacional em favor dos importadores. Vale observar a contribuição desse movimento para mitigar as pressões inflacionárias anteriores e, assim, beneficiar às famílias mais pobres em todo mundo.  

Durante os últimos quinze anos do século passado, o comportamento do preço dos alimentos, sintetizado pelo índice da FAO, continuou a apresentar uma certa volatilidade, mas, no todo, manteve-se em patamares relativamente baixos comparado ao passado. Isso foi decisivo para o ambiente de inflação controlada e combate à fome no mundo, o que alimentou uma expectativa positiva para o século por vir. 

No entanto, em 2005, o índice de preço dos alimentos, que ainda estava um quinto abaixo daquele registrado no início da série, em 1961, já apontava para alta iniciada desde a virada do milênio. O fenômeno era generalizado: alimentos, minérios, petróleo e gás natural ingressavam em um “super ciclo” de alta embalados pelo desenvolvimento no Extremo Oriente, em particular na China. A “fábrica” do mundo demandava matérias-primas e, enquanto cresceu rapidamente, pressionou os preços internacionais. 

Como no caso dos minérios, hidrocarbonetos e matérias-primas, o preço dos alimentos foi fortemente afetado pelo crash de 2008. Até o financiamento do comércio externo foi interrompido na maior crise econômica depois de 1929. Em seguida, ainda quanto aos alimentos, é interessante notar que a recuperação foi de mais curta duração que a vista no preço do barril do petróleo, por exemplo, que se manteve elevado até meados de 2014. 

Depois de 2011, o preço dos alimentos caiu de forma consistente até 2019, quando chegou a estar um quinto menor do que no começo da década (o índice da FAO registrou 118,8 em 2011 e 95,6 em 2019). Novamente, esse comportamento foi decisivo para acomodar as pressões inflacionárias no comércio internacional durante a década passada que, aliás, no último quinquênio quase não existiram. 

Em 2020, vale observar que o preço dos alimentos se encontrava no mesmo patamar daquele registrado no início da série, passados sessenta anos. Diante da tendência de curto prazo, pelo gráfico, conclui-se também que a pandemia pouco impacto teve: os preços se mantiveram em níveis comparáveis aos quatro anos anteriores; um flagrante de estabilidade diante da tormenta.  

Contudo, em seguida, nota-se uma forte elevação na curva de preço. Ela se deveu à ruptura das cadeias de abastecimento, aos gargalos logísticos e à alta dos preços dos insumos com a retomada da economia. Isso ocorreu antes mesmo da deflagração da guerra na Ucrânia. Entre 2021 e 2020, o índice de preço da FAO aumentou consideravelmente: em 46%. Um incremento anual só visto uma vez, em meados da década de 1970.  

Iniciada em 24 de fevereiro de 2022, a escalada do conflito militar foi capaz de elevar o preço dos alimentos em mais um terço, comparado àquele de dezembro passado. Resultado: em abril, o índice alcançou o seu ponto mais alto nos últimos sessenta anos e estava quase sessenta por cento maior que há três anos: 158,5. Pior, nada indica que ele deva parar por aí. Em 2021, o índice de alimentos já fora 6% mais elevado do que o pico anterior, alcançado em 1974, à época do primeiro choque do petróleo. 

Não por acaso, a The Economist, veículo do pensamento conservador britânico, na edição de 21 de maio de 2022, estampou na capa o título “The food catastrophe”. O diagnóstico reconhece a gravidade do choque na oferta dos alimentos. Aponta como causa a guerra, o clima, a energia e a pandemia. Naturalmente, fatores “exógenos”. Sanções e restrições à exportação também são mencionadas, assim como a vulnerabilidade dos países mais pobres. 

A revista menciona que um bilhão e seiscentos milhões de indivíduos não se alimentam o suficiente, quatro vezes mais do que antes da crise atual e que aqueles que passam fome somam duzentos e cinquenta milhões. Os números são semelhantes aos mencionados pelo Diretor-Geral da FAO em seus últimos pronunciamentos. Crianças e idosos são os mais vulneráveis, a indiferença é um escândalo. 

O que chama atenção na matéria da revista é a falta de perspectiva histórica e política. Para um semanário de economia, caberia lembrar que, além da magnitude, a velocidade da mudança dos preços relativos dos alimentos – em alta – não se fará sem enormes custos sociais. A consequente maior exposição à fome, além de trágica, é fonte de insatisfação e instabilidade. A degradação das condições de vida na periferia e o aumento da disparidade, mesmo dentro dos países mais ricos, desafia a ordem estabelecida. 

A fome não está na ordem natural dos fenômenos e não é aceitável hoje. O potencial disruptivo é imenso ao fragmentar por dentro as sociedades e, no cenário internacional, os países em grandes blocos. No passado recente, a contínua elevação dos custos de subsistência no Norte da África e no Oriente-Próximo alimentou a Primavera Árabe e os conflitos subsequentes. Atualmente, esta é a realidade no Chifre da África, no Afeganistão, no Sri Lanka, no Iêmen ou ainda na Síria e no Líbano. 

Enquanto o mundo se encaminha para uma transição energética e se prepara para os impactos das mudanças climáticas, a crise atual mostra cabalmente que desafios seculares não foram vencidos. Alimento, aquecimento, luz e transporte, a subsistência mínima das famílias está em jogo em pleno século XXI. O acesso à água, educação e segurança também não existe para quase todos os habitantes da periferia. 

Quem é o culpado? O Estado, o capital, ou os dois juntos? Certamente, não é, nem quem trabalha, nem quem procura trabalho. Mais importante, no que diz respeito aos alimentos e sabendo que inflação é um jogo de soma nula, uma distribuição forçada da renda, onde o que um perde é o que o outro ganha: hoje, quem perde e quem ganha? Não é difícil concluir. 

Luís Eduardo Duque Dutra é Doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e Professor Adjunto da Escola de Química da UFRJ. Publicou “Capital Petróleo: a saga da indústria entre guerras, ciclos e crises” pela editora Garamond.