O psicanalista Joel Birman descreve os mecanismos psíquicos que levam uma parcela da população ao delírio, ao transe e à possessão, que lembram sujeitos esquizofrênicos.

Em artigo do psiquiatra e psicanalista Joel Birman à Folha de S. Paulo deste domingo (20), ele analisa a fratura provocada pelo bolsonarismo numa parcela da população que tem se comportado como golpista, desde a derrota eleitoral do seu candidato. O artigo Apocalipse à brasileira, descreve o que ele considera uma “atmosfera lúgubre do delírio, marcada por transe e possessão”.

O recorte que Birman faz do “Capitólio brasileiro”, a série de atos golpistas que se espalharam e persistem pelo país, observa que o caráter financiado das manifestações, a cumplicidade de instituições do estado, mas principalmente o modo como o pensamento místico domina o comportamento dos manifestantes.

“O fervor religioso permeia os discursos registrados em ambos os cenários, marca saliente da extrema direita do país que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo, pois a eleição brasileira foi transformada numa luta do bem contra o mal”, diz ele, lembrando o tom da campanha de Jair Bolsonaro (PL).

Ele também salienta as imagens que se espalham nas redes sociais como analogias religiosas, como “pneus transformados em altares para o exorcismo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), imagens evocando o Muro das Lamentações como santuário e mulheres em roda, cobertas com a bandeira brasileira, orando como um corifeu grego que o “diabólico STF” não vai calá-las”.

Tudo isso imerso num discurso de defesa de liberdades e pedidos desesperados por ditadura militar. “Enfim, entra definitivamente em cena a atmosfera lúgubre do delírio (místico), marcado pelo transe e pela possessão entre os arruaceiros operísticos”, descreve o psicanalista da UFRJ.

Birman se questiona, como pesquisador, o que levou a esta perigosa conexão entre política e teologia. “O que ocorreu conosco nesse tempo nefasto foi a tortura diária por meio das falas do presidente nas redes sociais e na televisão, numa pregação antidemocrática contra o Poder Judiciário, com a cumplicidade remunerada do Congresso Nacional (orçamento secreto), do Ministério Público e da Polícia Federal, buscando tornar viável o mito do presidente “imbrochável” e as práticas sistemáticas da necropolítica nos menores detalhes, indo da destruição da Amazônia à política armamentista da população, sem esquecer o genocídio perpetrado na pandemia de Covid-19″, pontua.

Para ele, o fato de sermos uma população campeã no consumo de smartphones e redes sociais no mundo, também contribuiu para transportar a política para o ambito fragmentário, superficial e enclausurado em bolhas das redes sociais. Corações e mentes de brasileiros vulneráveis e ressentidos são envolvidos por uma lógica clandestina de mentiras e desinformação fortemente emocional.

“A massa bolsonarista passou a alimentar as suas convicções e crenças num sistema perverso de informação que bloqueava e não queria saber de nada que colocasse em questão as versões propaladas pelos seus redutos, disseminando a céu aberto a dissonância cognitiva (Festinger), que promoveu estragos consideráveis no espírito dos brasileiros”.

Do ponto de vista clínico, o autor aponta os mecanismos psíquicos que agiram para esta devastação mental: a dupla mensagem de Bateson —quando alguém fala algo e tem ao mesmo tempo uma atitude oposta. Ele cita as mães esquizofrenogênicas, que geram a esquizofrenia nos filhos por superprotegê-los e rejeitá-los ao mesmo tempo. Mas também fala do desmentido de Ferenczi —quando alguém é abusado por um Outro, que não reconhece e não admite o que faz.

Ou seja, Bolsonaro se comportou de modo a gerar seus eleitores esquizofrênicos, ao manipulá-los em torno de um ideário de Brasil e decepcioná-los o tempo todo ao não efetivar o golpe militar. Mas também gerou este comportamento nas ruas ao promover tanta dor com suas políticas, embora negue e ignore sua responsabilidade sobre tudo.

Desta forma, Birman diagnostica essa coletividade com uma divisão psíquica e fragmentação mental, “num estado confusional de ordem mística, afastando-nos do reconhecimento da palavra do Outro e dos laços sociais”.

“Com isso, a confiança em que se baseava a democracia foi desconstruída, incidindo destrutivamente sobre as nossas convicções fundamentais como humanos. Foi por esse viés que o ódio se disseminou, de forma ampla, impondo assim o princípio nazista de Carl Schmitt de que a política é a linha estabelecida entre os amigos e os inimigos, numa forma de dissolução da cordialidade brasileira (Sérgio Buarque de Holanda)”.