Considerada a última ação de extermínio da ditadura militar (1964-1985), a Chacina da Lapa, assassinato brutal de três dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), completa 49 anos nesta terça-feira (16).
Militantes históricos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Ângelo Arroyo e Pedro Ventura de Araújo Pomar foram assassinados por agentes da repressão que metralharam a casa número 767 da Rua Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo (SP), na manhã do dia 16 de dezembro de 1976. O Comitê Central do PCdoB estava reunido naquele endereço desde o dia 14 de dezembro para discutir a derrota da Guerrilha do Araguaia pela repressão da ditadura militar (1964-1985).
Um dos comandantes da Guerrilha do Araguaia, Arroyo havia recém-completado 48 anos. Ex-deputado pelo PSP, Pedro Pomar estava com 63 anos. Integrante mais novo da direção do PCdoB, João Batista Franco Drumond foi detido pelos militares e morto sob tortura aos 34 anos.
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A invasão da casa e o assassinato dos dirigentes a tiros de metralhadora aconteceram entre 6h e 7h da manhã do dia 16 de dezembro.
Maria Trindade estava na casa passando o café no momento da invasão quando ouviu barulho dos vidros estilhaçando. Em relato para o jornal Zero Hora, em 3 de novembro de 1995, ela conta ter visto Ângelo Arroyo ser atingido assim que saía do banheiro, por uma bala que vinha do lado de fora da casa. Pedro Pomar foi morto a tiros na sala da residência.
Outros militantes que estiveram presentes na reunião haviam sido presos na noite anterior, após deixarem a casa, separadamente: Elza Monnerat, Haroldo Lima, Aldo Arantes, Wladimir Pomar, Joaquim Celso de Lima e João Batista Franco Drumond. Também foram detidas e levadas para a sede do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do II Exército os moradores da residência, Maria Trindade e Joaquim Celso de Lima.
O advogado Aldo Arantes, único presente naquela reunião ainda vivo, estava com 38 anos. Assim como Drumond, era militante da Ação Popular (AP) que havia sido incorporada ao PCdoB em 1972. Arantes deixou a casa na noite do dia 15 de dezembro junto com Haroldo de Lima em um Corcel azul dirigido por Joaquim Celso de Lima e acabou preso pelos agentes da repressão no momento em que entrava na estação do metrô Paraíso, de onde iria para a sua casa em Itaquera.
“Fui imediatamente levado para o DOI-CODI e violentamente torturado. Durante a tortura, à noite, ouvi um barulho que teve a ver com o assassinato do Drumond. Posteriormente, fomos informados que ele foi preso e assassinado na tortura, embora tenham pretendido montar uma história de que ele havia morrido atropelado ao tentar fugir”, relatou ao Portal Grabois.
Drumond havia saído da casa junto com Wladimir Pomar na viagem anterior, no mesmo carro dirigido por Joaquim Celso de Lima, de olhos vendados e sob a vigilância de Elza Monnerat. Ambos ficaram na Avenida Nove de Julho e tomaram direções diferentes.
Antes de deixar a casa, Drumond havia guardado alguns documentos do PCdoB dentro de um pacote de biscoito, recorda Arantes:
“Durante a tortura, ouvi comentários que a pessoa que estava com o pacote de biscoito tinha pulado. Na verdade, eles assassinaram e procuraram montar uma história.”
Os agentes de repressão seguiram Haroldo de Lima até a sua residência na Avenida Pompéia e ficaram de campana à espera de que mais algum integrante pudesse se dirigir para lá. A prisão só aconteceu na manhã seguinte, quando ele saía de casa. “Ambos fomos violentamente torturados”, recorda Arantes. Wladimir Pomar, Aldo Arantes e Haroldo Lima sobreviveram às torturas.

Jornal do Brasil reproduz farsa montada pela ditadura para anunciar mortes de Drumond, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Foto: Acervo / CDM
‘A Classe Operária’ denuncia o crime
A edição histórica do jornal A Classe Operária, publicada em janeiro de 1977, foi dedicada a denunciar o “crime monstruoso dos generais fascistas”, conforme destacou a manchete do jornal.
O país era governado naquele momento pelo general Ernesto Geisel (1974-1975). Após a reação popular ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, Geisel enfatizava em seus discursos que o regime autoritário passava por um processo de “abertura lenta, gradual e segura” em uma transição para um regime democrático.
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Assim como no caso de Herzog, os militares adulteraram a cena do crime na Lapa. Colocaram armas ao lado de Arroyo e Pomar, alegaram tentativa de resistência, com troca de tiros, para justificar o assassinato dos dirigentes comunistas. Uma foto da cena do crime com os corpos alvejados de balas no interior da casa, com as armas colocadas pelos militares ao lado, foi divulgada à imprensa.

