Eleição de Lula se soma à série de vitórias progressistas na região. Ana Prestes analisa como esses governos podem cooperar para uma integração continental.

A vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo (30) é a mais recente de uma série de eleições presidenciais com resultado de avanço da esquerda na América Latina, com consequências de alinhamento de posições em torno de desafios comuns e expectativa de cooperação para problemas regionais.

Um avanço ainda maior que aquele da “onda rosa” que atingiu a região há duas décadas – quando o cenário era distinto e as ambições da esquerda também. Somente Uruguai, Paraguai, Equador e Guatemala são comandados hoje por líderes com projetos claros de direita na região.

No ano passado, Pedro Castillo venceu no Peru e Gabriel Boric, no Chile. Neste ano, Gustavo Petro também tornou-se o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia. Para nenhum desses novos presidentes, está sendo fácil governar em meio ao cenário de mobilização de extrema-direita que não existia lá atrás. 

Impacto visível

A cientista política Ana Prestes analisou o novo cenário, destacando de cara que foi visível o impacto imediato da eleição de Lula em todo o mundo, mas em especial na América Latina.

“O presidente da Argentina [Alberto Fernández] pegou um avião, e, em menos de 24 horas, baixou em São Paulo na manhã de segunda-feira para um encontro efusivo. Nem tinha fechado 100% das urnas e [Gabriel] Boric, [Gustavo] Petro e Lopes Obrador [presidente do México] já cumprimentavam efusivamente Lula. Até Lacalle Pou do Uruguai e Mario Abdo do Paraguai, que não estão alinhados com o projeto da esquerda, se manifestaram, pois são membros do Mercosul”, observou.

Extrema-direita mobilizada

Apesar da esquerda ter chegado o governo nesses países, a situação interna é de divisão social e muita dificuldade econômica. Outra novidade é ter lideranças de extrema-direita mobilizando a sociedade em vários países.

Para a analista, uma unidade de esquerda na América Latina é fundamental contra a instabilidade política no Brasil. “Bolsonaro só não tem ambiente para golpe, porque não tem [Iván] Duque na Colômbia, [Sebastián] Piñera no Chile, [Martin] Vizcarra no Peru, como tinha quando ele assumiu. Lembre-se que naquele período, só se falava em guerra a Venezuela e Grupo de Lima. Com aquela composição, o cenário de posse para Lula seria muito diferente”, ponderou. 

Ela destacou os episódios em que, em países governadores pela esquerda, líderes de direita conseguem mobilizar massas de oposição. “Antonio Kast colocou 60% das pessoas para votar contra a Constituição do Chile, que tinha sido construída nas ruas”, diz, acrescentando que há uma parcela grande da população brasileira mobilizada pelo bolsonarismo. 

Na Colômbia não é fácil a situação, como também no Chile e no Peru. “Venezuela não está em seu pior momento, mas não conseguiu se estabilizar. Argentina está com problemas gravíssimos inflacionários, decorrentes do endividamento do Macri com o FMI”, relata. 

O México esta numa situação melhor, analisa ela, pois não tem a divisão profunda, com López Obrador com muito apoio no parlamento e na sociedade. “Economicamente tem conseguido dar respostas sociais importantes, embora tenha um problema profundo de imigração. Penso que o López Obrador tem conseguido levar muito bem, inclusive a relação com os EUA, e segurando a situação do país para avançar em questões infraestruturais e benefícios sociais”. 

Integração interrompida

A perspectiva da volta de Lula é muito importante para um processo interrompido de integração da América Latina. “Já se fala na retomada da Unasul e da Celac”, diz ela, citando os organismos que integram apenas países sul-americanos e outro que integra também centrais e do Caribe. 

Ela relata que, nos últimos meses, tem havido um reposicionamento de vários líderes com relação a dar um freio na OEA (Organização dos Estados Americanos), pelo papel que tem exercido na promoção de golpes, como foi provado em 2019, na Bolívia.

A expectativa em torno da eleição de Lula é muito grande para enfrentamento dos desafios que a América Latina enfrenta hoje, em temas sociais, logística, integração econômica, enfrentamento das mudanças climáticas. “Além disso, a multipolaridade que avança com a ascensão da China, uma guerra no coração da Europa e outros temas das relações internacionais precisam ser tratados de forma mais ousada”, pontuou.

A ascensão, crescimento e consolidação da China, como apresentada no 20o. Congresso do Partido Comunista, propõe uma outra situação para o continente. “Vamos precisar de uma América Latina unida, integrada se transformando num polo que vai interagir com essas novas polaridades de poder econômico”.

BRICS e a guerra

O Brasil vai ter que reconquistar seu papel nos BRICS, que mudou também. A Argentina está chegando para compor o bloco.

O fato de uma guerra envolver mais diretamente a Rússia e a China, não deve esfriar as relações entre os países, na opinião de Ana. Com o novo Banco de Desenvolvimento, ela acredita que o bloco “tem tudo para deslanchar”.

Além do distanciamento do Brasil e da foco da Rússia na guerra, a socióloga salienta que a China e a Índia têm tido diferenças no campo militar, embora estejam muito afinados em relação à guerra. “O Brasil, como a África do Sul, assumiu uma posição mais periférica em relação ao bloco, por perdas econômicas, mas também pelo afastamento de Bolsonaro”.

