Pesquisadora sobre eleitores conservadores, Esther Solano considera que a pauta da coesão familiar não é secundária e precisa ser enfrentada pela esquerda com sutileza e “presença no território”.

O 3º Simpósio Direitas Brasileiras, evento que ocorreu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), iniciado na segunda-feira (22) e encerrado ontem (24), reuniu especialistas para analisar o tumultuado cenário eleitoral brasileiro de 2022. Pesquisadores de diferentes áreas analisaram as diversas dimensões que caracterizam o governo e o eleitorado de Jair Bolsonaro, a ação de grupos e movimentos de direita e o papel das instituições. 

A socióloga Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), esteve na mesa de abertura apontando os principais resultados de suas pesquisas sobre segmentos conservadores e evangélicos brasileiros. A partir de suas rodadas de entrevistas, ocorridas desde abril, ela sinalizou os obstáculos que dificultam a reconexão do eleitor com Lula e as brechas abertas para comunicar-se eleitoralmente com este público. 

Esther vinha notando uma oscilação dos evangélicos em relação ao bolsonarismo. Uma parcela dos evangélicos pentecostais estaria arrependida de ter votado em Bolsonaro, mas diante do avanço da campanha de medo contra a esquerda, começa a voltar para o voto conservador.

“Em 2018 observávamos uma coesão, unicidade eleitoral, muito grande dos evangélicos em torno do projeto bolsonarista. Todos estavam juntos. Agora já falam que há divergência e gente que vai com Lula dentro da igreja”, diz ela, salientando, no entanto, que depois de maio, os púlpitos começaram a ser turbinados pela campanha bolsonarista.

Para ela, Bolsonaro tem construído uma narrativa sólida em direção aos evangélicos, enquanto a esquerda não dialoga com os medos concretos desse público. “Essas pessoas não são bolsonaristas por natureza, como revelam as votações em Lula e Dilma. Mas não estamos conseguindo dialogar com essas pautas e sensibilidades”, afirma.

A socióloga lamenta que as campanhas restrinjam os anseios desse público conservador a uma “pauta moral”, como algo secundário. “Quando falamos de pauta moral, estamos falando de um público conservador, não apenas evangélico, para quem a questão da coesão familiar é muito importante, que valoriza um passado romântico, onde tudo era mais simples e as hierarquias eram respeitadas. A solidez com que esse público defende essa pauta como vital, demonstra um medo nevrálgico de perder a única coisa que importa e que resta, que é a família”, explica. 

De acordo com Esther, Bolsonaro oferece em termos simbólicos esse lugar de pertencimento, de integridade da família que tem seu lugar no mundo. “Mesmo sem ofertas eleitorais em outros campos, essa promessa é vista como uma âncora existencial do eleitor”, diz ela.

Esther Solano

A narrativa messiânica

Na análise da socióloga, o fio condutor da campanha de Bolsonaro é que o Brasil está doente espiritualmente. A primeira eleição teria sido para Bolsonaro entrar na máquina, e nesta segunda, ele precisa ganhar obrigatoriamente para limpar espiritualmente o Brasil e instaurar o reino de Deus na terra, como disse sua esposa Michelle Bolsonaro, na gigantesca Igreja Batista da Lagoinha (Belo Horizonte). No Maracanãzinho, Bolsonaro disse que foi salvo da facada, pois é o escolhido.

Essa narrativa, na opinião de Esther, é perigosa, porque não é apenas retórica eleitoral contra Lula, mas também contra o sistema eleitoral. “Os homens não podem rejeitar o escolhido de Deus. Isto é inimaginável! O TSE seria o obstáculo contra essa cura espiritual”, explica.

“Bolsonaro atua para blocar o grupo evangélico, mas também preparar uma narrativa messiânica para o caso de perder”, acrescentou ela. Ou seja, o modo como Bolsonaro se firma espiritualmente entre setores conservadores é algo que tende a persistir no longo prazo. 