Chacina da Lapa foi uma das ações mais violentas da ditadura. Fonte: Acervo / CDM FMG
“O II Exército, em colaboração com o I Exército e o CENIMAR, incumbiu-se de levar a cabo uma operação terrorista contra aqueles elementos que culminou com o assassinato frio e calculado dos camaradas Pedro Pomar, Ângelo Arroio e João Batista Drumond e com a prisão de outros quadros do Partido, entre os quais, Elza Monnerat, Aldo Arantes, Haroldo Rodrigues de Lima e Wladimir Torres Pomar”, denunciou A Classe Operária.
O jornal destaca outros crimes cometidos pela ditadura, como as bombas que agentes da repressão explodiram na sede da ABI e da Ordem dos Advogados do Brasil, além das torturas utilizadas contra uma centena de camponeses, “amarrados como bichos” nas ruas de São Geraldo, no Araguaia.
“Agora, dirigentes comunistas são abatidos a tiros de metralhadoras ou nas câmaras de tortura. Os fatos demonstram que os militares fascistas prosseguem no mesmo caminho do terrorismo policial, há anos posto em prática, e que consideram indispensável à segurança de um regime antinacional e antipopular condenado pela esmagadora maioria dos brasileiros.”
A publicação informa que o assassinato dos dirigentes comunistas reverberou em dezenas de diretórios universitários e outras organizações e personalidades brasileiras, além de uma ampla campanha de solidariedade desenvolvida no exterior.
“O sangue de Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond não correu em vão. Transforma-se num apelo eloquente aos operários, camponeses, estudantes, intelectuais, aos democratas e patriotas para levar adiante a gloriosa tarefa de livrar o Brasil da peste militar-fascista e conquistar o direito a uma nova vida de liberdade, progresso, independência e justiça social.”

Capa do jornal A Classe Operária, de janeiro de 1977, que noticia a Chacina da Lapa [CDM]
“Utilizando metralhadoras, bombas e inclusive armas pesadas, atacou a referida residência deixando-a semi destruída. Após o ataque a casa foi totalmente saqueada pelas forças repressivas. Nesse ataque criminoso contra o PC do Brasil, que luta pela liberdade e a independência nacional, o Exército assassinou covardemente três de seus mais destacados dirigentes: os camaradas Pedro Pomar, Ângelo Arroio e João Batista Drumond.”
Quando a edição de A Classe Operária foi publicada, havia dois dirigentes do PCdoB ainda desaparecidos: Manoel Jover Teles e José Novais, sem qualquer informação do Exército a seu respeito. Eles haviam deixado a residência juntos, no carro dirigido por Elza Monnerat.
“Quando perceberam que estavam sendo seguidos, tentaram despistar e se separaram. Não prenderam o Novais para não prender o Jover Teles naquele momento, pois, como soubemos depois, Jover havia sido preso e torturado no Rio de Janeiro e se tornado um traidor, passando para o lado da repressão”, conta Arantes.
Por medida de segurança, nenhum dos participantes daquela reunião do Comitê Central do PCdoB havia sido informado com antecedência sobre o local onde se daria o encontro. Elza Monnerat buscou cada um dos integrantes de carro, mas Jover Teles já havia avisado os militares sobre a reunião do Comitê Central e permitiu que os agentes da repressão o seguissem para descobrir o local.
Assista ao vídeo da TV Grabois com depoimentos de sobreviventes
Responsabilidade do Estado
O relatório elaborado pela Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes cometidos pela ditadura, revela que a preparação da operação policial teve início no dia 10 de dezembro de 1976, quando o general de brigada Carlos Xavier de Miranda, chefe do Estado Maior do II Exército, encaminhou ao coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança Pública de São Paulo, um ofício informando que havia tomado conhecimento de “reuniões clandestinas” entre integrantes do PCdoB na região da Lapa.
Esse documento foi encaminhado ao Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) e o delegado Sérgio Paranhos Fleury determinou uma investigação confidencial.
No dia 14 de dezembro, o coronel Erasmo Dias recebeu a informação sobre a data, horário e local da operação para prender os dirigentes do PCdoB e solicitou um esquema de segurança que incluía o desvio do trânsito na rua Pio XI, onde seria realizada a operação.
A casa foi cercada por agentes do DOI-CODI, sob o comando do tenente-coronel Rufino Ferreira Neves.
“De acordo com o relato de moradores vizinhos da casa onde ocorreu a chacina, não houve troca de tiros. Segundo as testemunhas, os tiros foram disparados do lado de fora da casa, onde estavam os agentes da repressão”, destaca o relatório da CNV.
Vítimas da ditadura têm novas certidões de óbito entregues às famílias em São Paulo
João Batista Franco Drumond, Ângelo Arroyo e Pedro Pomar tiveram os atestados de óbitos retificados tendo como causa mortis a violência do Estado brasileiro. Os documentos foram entregues às famílias em 2025 pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
A retificação das certidões foi estabelecida em decisão do Conselho Nacional de Justiça em dezembro de 2024.