O Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois entra em uma nova fase de atuação em 2026. Após um intenso período de reorganização estrutural, técnica e física, o Centro busca se consolidar como um importante guardião da memória do movimento comunista e das lutas sociais no Brasil.
No final de 2025, o CDM passou por uma “arrumação geral”. As providências recentes vão muito além de uma simples arrumação de estantes. Trata-se de uma reformulação completa que envolveu desde a alteração do layout do espaço físico até a recuperação de itens que estavam há anos aguardando tratamento técnico. Com o apoio da consultoria especializada Armazém de História, foram processados milhares de itens recebidos pela instituição ao longo dos últimos cinco anos, transformando caixas de documentos outrora desorganizados em fontes de consulta científica e política.
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Resgate de tesouros esquecidos
Um dos pontos altos desta nova fase foi a recuperação de um acervo audiovisual que estava esquecido em uma das salas do prédio. Centenas de filmes históricos e documentários foram organizados e estão em fase de classificação para integrarem o catálogo oficial. Entre as relíquias, destacam-se produções de valor inestimável como o documentário Linha de Montagem, de Renato Tapajós, além de clássicos do cinema político mundial, como O Encouraçado Potemkin, do cineasta soviético Serguei Eisenstein.
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A intervenção também alcançou as artes plásticas. Telas de artistas renomados, como Edíria Carneiro e Gershon Knispel, doadas à Fundação, passaram por processos de conservação. O mesmo cuidado foi aplicado ao acervo museológico, cujos objetos foram resgatados para futura exposição pública, permitindo que a história seja contada também por meio da cultura material.
A biblioteca do Centro também passa a contar com centenas de novos livros, com destaque para a coleção de publicações doada pela família de Diógenes Arruda e livros recentes do catálogo das editoras Anita Garibaldi e Boitempo, boa parte deles publicados em parceria com a Fundação Maurício Grabois.

Parte do acervo audiovisual do Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois. Foto: CDM/Divulgação
Gestão técnica e rigor científico
A organização de um acervo dessa magnitude – que já conta com mais de 25 mil fotos impressas, 150 mil digitais e uma biblioteca com cerca de 3 mil títulos – exige escolhas estratégicas. Recentemente, a instalação do Conselho Político do CDM trouxe uma nova camada de governança ao Centro.
Em uma de suas decisões mais pragmáticas, o Conselho autorizou o descarte ou doação de materiais duplicados ou que não se alinhavam ao perfil do acervo, otimizando o espaço físico e focando os recursos naquilo que é essencial para a identidade da instituição. Este esforço de “curadoria” é acompanhado pelo resgate de conteúdos digitais, buscando dar organicidade ao trabalho e garantir que a memória preservada seja, de fato, acessível.
O Conselho Político é composto por seis camaradas com perfil e atuação profissional alinhados ao trabalho do Centro de Documentação e Memória. São eles: o jornalista Cláudio Gonzalez, que desde junho assumiu a coordenação do Centro e será o responsável, juntamente com Felipe Spadari, pela efetivação do plano de atividades do CDM; o escritor e também jornalista Osvaldo Bertolino, autor de diversos livros sobre a história do Partido e de suas lideranças históricas; o dirigente comunista Raul Carrion, membro do Comitê Central do PCdoB e responsável pela Fundação Maurício Grabois no Rio Grande do Sul; a bibliotecária e dirigente nacional do PCdoB Liége Rocha, que também está contribuindo com a reorganização da biblioteca do CDM; o historiador e pesquisador Fernando Garcia, que coordenou o CDM por 15 anos e agora irá oferecer sua contribuição e experiência como membro do Conselho; e o advogado Leocir Costa Rosa, diretor administrativo da Fundação, que exercerá a função de coordenador do Conselho.
Um legado de luta e identidade
Fundado em 2009 sob a liderança do historiador Augusto Buonicore, o CDM nasceu com a missão de coletar e conservar a documentação histórica do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e das lutas populares. O acervo é uma verdadeira “máquina do tempo” da resistência brasileira:
- Hemeroteca: contém uma das coleções mais completas da imprensa operária, com 849 edições de A Classe Operária, além de exemplares da Tribuna da Luta Operária e das revistas Princípios, Problemas e Movimento.
- Relíquias Sonoras: o acervo abriga 733 fitas (K7 e rolos) que registram desde os primeiros programas de rádio partidários até palestras históricas de dirigentes como João Amazonas e Diógenes Arruda, gravadas na Albânia em 1977.
- Documentação Política: são 160 caixas de documentos que detalham resoluções, congressos e conferências que moldaram a esquerda brasileira ao longo das décadas.
O futuro: difusão e formação política
Para a Fundação Maurício Grabois, a organização do CDM não é um fim em si mesma. O objetivo final é a difusão. O portal Grabois.org continua sendo o principal canal de escoamento dessa riqueza, oferecendo roteiros temáticos de pesquisa, exposições virtuais e cronologias que narram os mais de 100 anos de trajetória dos comunistas no país.
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Ao unir o rigor das ciências da informação, com a arquivologia e a biblioteconomia, à análise histórica e sociológica, o CDM reafirma o papel dos comunistas como sujeitos ativos na transformação da realidade brasileira. O novo layout e a ampliação do acervo garantem que pesquisadores, militantes e a sociedade em geral tenham as ferramentas necessárias para estudar o passado e, a partir dele, compreender os desafios do presente.
Com as novas instalações e o acervo processado, o Centro de Documentação e Memória não apenas guarda papéis e filmes; ele salvaguarda a própria alma da resistência democrática e popular do Brasil.