Outro elemento que ganha força nesta batalha é a esposa Michelle Bolsonaro. Esther cita pesquisa em que ela detinha uma imagem positiva para 80% do público evangélico. “Michelle é a imagem gentil, pacífica, que domestica o bolsonarismo. É vista como legitimamente evangélica, natural ao falar com o léxico evangélico”, descreve. 

Outra observação da pesquisadora é que notou que, em algumas igrejas havia cursos do Ministério da Família, coordenados pela ministra Damares Alves, com o objetivo de politizar as mulheres nas igrejas. “Uma preocupação com o empoderamento de mulheres, que é o calcanhar de Aquiles de Bolsonaro. Algo que promove uma politização bolsonarista mais difusa que, simplesmente, a do pastor no púlpito”.

O problema não é Lula

Por mais grosseiro que possa parecer, o modo como o bolsonarismo turbina o pânico moral na campanha gera uma desconfiança em relação ao Lula. “E a família? Estou de olho no que ele vai falar”, relata Esther, sobre a expectativa criada em torno de temas como aborto, maconha e segurança pública, que Lula já deu sinais controversos na pré-campanha.

A pergunta continua sem resposta e Bolsonaro começa a recuperar este público evangélico oscilante. Eles voltam para Bolsonaro mesmo insatisfeitos, diz ela, por pânico moral do PT.

Agora, os evangélicos sabem que ninguém pode governar sem eles. “Saíram do armário e não querem voltar mais. Querem ser escutados e conversar com o PT”, disse ela.

Bolsonaro conta com pastores influenciadores do lado dele, assim como em seu governo, que reunem 50 milhões de seguidores. “Uma militância pentecostal organizada brutal, com a qual não temos contato. Com isso, o bolsonarismo turbina pautas de coesão familiar e representatividade religiosa como algo central”, informa.

Muitas perguntas ainda estão no ar, enquanto Bolsonaro participa de macrocultos todo final de semana: Se o Lula é bom para os evangélicos, cade o pastor do lado dele? Onde estão as promessas de Lula para cuidar da família? 

Esther observa uma demonização intensa do PT. Este público entende Lula como conservador, católico, um homem de fé, que não representa ameaça. No entanto, a ameaça é o campo que orbita em torno de um governo de Lula, formado pelo movimento feminista, LGBT+, e suas demandas de gênero e sexualidade.

Nesta campanha, um elemento muito explorado nas igrejas é o fato da esposa de Lula, a Janja, ter vários vídeos em que interage com religiões de matriz africana, e que sugerem que ela pratica ou praticou alguma dessas religiões. “O ecossistema pentecostal já começa a turbinar esse tipo de informação, descrevendo Janja como uma representante desse mundo diabólico”, diz a pesquisadora. 

Cada vez se reforça mais que Bolsonaro é o representante do povo de Deus e Lula é das religiões de matriz africana, já que todo candidato tem que ter uma religião para chamar de sua. “Como cereja do bolo, Janja estaria no Instagram confirmando isso. A narrativa está completa”.

Esther defende que é preciso pensar o papel do campo progressista para recolocar esse debate com o público pentecostal e popular, “para que esse campo conservador não se cristalize ao ponto de deixar de ser oscilante”.

O bolsonarista oscilante

Em suas entrevistas, Esther conversou com religiosos de muitas igrejas pentecostais diferentes, entre maio e agosto, que votaram em Bolsonaro, mas estavam frustrados e pensavam em votar em Lula ou não votar. Um grupo que ela define como conservador, moderado, arrependido e popular.

Ela observou que, em abril, estes evangélicos estavam divididos pela metade, movidos pelo desespero econômico e um incômodo existencial por Bolsonaro ter debochado dos mortos pela covid e se regozijado desse sofrimento.

Para Esther, há um erro de diagnóstico do campo progressista em desagregar as duas pautas: a resposta material da existencial. “Não adianta só apresentar soluções para os problemas econômicos. Precisa ter resposta para as duas coisas (pautas comportamentais, morais e existenciais)”, alertou.