No entanto, ela considera que o Brasil tem alguma identidade com este polo geopolítico em muitos temas. “Em relação à guerra, vejo o Brasil se relacionando mais com a postura desses países, do que com o alinhamento automático querido pelos EUA, deixando de assumir uma postura mais agressiva contra a Rússia”, aposta.

O Brasil também pode contribuir para uma mediação e dissuasão do conflito, em sua opinião. “Veja que tanto Putin, quanto Zelensky cumprimentaram Lula, como um antigo amigo da Ucrânia e da Rússia. Lembram do papel que Lula e Celso Amorim exerceram, lá atrás, nos acordos com o Irã”, diz.

Maiores economias

Tem uma conjunção que é inédita, por serem as maiores economias do continente governadas por frentes amplas lideradas pela esquerda. Colômbia, Argentina, Chile e Brasil, além do México que tem liderado a posição com relação a OEA e a Celac.

Para além das necessidades de logística e infraestrutura, Ana ressalta o que Lula já tem falado em relação as possibilidades de acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

“Os desafios se apresentam também no modo como o Uruguai quer se desvencilhar do bloco para fazer seus acordos bilaterais com a China e o Chile. Petros da Colombia traz uma pauta ligada à economia verde, o papel do petróleo e os créditos de carbono.

Diferentes ondas

Os partidos que protagonizaram a “onda rosa” há vinte anos tinham desafios diferentes dos atuais. O cenário do final dos anos 1990 e virada do século apresentava desafios internacionais que unificavam a esquerda. Agora, cada um tem problemas domésticos graves para resolver. Quais são os temas que dão liga nesses governos, hoje?

Quando houve a onda rosa com a ascensão de Hugo Cháves (Venezuela), Lula (Brasil), Néstor Kirshner (Argentina), Rafael Correia (Equador), Evo Morales (Bolívia), Tabaré Vásquez (Uruguai) e Mauricio Funes (Equador), tinha havido a derrocada da União Soviética e os EUA proclamavam uma unipolaridade neoliberal, mas veio o 11 de setembro, que deu base a uma beligerância dos EUA, com as guerras no Iraque e no Afeganistão. 

“Paradoxalmente, para a América Latina, esse foco no Oriente Médio, favoreceu uma certa autonomia, com os americanos fora do continente. Uma onda positiva que logo virou com a chegada da crise econômica de 2008”, diz Ana.

O mundo de hoje é muito diferente daquele, porque não há uma unipolaridade, mas uma transição para a multipolaridade. O mundo ainda vive os efeitos da crise de 2008, com uma guerra no coração da Europa, entre Rússia e Ucrânia, mobilizando vários países e gerando desafios econômicos difíceis para o mundo. 

Temas que unem

Ana avalia que, o que dava muita liga aos projetos dos governos de esquerda em ascensão no continente, naquela primeira fase pós-Consenso de Washington, era o antineoliberalismo e a busca de projetos sociais. “Tínhamos um continente varrido pelo neoliberalismo e a fome”. 

Essa agenda não foi superada, mas surgem temas importantes como as mudanças climáticas e a proteção aos povos originários. Ficou demonstrada com a pandemia que faltou integração para uma cooperação para a saúde, o que deve se tornar uma agenda. Pelas relações consolidadas da Bolívia e da Argentina com a China, uma integração logística e infraestrutural deve vir com força, na opinião dela.

A agenda da defesa democracia também pode afinar as relações entre os países. Um esforço para fortalecer os regimes locais contra golpismos, que vem desde a postura dos governos atuais contra os abusos da OEA. 

Houve um golpe na Bolívia, o Peru vive um golpismo constante, e o Brasil está se reencontrando com o caminho da democracia. “Eu não vejo, neste momento, os EUA agindo para desestabilizar governos da América Latina. Eles estão envolvidos na guerra da Ucrânia e têm um problemão pela frente, que é a China. A própria relação com a Venezuela mudou. Eles abandonaram o Juan Guaidó no meio da estrada, porque precisam de combustível”, sugere. 

“Apesar disso, esperávamos que Joe Biden fosse aliviar o aperto de Trump contra Cuba, coisa que ele não fez. Posso estar equivocada, mas não vejo os EUA, hoje, agindo como fizeram no golpe de Honduras, do Paraguai, na espionagem ao governo Dilma”. 

Ana acredita que os EUA precisam ser mais colaborativos com a América Latina, mas não vão abandonar a OEA como instrumento golpista. “A gente acaba de ter uma Cúpula das Américas que excluiu Venezuela, Nicarágua, Cuba, numa tentativa também de interferir nas eleições colombianas, à época”, recorda.

Ambições da esquerda

Os temas socialistas que se articulavam na primeira onda de esquerda também devem sofrer o impacto da mudança de cenário internacional. 

Tem uma crise econômica que não foi superada, tem uma guerra, os EUA vivendo uma inflação alta, assim como o Brasil, com fome e desemprego. “Por isso, penso que as maiores ousadias que virão têm a ver com esse estreitamento de relação com a China, e o que ela pode apoiar de desenvolvimento de infraestrutura e logística no continente”, afirmou. 

Na opinião dela, o Gustavo Petros deverá ter um papel importante na integração econômica do Mercosul. Argentina e Uruguai vivem momentos difíceis e praticamente abandonaram o bloco comercial. “Mas, concordo que, em vários aspectos, vai ser mais contido este momento da esquerda”, admite.

Por Cezar Xavier