Esther aponta as dificuldades de Bolsonaro para reagrupar este eleitorado evangélico. O evangélico não considera a hipótese de criticar Bolsonaro como falso cristão, como fazem opositores, pois esta é uma questão privada. Mas criticam suas atitudes. O discurso cristão está muito vinculado a noção de cuidado, acolhimento e abraço, que faltou ao presidente durante a crise da pandemia. Mas também à noção de respeito pelo lugar que o cristão ocupa na sociedade, o comprometimento com as leis de Deus e dos homens. Neste sentido, Bolsonaro falha em atacar os ritos da democracia e da Presidência da República.

Por outro lado, a pesquisadora percebeu uma clara reconexão desse eleitorado com Lula movida pelo desespero econômico e material, que ativou uma memória afetiva de um governo que garantiu comida na mesa, dignidade econômica. 

Mas essa reconexão com Lula não é apenas pragmática e utilitarista. “Lula cuidava da gente, se preocupava com a gente, com o trabalhador”, cita ela. Neste contexto, essas pessoas chegaram a questionar a Operação Lava Jato e os titubeios de Sérgio Moro, se sentindo enganadas. 

Junto com essas desconfianças movidas pelo desespero econômico, Esther percebeu um burburinho de incômodo e cansaço com a politização das igrejas. Uma percepção de que isso só serve ao projeto político de alguns pastores.

O diálogo possível

Esther foi direta sobre as possibilidades de diálogo no curto prazo. “Como pesquisadora, é muito claro pra mim, que no curto prazo, o que tem que ser feito, é tirar foto orando, ir ao culto, colocar o pastor do lado, negar o aborto e a maconha. Se não for assim, alguns candidatos, como o Marcelo Freixo, no Rio, perdem antes de começar. Esse é o Rio de Janeiro que ele vive e o Brasil que temos”, afirmou. 

No longo prazo da política, a socióloga avalia que o bolsonarismo nos colocou numa outra dimensão do material, do simbólico, do moral e do espiritual. Para enfrentar isso, ela considera que é preciso ir ao território, seja on line e off line, buscar o consenso no cotidiano desta população.

“Vai ser impossível legislar sobre aborto no Brasil de cima pra baixo. Tem que dialogar sobre as questões dos direitos sexuais e reprodutivos devagar, por baixo, por consenso, aos poucos”, exemplifica.

Em sua pesquisa, ela observa uma juventude que expressa uma potência feminista nas igrejas que é muito forte, mesmo não sendo exatamente o feminismo de esquerda. São meninas que não se sentem plenamente à vontade nessas igrejas pentecostais. Assim, como aparecem meninos que são contrários à discriminação e ao preconceito contra LGBT+ e não são contemplados nas igrejas que frequentam.

“A sociabilidade desses jovens está lá, na igreja, mas nós não estamos. No on line, esses jovens têm acesso a uma diversidade de debates grandes, que abre brechas progressistas”, ressalta.

Outra pista que Esther dá, a partir de suas entrevistas, é que essas pessoas conservadoras se incomodam mais com a intolerância, arrogância e imposição das esquerdas, do que com suas pautas. Ela citou o caso das questões de gênero e sexualidade que estes jovens estão dispostos a respeitar, desde que as minorias em questão tenham paciência para explicar.

Ela também exemplifica que há pautas de segurança pública que podem ser tratadas de forma a esse público compreender. “Não dá pra falar em abolicionismo penal, mas dá pra falar em controle de armas. Pra eles, a arma é a Bíblia, não a pistola. Diminuir o número de armas nas ruas é entendido como uma forma de proteger a família. 

“É preciso estar no território, ter sutileza comunicacional, estratégia e tempo. A 40 dias da eleição não dá pra fazer isso, porque o Bolsonaro já está fazendo isso 24 horas por dia, há anos”, concluiu. 

(por Cezar Xavier)